Cozinhando Discografias: Pulp

Por: Cleber Facchi

Pulp

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Nascida em 1978, a banda britânica Pulp jamais se confortou em um estilo ou sonoridade especifica. Ao longo de três décadas de atuação e sete bem resolvidos trabalhos em estúdio – It (1983), Freaks (1987), Separations (1992), His ‘n’ Hers (1994), Different Class (1995), This Is Hardcore (1998) e We Love Life (2001) – o mutável grupo comandado por Jarvis Cocker fez da transformação um exercício natural de estímulo para o público. São obras que atravessam o ambiente sombreado do Pós-Punk, emulam as sensações lisérgicas da Acid House e alcançam o ápice do Britpop para amarrar as canções da banda em um cenário tão vasto, quanto conciso.

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Pulp

#07. It
(1983, Red Rhino)

Se você ouvir We Love Life (2001), sétimo e último registro em estúdio do Pulp, e depois regressar ao inicial It, de 1983, verá dois grupos completamente diferentes, mas ainda assim próximos. Longe da superprodução em estúdio que viria a abastecer a obra do grupo na década de 1990, o tímido debut é uma obra de apresentação que mesmo simples, faz de tudo para parecer grande. Enquanto a inaugural My Lighthouse transmite toda a sensibilidade e o romantismo de Jarvis Coker, ao longo do álbum diversas outras composições se cobrem com a mesma veste romântica do trabalho. Coros de vozes, guitarras moderadas e uma carga de experiências bucólicas que esbarram nos sons da década de 1960 – principalmente na obra de Scott Walker, futuro colaborador da banda. Inofensivo do primeiro ao último acorde, It é uma espécie de respiro, um trabalho brando quando próximo da tonalidade eufórica dos últimos álbuns do grupo, mas, ainda assim, um disco marcado pelas possibilidades.

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Freaks

#06. Freaks
(1987, Fire)

Poucos grupos se transformaram tanto ao longo dos anos quanto o Pulp. Da passagem pela cena Acid House em Separations (1992) ao encontro com o Britpop em His ‘n’ Hers (1994), até o mergulhar no caráter experimental de We Love Life (2001), cada registro em estúdio do grupo britânico aponta para um cenário musical específico, tratamento que em 1987 arremessou a banda de Sheffield direto para as emanações densas do Pós-Punk. Longe de esbarrar nas mesmas tendências de grupos conterrâneos, caso de The Cure ou The Smiths, o segundo álbum da banda é um objeto de posicionamento e ao mesmo tempo busca por uma sonoridade própria. Estão lá faixas abastecidas pelo clima da década de 1960 (I Want You), músicas capazes de brincar com o Synthpop (Master of the Universe) e todo um arsenal de referências tão excêntricas que o grupo precisou de um subtítulo para explicar o funcionamento do álbum: Ten Stories About Power, Claustrophobia, Suffocation and Holding Hands. O Pulp ainda estava longe de soar como a banda madura de 1995, mas também estava longe de ser apenas “mais um” dentro do novo universo de grupos ingleses.

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Pulp

#05. Separations
(1992, Fire)

No começo dos anos 1990, a Inglaterra viu as guitarras, batidas e experiências musicas de grande parte dos grupos da época abraçarem as pistas e a lisergia como um propósito. Era a explosão da Acid House, tendência que abasteceu obras-primas, como Pills ‘n’ Thrills and Bellyaches (1990) do Happy Mondays, Screamadelic (1991) do Primal Scream e, claro Separations, o terceiro álbum de estúdio do Pulp. Essencial para aquilo que o grupo viria administrar ao longo de toda a década, o álbum espalha sintetizadores e vocais ora cantados, ora falados de Jarvis Cocker como uma tendência natural. São composições dançantes e ainda melancólicas, efeito comprovado na lírica confessional que orienta grande parte das canções do disco. Distante da relação com o Pós-Punk que havia pintado os primeiros discos do grupo, o terceiro álbum é uma obra de possibilidades. Da faixa de abertura, Love Is Blind, passando por Don’t You Want Me Anymore? e Countdown, cada música reforça a explícita maturidade da banda, segurança que viria a estimular toda a base seguinte de obras do Pulp.

