Cozinhando Discografias: Placebo

 

Em meio a invasão britânica que revelou ao mundo nomes como Blur, Pulp, Oasis e Elastica, Brian Molko e o parceiro Stefan Olsdal fizeram do Placebo, projeto formado em 1994 na cidade de Londres, a passagem para um universo próprio. Com versos centrados na vida do próprio vocalista, abusos com drogas e diálogos com a comunidade LGBT, a identificação do público acabou sendo quase imediata, fazendo do grupo um dos mais queridos do final da década de 1990. Com um repertório repleto de faixas icônicas, como Every You Every Me, Nancy Boy e Special K, o Placebo teve cada um dos registros de estúdio organizados do pior para o melhor lançamento em mais uma edição do Cozinhando Discografias. Nos comentários, conta pra gente: qual é o seu álbum favorito da banda?

 

Menção Honrosa: Covers
(2003, Hut/Astralwerks)

Longe de parecer um artista vaidoso, Brian Molko sempre fez questão de expressar publicamente algumas de suas principais influências musicais. Não por acaso, grande parte do material de divulgação produzido pelo Placebo — como singles e EPs —, vieram acompanhados de versões para o trabalho de outros artistas. De Syd Barrett a Nick Drake, sobram adaptações curiosas por parte da banda britânica. Efeito do sucesso do cover de Running Up That Hill para a trilha sonora do seriado The O.C., em 2003, Molko e Stefan Olsdal decidiram compilar parte dessas versões em uma única coletânea. Lançada como disco bônus do álbum Sleeping with Ghosts (2003), a seleção de dez faixas mostra o esforço da banda em preservar a própria identidade, porém, brincando com a essência de diferentes veteranos do pop-rock. O resultado está na composição de um trabalho ora sombrio, como na versão para Where Is My Mind?, do Pixies, ora descomplicado, vide o cover para Daddy Cool, música eternizada pelo grupo Boney M.

 

#07. Loud Like Love
(2013, Universal)

Quem esperava que o Placebo pudesse se reerguer passado o tropeço em Battle for the Sun, encontrou em Loud Like Love uma clara continuação do mesmo erro. Inicialmente pensado como um álbum em carreira solo para Brian Molko, o sétimo álbum de inéditas da banda britânica parte exatamente de onde a dupla havia estacionado em 2009, entregando ao público uma série de composições que pouco ou nada acrescentam à discografia do Placebo. Salve exceções, como A Million Little Pieces, músicas que parece saída do início dos anos 2000, Molko e o parceiro de banda fazem de tudo para impressionar o público, mergulhando em uma sequência de faixas redundantes e pouco expressivas. Versos centrados de forma excessiva na temática do amor, como um resgate nada criativo de diversos elementos originalmente testados em trabalhos como Black Market Music (2000) e Sleeping with Ghosts (2003).

 

#06. Battle for the Sun
(2009, PIAS)

Mesmo querido pelo grande público, o Placebo nunca foi uma unanimidade em se tratando da crítica especializada. Prova disso está na série de opiniões divergentes em torno de obras consideradas fundamentais na carreira do grupo, como Without You I’m Nothing (1998) e Black Market Music (2000). Todavia, com o lançamento de Battle for the Sun, em 2009, público e crítica tiveram de concordar: havia algo de errado ali. Mesmo bem-intencionado e inspirado de forma confessa na obra de PJ Harvey e My Bloody Valentine, não há nada no sexto álbum de inéditas da banda britânica que não possa ser encontrado de forma ainda mais interessante em outros discos do Placebo. Basta uma rápida passagem por For What It’s Worth, The Never-Ending Why e a própria faixa-título para perceber como tudo não passa de uma reciclagem pobre do material originalmente testado em Sleeping with Ghosts (2003) e Meds (2006). Entregue ao público em um ano de grandes exemplares do rock internacional, como Humbug, do Arctic Monkeys, e The Resistance, do Muse, Battle for the Sun parece ter nascido como uma obra menor, feita para cair em esquecimento.

 

#05. Meds
(2006, Virgin)

Produzido em tempo recorde — Brian Molko e Stefan Olsdal passaram menos de um mês dentro de estúdio —, Meds mostra uma banda segura do som que vinha desenvolvendo desde o começo dos anos 2000. De fato, do momento em que tem início, na homônima colaboração com Alison Mosshart (The Kills, The Dead Weather), até alcançar a derradeira Song to Say Goodbye, difícil não pensar no quinto álbum do Placebo como uma continuação dos temas e conceitos instrumentais explorados em Sleeping with Ghosts (2003). A principal diferença em relação ao trabalho finalizado três anos antes está na busca de Molko e Olsdal por um som ainda mais acessível, talvez pop. Uma mudança de direção evidente na base melódica que recheia o trabalho durante toda a execução, fortalecendo a produção de verdadeiros hits como Infra-Red, Space Monkey, Drag, Post Blue e a própria faixa de encerramento do disco, capaz de acertar o ouvinte logo em uma primeira audição. O destaque acaba ficando por conta da presença do veterano Michael Stipes (R.E.M.), parceiro da dupla em Broken Promise.

