Cozinhando Discografias: PJ Harvey

 

Nascida na cidade de Dorset, sudoeste da Inglaterra, Polly Jean Harvey talvez seja um dos maiores símbolos do rock alternativo nos anos 1990. Com três décadas de carreira completas, a cantora e compositora britânica fez da relação com o rock produzido no final dos anos 1970 o principal estímulo para a composição do próprio trabalho. Registros banhados por sentimentos e temas sempre particulares, intimistas, provocativos e eróticos. Uma verdadeira coleção de clássicos que tem início na dobradinha Dry (1992) e Rid of Me (1993), passa por obras como Stories from the City, Stories from the Sea (2000) e White Chalk (2007), até alcançar o político Let England Shake (2011). Trabalhos organizados do pior para o melhor lançamento em mais uma edição da seção Cozinhando Discografias.

 

Menção Honrosa: The Peel Sessions 1991–2004
(2006, Island)

Em quase quatro décadas de atuação, representantes de diferentes cenas e tendências musicais passaram pelos estúdios da BBC Radio 1 para se apresentar no programa do radialista britânico John Peel. Amiga íntima de Peel, PJ Harvey teve grande parte dos trabalhos apresentados publicamente durante as sessões com o radialista. Da estreia com Dry (1992), passando pelo colaborativo Dance Hall at Louse Point (1996), composições lançadas em trilhas sonoras, até alcançar Uh Huh Her (2004), não foram poucos os encontros da dupla dentro de estúdio. Com a morte de Peel, em outubro de 2004, Harvey decidiu revisitar esse extenso repertório, resgatando algumas das principais performances captadas pelo radialista. Organizado de forma cronológica, o trabalho abre em meio a canções como Oh My Lover e Sheela-Na-Gig, ambas do primeiro disco da cantora, passa por Naked Cousin, originalmente composta para a trilha sonora do filme O Corvo – A Cidade dos Anjos (1996), cresce em meio a singles como Losing Ground e segue em meio a canções produzidas no começo dos anos 2000. Pouco mais de 40 minutos que mostram a crueza de Harvey dentro de estúdio e o cuidado de Peel em captar essa mesma atmosfera.

 

#12. A Woman a Man Walked By
(2009, Island)

A Woman a Man Walked By é um disco que claramente não poderia dar errado. Com produção assinada pelo parceiro de longa data, o britânico Flood, e assinado em parceria com o velho colaborador John Parish, o registro de apenas dez faixa traz de volta a mesma insanidade e cuidado reforçado por PJ Harvey durante o lançamento de Dance Hall at Louse Point, em 1996. São composições que brincam com o experimentalismo de forma acessível (Sixteen, Fifteen, Fourteen), encolhem (Leaving California) e crescem a todo instante (Pig Wil Not), reforçando o completo domínio da dupla dentro de estúdio. Sem necessariamente explorar um conceito específico, Harvey e Parish finalizam uma obra completamente instável, resultado de décadas de experiências instrumentais acumuladas dentro e fora de estúdio. Um verdadeiro labirinto instrumental que tem início na inquietação de Black Hearted Love, passa por músicas como The Soldier e volta a respirar somente no último acorde da rápida Cracks in the Canvas, faixa de encerramento do disco.

 

#11. The Hope Six Demolition Project
(2016, Island / Vagrant)

Nono trabalho na discografia de PJ Harvey e primeiro registro de inéditas depois de um hiato de cinco anos, The Hope Six Demolition Project reflete a curiosa visão de mundo da guitarrista sobre o universo que a cerca. Versos que passeiam por regiões, detalham o cotidianos de povos e comunidades de forma sempre política, atual. Conceitualmente, um resumo das viagens da musicista pelo Oriente Médio, Leste Europeu e diferentes pontos dos Estados Unidos. No discurso político de Harvey, cada vez mais agressivo, uma clara continuação do material originalmente explorado nas canções de Let England Shake, de 2011. Basta observar a faixa de abertura do disco, The Community of Hope, para perceber isso. Trata-se de um ataque direto da cantora britânica aos políticos de Washington e ao completo descaso com a população local. Um diálogo com uma comunidade específica, mas que se adapta aos mais diferentes cenários e governos. Versos que flutuam de forma sempre descritiva, revelando ao público um mundo a ser explorado no interior de cada composição.

