Cozinhando Discografias: Roxy Music


David Bowie, Pink Floyd, Black Sabbath e Led Zeppelin, esses foram alguns dos artistas que movimentaram a cena britânica durante grande parte dos anos 1970. Entretanto, mesmo nesse universo de grandes realizadores e obras tão icônicos, poucos artistas se mostraram tão inventivos e musicalmente versáteis quanto os integrantes do Roxy Music. Fundado no início da década pelo cantor e compositor Bryan Ferry e o baixista Graham Simpson, o grupo, posteriormente acrescido do saxofonista Andy Mackay, o baterista Paul Thompson, o guitarrista Phil Manzanera e, durante um breve período, o tecladista Brian Eno, fez da criativa colagem de ritmos e referências extraídas de diferentes campos da música a base para uma seleção de obras marcadas pelo acerto. Trabalhos como os clássicos For Your Pleasure (1973), Country Life (1974) e Avalon (1982), agora organizados do pior para o melhor lançamento em mais uma edição do Cozinhando Discografias.


#8. Flesh and Blood
(1980, Atco / Reprise)

Lançado em maio de 1980, Flesh and Blood está longe de ser o melhor álbum do Roxy Music, entretanto, foi um dos responsáveis por apresentar o trabalho do grupo londrino a toda uma nova parcela de ouvintes. Comercialmente bem-recebido pelo público – o disco alcançou o topo das paradas de sucesso na Inglaterra –, o registro produzido em parceria com Rhett Davies (Dire Straits, King Crimson), mostra uma banda previsível, mas não menos interessante. São canções que dialogam com parte expressiva da identidade musical da época, conceito reforçado pelo uso destacado dos sintetizadores e saxofone caricato de Andy Mackay, mas que ganha novo significado dentro do universo particular do coletivo inglês. O resultado desse novo direcionamento estético está na entrega de algumas das canções mais lembradas do grupo no período, caso de Over You, Oh Yeah, In the Midnight Hour e Same Old Scene, essa última, composição que concentra uma série de elementos típicos do período.

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#7. Manifesto
(1979, Virgin)

Mesmo com a boa repercussão em torno de Siren (1975), quinto álbum de estúdio do Roxy Music, o desejo de Bryan Ferry em investir nos próprios trabalhos em carreira solo fez com que a banda fosse temporariamente dissolvida. Em constante produção desde o início dos anos 1970, o grupo levaria quatro anos até regressar com Manifesto. Dividido em duas partes, “leste” e “oeste”, o registro concentra no primeiro bloco de canções o lado mais urgente e, consequentemente, íntimo dos primeiros registros autorais da banda. Canções como Trash, Angel Eyes e Stronger Through the Years em que Ferry e seus parceiros de banda trazem de volta parte da sonoridade que embala os primeiros registros autorais do coletivo. Por outro lado, a segunda porção do disco mostra o esforço da banda em dialogar com a produção musical da época. É o caso de Dance Away, faixa que preserva a essência do Roxy Music, porém, flerta com a disco music, conceito que se reflete em outros momentos específicos ao longo da obra. Instantes em que o grupo preserva e perverte a própria identidade criativa.    

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#6. Siren
(1975, Island / Atco)

De Blondie a Talking Heads, de Duran Duran a Devo, não foram poucos os artistas que encontraram em Siren uma importante fonte de inspiração. Menos urgente em relação ao registro que o antecede, Country Life (1974), o quinto álbum de estúdio do Roxy Music antecipa uma série de tendências que seriam incorporadas por diferentes representantes da New Wave nos anos 1980. Do uso destacado dos sintetizadores, melodias e vozes sempre pegajosas, cada elemento do álbum parece pensado para grudar na cabeça do ouvinte. E não poderia ser diferente. Com faixas como Love Is the Drug e Both Ends Burning, o disco rapidamente se transformou em um dos mais cultuados e, ainda hoje, vendidos do grupo britânico. São canções que pervertem o rock frenético dos primeiros registros para mergulhar em uma sonoridade cada vez mais acessível, pop, conceito que seria aprimorado não apenas nos próximos lançamentos da banda, mas em toda a série de obras que Ferry vinha produzindo em carreira solo desde o início da década de 1970. 

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#5. Avalon
(1982, E.G. Records / Polydor)

Agora que a festa acabou / Estou muito cansado / Então vejo você surgir / Do nada“. Os versos lançados por Bryan Ferry em Avalon, faixa-título do oitavo álbum de estúdio do Roxy Music, funciona como um indicativo claro do som produzido pelo grupo britânico no último trabalho de estúdio da carreira. Em um misto de despedida e busca por novas possibilidades criativas, o registro parte de um período de isolamento do vocalista, no interior da Irlanda, para sustentar em dez poemas inspirados pelas lendas arturianas um precioso componente temático. São versos de essência melancólica, como se Ferry anunciasse a despedida do grupo. Mesmo a base instrumental do disco segue uma trilha completamente distinta em relação aos antigos trabalhos da banda. São camadas de sintetizadores, batidas lentas e vozes tratadas como instrumentos, conceito que se reflete tão logo a obra tem início, em More Than This, e segue até a derradeira Tara. Recebido de forma positiva pelo público e crítica, Avalon, mais uma vez, garantiria ao Roxy Music uma posição de destaque no topo das paradas britânicas, funcionando como um delicado exercício de despedida da banda.     