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Pulp

#04. We Love Life
(2001, Island)

A boa forma de Jarvis Cocker e seus parceiros ao longo da década de 1990 quase faz do conceitualmente isolado We Love Life uma obra esquecida dentro do catálogo da banda. Seguindo de onde o grupo havia estacionado em This Is Hardcore (1998), o sétimo e último registro em estúdio do Pulp é uma obra entregue ao experimento. Produzido por Scott Walker, o disco cresce como uma representação exata da própria obra do músico norte-americano, resgatando boas melodias, típicas dos anos 1960 (The Tress), ao mesmo tempo em que se acomoda em emanações pouco usuais para o grupo (Weeds II). Com guitarras trabalhadas de forma climática, arranjos lentos (e extensos), além de uma formação totalmente melancólica, a obra final do grupo inglês exige tempo até ser absorvida/compreendida integralmente. Mesmo hermético, o registro não oculta composições de versos fáceis e evidente apelo comercial, aspecto defendido por Bad Cover Version e Sunrise. Caso o grupo não tivesse se separado no ano seguinte, o destino do Pulp provavelmente seria orientado por este álbum.

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#03. This Is Hardcore
(1998, Island)

Uma obra sobre excessos e depressão, assim pode ser definido This Is Hardcore, o sexto álbum de estúdio do Pulp. Encarado como um respiro final para o Britpop e todos os exageros que ocuparam a música alternativa nos anos 1990, o disco caminha por uma atmosfera amarga de “fim de festa”, exercício comprovado nos versos e no clima soturno de músicas como Party Hard e Help the Aged. Lançado três anos depois da obra-prima Different Class (1995), o álbum parece seguir um caminho contrário ao que a banda vinha experimentando desde o começo da década. São emanações instrumentais pouco eufóricas, alertando para a imposição quase “intimista” que viria a ser expandida por Jarvis Cocker em carreira solo. Abastecido por pianos, arranjos orquestrais e um enquadramento recluso, cada instante do disco parece romper com as cores e sons expandidas desde His ‘n’ Hers (1994), o que não quer dizer que músicas como I’m a Man ou mesmo a inaugural (e sombria) The Fear não sejam capazes de manter o fluxo do álbum em alta.

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Pulp

#02. His ‘n’ Hers
(1994, Island)

Em 1994 a imprensa britânica talvez estivesse muito mais interessada em observar o duelo entre Blur e Oasis do que retratar a evolução do Pulp com a His ‘n’ Hers. Quarto registro em estúdio do grupo inglês – que a essa altura já contabilizava 15 anos de carreira -, o álbum é ao mesmo tempo uma extensão dos exercícios testados pela banda desde o começo dos anos 1980, em estúdio, e uma preparação para o que viria logo em seguida com Different Class (1995). Ed Buller, produtor que já havia trabalhado com Spiritualized e Suede conseguiu isolar melhor os arranjos melódicos que o grupo vinha desenvolvendo, garantindo espaço para que as guitarras de Russell Senior e os sintetizadores de Candida Doyle ocupem um espaço de igual valor com a voz Jarvis Cocker. Por falar em Cocker, o confesso interesse do compositor pela música pop havia dado ao grupo uma nova direção, experiência que viria a sustentar os singles Do You Remember the First Time? e Lipgloss, mas que seria enquadrada de forma ainda mais interessante no disco seguinte. Um ensaio e ao mesmo tempo uma obra completa.

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Pulp

#01. Different Class
(1995, Island)

Enquanto Blur, Oasis e tantos outros grupos que definiram o Britpop na década de 1990 apostavam em uma sonoridade marcada pela exuberância dos temas e arranjos, os membros do Pulp resolveram seguir por uma direção contrária. Em ascensão desde o lançamento de Separations, em 1992, porém, em busca de uma sonoridade íntima do grande público, evidente em His ‘n’ Hers, ao apresentar Different Class (1995) o grupo comandado por Jarvis Coker não apenas alcançou sua melhor forma, como abriu um curioso diálogo com as classes operárias e as experiências nada pomposas da Inglaterra. Impulsionado pelo hino Common People, o quinto registro em estúdio da banda reforça uma musicalidade concisa, ao mesmo tempo em que cada composição da obra se converte em um hit em potencial, como um imenso catálogo a ser visitado.

Por favor, entenda. Nós não queremos nenhum problema, só queremos o direito de ser diferente. Isso é tudo“. Com esta frase estampada na parte de trás do disco, Different Class abre as portas para o universo romântico (F.E.E.L.I.N.G.C.A.L.L.E.D.L.O.V.E), sujo (I Spy) e recheado de personagens curiosos (Disco 2000). Histórias de pessoas comuns, recortes diários do cotidiano e pequenos aspectos humanos insignificantes para outros compositores, mas que encontram um cenário abrangente nos versos de Coker. Um retrato honesto da Inglaterra dos anos 90 e um cardápio rico de faixas que ainda hoje mantém o mesmo frescor e invento.