 

#10. Uh Huh Her
(2004, Island)

Do som comercial desbravado Stories from the City, Stories from the Sea (2000), pouco parece ter sobrevivido no ambiente contido de Uh Huh Her (2004). Sempre cercada de colaboradores, Harvey decidiu transformar o sexto álbum de estúdio em um experimento particular. Salve a presença do parceiro de longa data, o músico Rob Ellis (Placebo, Bat For Lashes), responsável pela bateria, percussão e vozes de apoio, grande parte do material que recheia o disco conta apenas com a assinatura da artista, responsável pelos arranjos, instrumentos e toda a produção do disco. O resultado está na construção de um trabalho que aponta diretamente para os primeiros anos de Harvey, lembrando em alguns aspectos o som produzido no inaugural Dry (1992). No interior do álbum, uma seleção de boas composições como You Come Through, The Letter e Shame, fragmentos da força poética e crueza instrumental da artista. Mesmo recebido de forma positiva pelo público e crítica, Uh Huh Her seria encarado pela própria cantora como um de seus trabalhos menos expressivos, sendo parcialmente limado das apresentações ao vivo de Harvey.

 

#09. 4-Track Demos
(1993, Island)

O impacto e a boa repercussão em torno Rid of Me (1992) foi tamanha, que em 1993 PJ Harvey e o selo Island Records decidiram lançar uma coletânea de sobras do registro. Intitulado 4-Track Demos, o trabalho reúne oito versões alternativas para o álbum finalizado um ano antes — Legs, Snake, Hook, 50ft Queenie, Ecstasy, Rub ’til It Bleeds, Yuri-G e a própria faixa-título —, além de outras seis composições nunca antes lançadas. São músicas como a punk Reeling, a crescente e caseira Driving, faixa que aponta para o blues rock dos anos 1970, o som atmosférico de Hardly Wait, Easy e suas guitarras marcadas, além das pulsantes M-Bike e Goodnight, essa última, escolhida para o encerramento do disco. Com boas vendas para um disco de sobras – o trabalho acabou conquistando o 19º lugar nas paradas inglesas –, parte do material apresentado em 4-Track Demos acabou incorporado às apresentações ao vivo da cantora, tendo músicas como Hardly Wait sendo explorada como parte da trilha sonora do filme Estranhos Prazeres (1995), de Kathryn Bigelow. A imagem de capa do disco, tirada durante a turnê de Rid of Me, conta com a assinatura da fotógrafa Maria Mochnacz, parceira de Harvey em diversos projetos ao longo da carreira.

 

#08. Dance Hall At Louse Point
(1996, Island)

A ânsia de PJ Harvey e o confesso desejo de trabalhar em um projeto completamente diferente foram os principais componentes para o nascimento de Dance Hall at Louse Point (1996). Exausta após a extensa turnê de divulgação do álbum To Bring You My Love (1995), a cantora e compositora inglesa decidiu estreitar ainda mais a relação com o produtor John Parish, fazendo do registro de 12 faixas um curioso experimento. Do momento em que tem início em Girl, passando por músicas como Rope Bridge Crossing, That Was My Veil, Taut e Un Cercle Autour du Soleil, Harvey e Parish parecem testar os próprios limites. Composições que passeiam pelo blues, folk, o rock dos anos 1970 e todo um universo de experiências inusitadas que aponta para a música de vanguarda. Nos versos, delírios sentimentais, medos e confissões melancólicas que servem de base para a voz forte de Harvey, tão intensa (e louca) quanto no material apresentado no disco anterior. Para a divulgação do trabalho, a dupla se concentrou na produção de uma série de shows intimistas, sempre acompanhados por um time de dançarinos e coreografias contemplativas da Mark Bruce Dance Company. Em 2009, Harvey e Parish viriam a se reencontram no colaborativo A Woman a Man Walked By.