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#4. Stranded
(1973, Island / Polydor / Reprise / Atco)

O ano de 1973 foi bastante produtivo para o Roxy Music. Poucos meses após o lançamento do bem-recebido For Your Pleasure, obra que revelou preciosidades como In Every Dream Home a Heartache e Do the Strand, os integrantes do grupo britânico estavam de volta com um novo registro de inéditas: Stranded. Primeiro trabalho de estúdio sem a presença de Brian Eno, que havia seguido em carreira solo, o registro produzido por Chris Thomas, parceiro desde o disco anterior, reflete a busca de Ferry e seus colaboradores em alcançar uma sonoridade cada vez mais acessível, pop, mas não menos provocativa. Da construção dos versos passando pela fluidez das guitarras de Manzanera, metais e sopros complementares de Mackay, cada fragmento do registro reflete o esforço e profunda entrega criativa de seus realizadores. No repertório, faixas como Street Life, Amazona e Just Like You, canções que fizeram a banda alcançar o topo das principais paradas de sucesso na Inglaterra.

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#3. Roxy Music
(1972, Island / Polydor / Reprise / Atco)

Poucos artistas se mostraram tão inventivos logo no primeiro álbum de estúdio quanto os integrantes do Roxy Music. Em um intervalo de apenas 20 minutos, tempo de duração do “Lado A” do homônimo debute do coletivo britânico, Bryan Ferry e seus parceiros de banda, Brian Eno (sintetizadores, efeitos), Andy Mackay (oboé, saxofone), Phil Manzanera (guitarras), Paul Thompson (bateria) e Graham Simpson (baixo), não apenas estabelecem tudo aquilo que seria aprimorado no decorrer da década, como antecipam uma série de conceitos que viriam a contribuir para o surgimento do punk e a formação de grandes nomes da new wave, como Talking Heads, Depeche Mode e Devo. Do desenho torto das guitarras ao experimentalismo eletrônico dos sintetizadores, conceito que seria melhor explorado por Eno em carreira solo, cada fragmento do disco parece transportar o ouvinte para um lugar diferente, conceito que vai da apresentação dos integrantes, na introdutória Re-Make/Re-Model, aos delírios criativos de If There Is Something, 2HB e Sea Breezes, composições que refletem o que há de mais insano no som produzido pelo grupo. O Roxy Music estava apenas começando.

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#2. Country Life
(1974, Island / Polydor / Reprise / Atco)

Da polêmica imagem de capa, passando pelo tratamento dado aos arranjos e vozes, Country Life se revela ao público como uma coleção de pequenos acertos. Sequência ao material entregue um ano antes, durante o lançamento do bem-recebido Strand (1973), o álbum co-produzido em parceria com Chris Thomas e John Punter, estabelece no uso de elementos da música estadunidense, principalmente o bluegrass e o boogie-woogie, um precioso elemento de transformação dentro da discografia do grupo britânico. São canções como Three and Nine e If It Takes All Night em que a banda amplia tudo aquilo que veteranos como The Rolling Stones haviam testado anos antes, durante o lançamento de Beggars Banquet (1968) e Let It Bleed (1969). A diferença está no ritmo frenético que serve de sustento ao disco. Composições sempre regidas pela bateria destacada de Thompson e guitarras carregadas de efeitos de Manzanera. Exemplo disso está na intensa Out Of The Blue, música que amplia tudo aquilo que o grupo havia testado no disco anterior, porém, antecipa uma série de conceitos psicodélicos e pequenas experimentações que viriam a servir de base para artistas como Primal Scream, The Chemical Brothers e outros tantos nomes da cena inglesa. Um clássico da primeira à última faixa.     

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#1. For Your Pleasure
(1973, Island / Polydor / Reprise / Atco)

Com a boa repercussão em torno do primeiro álbum de estúdio, os integrantes do Roxy Music tiveram mais tempo e dinheiro da gravadora para investir em um novo registro de inéditas. O resultado desse processo criativo está na entrega do cultuado For Your Pleasure. Nascido do equilíbrio entre a poesia suja de Ferry, as experimentações eletrônicas de Eno e a produção de Chris Thomas, parceiro do grupo pelos próprios anos, o trabalho de oito faixas mostra a capacidade da banda em se reinventar criativamente mesmo em um curto intervalo de tempo. “Há uma nova sensação / Uma criação fabulosa / Uma solução dançável / Para a revolução adolescente“, anuncia o vocalista na introdutória Do the Strand, faixa que aponta a direção seguida pelo grupo até a autointitulada música de encerramento. Instantes em que o coletivo britânico perverte o glam rock incorporado no primeiro registro de inéditas para mergulhar em um território marcado pelas possibilidades. São faixas como a delirante In Every Dream Home a Heartache, música inspirada pela relação de um homem solitário e sua boneca inflável, e The Bogus Man, canção que incorpora uma série de elementos típicos da produção germânica, vide a similaridade com bandas como Neu! e Can. Instantes em que o grupo britânico se permite permite avançar criativamente, conceito que vai do encarte e icônica imagem de capa do disco, uma fotografia da modelo Amanda Lear, namorada de Ferry na época, ao completo refinamento de cada composição.