 

#04. Black Market Music
(2000, Hut)

Produzido em um período conturbado para Brian Molko e Stefan Olsdal — o duo vinha se esforçando para se ver livre das drogas —, Black Market Music levou nove meses até ser finalizado. Parte desse atraso e natural exaustão da dupla veio por conta da extensa turnê de divulgação do álbum anterior, Without You I’m Nothing (1998), obra que acabou forçando os músicos ingleses a se questionar: para onde vamos agora? A resposta chega no conjunto de 12 faixas densas que abastecem o registro. Uma clara continuação do material produzido para o segundo álbum de inéditas da banda, porém, aberta ao uso de novas possibilidades, como as rimas em Spite & Malice, parceria com o norte-americano Justin Warfield (She Wants Revenge). Em se tratando da composição dos versos, Black Market Music sutilmente amplia a carga sentimental e conflitos particulares de Molko, preferência evidente em músicas como Black-Eyed, Taste In Men, Passive Aggressive e, principalmente, Special K, uma das canções mais lembradas do grupo britânico.

 

#03. Sleeping with Ghosts
(2003, Virgin / Hut)

Brian Molko sempre transportou para dentro de estúdio parte dos sentimentos, medos, excessos e conflitos enfrentados diariamente. Todavia, poucos registros produzidos pelo Placebo refletem com tamanha naturalidade a alma atormentada do cantor quanto Sleeping with Ghosts. Do momento em que tem início, em Bulletproof Cupid, passando pela construção de músicas como Special Needs, English Summer Rain, The Bitter End, This Picture e a própria faixa-título, Molko se revela por inteiro, em cada fragmento da obra, fazendo do álbum a passagem para um universo essencialmente sensível, doloroso e particular. Mesmo a base instrumental do disco reflete com naturalidade parte das influências do músico inglês, vide a homenagem ao Sonic Youth em Plasticine, canção que dialoga com o clássico Sister (1987) do grupo nova-iorquino. Essencialmente coeso, Sleeping with Ghosts detalha um claro polimento melódico por parte da dupla, indicando parte da sonoridade que viria a ser explorada nos futuros registros da banda, principalmente Meds, entregue ao público três anos mais tarde.

 

#02. Placebo
(1996, Hut / Elevator Music / Virgin Records)

Em 1996, durante o ápice do “conflito” entre Oasis e Blur e a consolidação do britpop e, a estreia do Placebo parecia surgir como um forte respiro. Na contramão de outros projetos locais, Brian Molko e o parceiro Stefan Olsdal decidiram investir em um som marcado pela crueza dos arranjos e densidade dos versos, estímulo para cada uma das dez faixas que abastecem a edição original do disco. Com produção assinada por Brad Wood, músico que já havia trabalhado com nomes como Liz Phair e Sunny Day Real Estate, o homônimo debute parece dialogar muito mais com a cena norte-americana do período do que a produção inglesa. São guitarras carregadas de efeitos, ruídos e a bateria firme de Robert Schultzberg, ponto de partida para o fortalecimento do universo criativo detalhado nos versos de Molko. Canções marcadas pela depressão, sexo, uso excessivo de drogas e elementos típicos da cultura LGBT, estímulo para músicas como Come Home, 36 Degrees, Teenage Angst e, principalmente, Nancy Boy, grande sucesso do álbum e canção responsável por apresentar o trabalho do Placebo ao grande público.

 

#01. Without You I’m Nothing
(1998, Hut)

Com a boa repercussão em torno do primeiro álbum de estúdio, Brian Molko e Stefan Olsdal “se mudaram” para o Real World, estúdio fundado por Peter Gabriel no interior da Inglaterra, para dar vida ao segundo registro de inéditas do Placebo. Desse isolamento veio o estímulo para a produção de Without You I’m Nothing, obra inspirada em relacionamentos fracassados e conflitos pessoais. De fato, Molko havia passado quase dois anos acumulando uma série de letras confessionais para as gravações do registro. Fragmentos que se revelam em pequenas doses no decorrer da obra, vide a preciosidade de Every You Every Me, uma das canções mais tocadas da banda, e a própria faixa-título, fina representação da poesia angustiada de Molko. Concebido em meio a conflitos com o produtor Steve Osborne — posteriormente substituído por Phil Vinall —, Without You I’m Nothing mostra o esforço da dupla britânica em se reinventar dentro de estúdio. Logo na abertura do trabalho, um conjunto de temas eletrônicos explorados em Pure Morning. Marcada pela temática ambientalista, Allergic (To Thoughts of Mother Earth) cresce em uma explosão de ruídos à la Sonic Youth, como um contraponto ao som climático de músicas como The Crawl e Burguer Queen. Um mundo de possibilidades que viriam a consolidar o trabalho da banda britânica.

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