 

#07. White Chalk
(2007, Island)

Depois de uma sequência de grandes obras, PJ Harvey parecia cansada. Em Uh Huh Her (2004), primeiro álbum de estúdio produzido pela artista, não foram poucos os sinais de repetição e forte exaustão por parte da cantora inglesa. Não por acaso, Harvey decidiu se distanciar do próprio universo construído durante mais de uma década de atuação, voltando os esforços para um som deliciosamente sereno, envolvente, estímulo para as ambientações acústicas que marcam o curioso White Chalk. Produzido em um intervalo de quase quatro meses, o registro de melodias enevoadas, vozes submersas e instantes de profundo silenciamento joga com o oposto do som produzido pela artista desde a estreia com o raivoso Dry (1992). Cortinas de sons que tocam a música gótica (The Devil, Dear Darkness), flertam com o pop de câmara (Grow Grow Grow, Silence) e abraçam o folk dos anos 1970 de forma a construir um terreno particular, como a passagem para um novo mundo de possibilidades dentro da carreira de Harvey. Mesmo com opiniões divididas entre público e crítica, o material que conta com a colaboração dos parceiros Flood e John Parish, trouxe novo fôlego ao trabalho de Harvey, abrindo passagem para o sóbrio Let England Shake (2011).

 

#06. Let England Shake
(2011, Island)

PJ Harvey sempre soube como transformar o próprio cotidiano em música, refletindo sobre conflitos pessoais, temas marcados pela forte sexualidade, medos e melancolia. Curioso perceber em Let England Shake, oitavo álbum de inéditas da cantora britânica, uma completa inversão desse conceito. Inspirada pelo impacto da guerra, seja ela em acontecimentos recentes, como no Irã e Afeganistão, ou em momentos históricos, caso da primeira e segunda Guerra Mundial, Harvey encontrou o principal combustível para a formação de uma obra densa, liricamente desafiadora. Um verdadeiro arsenal de faixas marcadas pela devastação e força dos versos, postura reforçada em músicas como The Words That Maketh Murder, On Battleship Hill, In Dark Places e The Colour of the Earth. Em se tratando dos arranjos, um material marcado pela sobriedade dos elementos, indo do experimentalismo sutil, vide The Glorious Land, ao uso de ambientações acústicas que parecem ampliar o território desbravado no álbum anterior, White Chalk (2007). O resultado não poderia ser outro. Com Let England Shake, Harvey acumularia uma sequência de prêmios e um posto de destaque entre os principais lançamentos do ano.

 

#05. Dry
(1992, Too Pure)

Em 1992, ainda era possível sentir o impacto cultural e toda a transformação causada pela ascensão do Nirvana em Nevermind (1991). Uma avalanche de obras claramente inspiradas pelo trabalho do grupo de Seattle, parte expressiva delas pouco inventivas, claramente desnecessárias. Mesmo inserida nesse universo, a britânica Polly Jean Harvey e seus parceiros de banda, Steve Vaughan (baixo) e Rob Ellis (bateria), pareciam seguir uma trilha particular. Com um pé no blues e outro no rock inglês do final dos anos 1970, o trio encontrou os elementos necessários para o cru Dry (1992). Trata-se de uma seleção com 11 faixas rápidas e pouco menos de 40 minutos de duração em que PJ Harvey se revela por completo em cada fragmento do trabalho. Composições sempre intimistas, raivosas e urgentes, postura reforçada nos dois primeiros singles do disco, Dress e Sheela-Na-Gig. Uma construção enérgica, posteriormente reforçada em uma entrevista da cantora à Filter: “Dry foi a primeira vez que eu tive a chance de fazer um disco e pensei que seria o meu último. Então, coloquei tudo de mim [dentro dele]. Foi um disco extremo“.

 

#04. Stories from the City, Stories from the Sea
(2000, Island)

Perto de completar uma década do primeiro álbum de estúdio, Dry (1992), PJ Harvey parecia tão inventiva e relevante quanto no começo da carreira. Prova disso está no quinto registro de inéditas da cantora, Stories from the City, Stories from the Sea (2000). Entregue ao público na virada do século, o sucessor de Is This Desire? (1998) segue uma trilha completamente distinta em relação ao trabalho apresentado dois anos antes. Reflexo dos nove meses de vivência da cantora na cidade de Nova York, o trabalho produzido pelo parceiro de longa data Mick Harvey e Rob Ellis segue de forma acelerada do primeiro ao último instante, como uma fuga do blues rock explorado por Harvey nos primeiros álbuns de estúdio, principalmente Dry (1992) e Rid of Me (1993). Um olhar atento, romântico e provocante da cantora britânica sobre o cenário em que estava inserida. Casa de algumas das principais composições da artista, como This Is Love, A Place Called Home e This Mess We’re In, parceria com Thom York, Stories from the City, Stories from the Sea acabou se tornando um dos trabalhos mais queridos (e comercializados) de Harvey, servindo de passagem para toda a sequência de obras produzidas pela cantora no decorrer da década.

 

#03. To Bring You My Love
(1995, Island)

Com a boa repercussão e elevado número de vendas do dois primeiros álbuns de estúdio, Dry (1992) e Rid of Me (1993), PJ Harvey acabou comprando uma casa para os pais no interior da Inglaterra, onde passou um longo período de reclusão. Desse isolamento e profunda reflexão da artista veio o terceiro registro de inéditas, o confessional To Bring You My Love (1995). Desenvolvido em um intervalo de apenas um mês, o trabalho que conta com a produção de John Parish (Sparklehorse, Goldfrapp) e Flood (The Smashing Pumpkins, U2) mostra a força da poesia intimista de Harvey. Esbanjando maturidade, a cantora passeia pelo disco destilando sentimentos (Send His Love To Me), diferentes personagens (C’Mon Billy) e conflitos particulares (To Bring You My Love). Um espaço para ruídos e sentimentos expostos, marca da raivosa Long Snake Moan. O destaque acaba ficando por conta do usos de pequenos experimentos instrumentais, marca da curiosa Teclo, composição que garante novo enquadramento ao blues-punk que há tempos vinha sendo produzido pela cantora em estúdio. Poderoso aprimoramento poético e instrumental, o trabalho segue como uma clara evolução do som testado nos dois primeiros registros de inéditas, abrindo passagem para a sequência de obras que viriam a ser produzidas até o começo dos anos 2000.

 

#02. Is This Desire?
(1998, Island)

David Bowie em Earthling (1997), The Smashing Pumpkins com Adore (1998), Radiohead e o clássico OK Computer (1997). Em algum momento no final dos anos 1990, a fusão entre o rock e a música eletrônica parecia orientar o trabalho dos mais variados representantes da cena alternativa. Com PJ Harvey não poderia ser diferente. Para o quarto álbum em carreira solo, Is This Desire? (1998), a cantora e compositora britânica decidiu flertar com o uso de temas sintético, esbarrando com naturalidade em elementos do Trip-Hop/Industrial Rock, estímulo para grande parte do material que cresce no interior do disco. Nos versos, um doloroso turbilhão sentimental. Nos arranjos, um claro amadurecimento. Em parceria com Flood (The Smashing Pumpkins) e Marius de Vries (Massive Attack, Björk), produtores do disco, Harvey conseguiu transformar o recente término de relacionamento com o cantor Nick Cave no principal elemento para a formação das canções. O resultado está em uma sequência de músicas como A Perfect Day Elise, Joy, The River, No Girl So Sweet, The Wind e a derradeira faixa-título. Fragmentos do cotidiano doloroso de Harvey que chegam até o público cobertos pela precisão dos arranjos e inserções eletrônicas, resultando em um doloroso remix do universo originalmente explorado em To Bring You My Love (1995).

 

#01. Rid of Me
(1993, Island)

Rid of Me tem início como um típico registo do começo dos anos 1990. Guitarras, batidas e versos trabalhos paralelamente, estímulo para a montagem de uma composição sempre crescente, densa e provocante. Um som ruidoso, forte, completo pela soma de versos berrados que PJ Harvey lança ao final da autointitulada faixa de abertura — “Lamba minhas pernas, estou em chamas / Lamba minhas pernas com desejo“. Entregue ao público pouco mais de um ano após o lançamento do primeiro álbum da cantora e compositora britânica, Dry (1992), o registro que conta com produção assumida pelo requisitado Steve Albini (Nirvana, Pixies) mostra uma força ainda maior no som projetado por Harvey. Um material ruidoso, caótico, reflexo da forte influência do blues (Robert Johnson), proto-punk (Patti Smith) e do art-rock (David Bowie) na educação musical da artista. Um trabalho essencialmente cru, completo pela força instrumental de músicas como 50ft Queenie, Man-Size e Legs, além, claro, da curiosa interpretação da cantora para o clássico Highway 61 Revisited, de Bob Dylan. Bem recebido pelo público e crítica, Rid of Me ganharia uma “continuação” em 4-Track Demos, coletânea de sobras e demos do álbum lançada meses mais tarde. Intenso do primeiro ao último acorde, o trabalho serviria como um indicativo de tudo que PJ Harvey viria a produzir até o encerramento da década.

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