Cozinhando Discografias: Sigur Rós

Sigur Rós

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Formada em meados da década de 1990 e dona de uma das discografias mais incríveis da história recente da música, o Sigur Rós é praticamente uma certeza de grandes lançamentos e obras tomadas essencialmente de delicadeza dos sons. Com uma discografia fundamental dentro do Pós-Rock, Dream Pop e nuances da Ambient Music, a banda islandesa acumula um catálogo de obras clássicas, trabalhos que foram listados do pior para o melhor em mais um de nossos especiais.

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Von

#07. Von
(1997, One Little Indian)

A descoberta se faz imposta em cada aspecto que delimita Von, registro de estreia do Sigur Rós. Ora climático, ora épico, o disco se perde em um universo de texturas simples quando próximas das afinações futuras da banda, o que não quer dizer que o álbum não seja capaz de surpreender, pelo contrário. Tendo cada faixa desenvolvida individualmente, a banda passeia por ruídos típicos do Shoegaze, construções orquestrais que brincam com o ambiental, além incorporações rápidas (como as de Leit A› Lífi) em que o experimento é a única resposta. Gravado ao longo de dois anos, o disco revela por vezes uma banda que poucos conhecem. Basta a rapidez comercial de Myrkur para entender que os rumos do grupo eram completamente outros em começo de carreira, um brusco afastamento do que viria a ser compreendido com maior beleza pós-Ágætis byrjun. Desenvolvido em cima de guitarra, baixo e bateria, Von traz no uso coeso dos vocais em coro um esforço fundamental para a obra, contribuição que viria a ser melhor explorada nos futuros lançamentos do grupo.

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Sigur Rós

#06. Valtari
(2012, XL)

Um trabalho que funciona dentro de uma medida de tempo particular, assim é Valtari, sexto e possivelmente a obra mais homogênea de toda a discografia da banda. Pensado desde o princípio como um trabalho de projeções visuais, o álbum trouxe ao longo de 2012 uma série de clipes e vídeos complementares como parte do projeto The Valtari Mystery Film Experiment. Com produção assumida por diferentes diretores, os vídeos ocuparam visualmente cada espaço das sutilezas impostas pela obra, disco que em diversos aspectos se relaciona com a tonalidade compacta de ( ), terceiro disco da banda. Protegido por músicas como Ég Anda, Varðeldur e Ekki Múkk, o álbum flutua abertamente entre arranjos que beiram o orquestral clássico e aproximações com o Drone. Pequenos ruídos camuflados que se estendem de forma comportada durante toda a extensão da obra, como se a banda praticamente forçasse o ouvinte a se abrigar no interior do disco, buscando pelos realces instrumentais que borbulham comportados.

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#05. Kveikur
(2013, XL)

Espécie de manifestação sombria daquilo que o grupo alcançou em 2008, Kveikur é um registro de afastamento e busca por identidade dentro da nova fase do Sigur Rós. Primeiro álbum do grupo sem a presença do multi-instrumentista Kjartan Sveinsson, o disco faz de cada composição uma busca constante por novos rumos. Obra mais ruidosa e agressiva de toda a trajetória da banda, o sétimo álbum se afasta das manifestações sutis que acompanharam os islandeses para explorar uma sonoridade envolvida com a crueza. São guitarras que crescem livres dos azulejos instrumentais que adornavam os primeiros discos, firmando em alguns aspectos as convenções com o pós-rock firmado em Von. Ainda que irregular perto da composição sonora dos outros discos, Kveikur traz na grandeza de músicas como Ísjaki pontos de nítido acerto e relação com o passado do grupo. Se a discografia prévia da banda ecoa sons de efeito matutino, com o sétimo álbum a banda encontrou a noite.

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Sigur Rós

#04. Með suð í eyrum við spilum endalaust
(2008, XL)

A julgar pela exposição sonora que acompanha o Sigur Rós desde o começo de carreira, a expectativa era a de que o quarteto islandês se aprofundasse cada vez mais na produção de sons brandos e ambientais. De esforço criativo ensolarado e melodias próximas da música pop, Með suð í eyrum við spilum endalaust veio como um completo desligamento dessa temática e natural renovação para o grupo. Ainda que músicas como Ára bátur e Fljótavík sejam capazes de resgatar a tonalidade branda que encaminhava os trabalhos do grupo desde a chegada de Von (1997), do momento em que tem início ao fechamento, o quinto registro em estúdio da banda de Reykjavík se enche de vozes, batidas e sons tomados pela celebração. Bem representado pela capa colorida – uma fotografia de Ryan McGinley -, o disco transporta o quarteto para um novo terreno, um misto de percussões tribais com vozes impulsionadas pela mesma delicadeza da fase Ágætis byrjun.

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Sigur Rós

#03. ( )
(2002, Fatcat)

Provocante, essa parece ser a melhor definição para o quarto álbum de inéditas do Sigur Rós. Com faixas desprovidas de nome e tradicionalmente intitulado ( ), o registro acaba por converter cada uma das oito imensas composições em atos isolados que se agrupam para formar uma faixa única. Obra mais extensa da banda, o álbum se esparrama em uma medida de funções ambientais, exercício que o quarteto incorpora na formação de músicas essencialmente homogêneas, complementares umas as outras. Quase uma trilha sonora para um filme imaginário, o disco se sustenta como uma completa oposição ao esforço que o grupo havia firmado três anos antes, afinal, enquanto Ágætis byrjun parecia espaçar as faixas em nuances isoladas, com o terceiro disco Jónsi e os parceiros se manifestam inclinados a romper com esse esforço, tratando do álbum como uma sequência de inventos que se sobrepõe de forma linear, como se tudo fosse cuidadosamente planejado.

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Takk

#02. Takk…
(2005, Geffen)

Se o lançamento de Ágætis byrjun serviu para catapultar o Sigur Rós para o grupo dos gigantes da cena alternativa, arrancando incontáveis elogios do público e crítica, com o lançamento de Takk…, a banda islandesa conseguiu abocanhar uma nova parcela de ouvintes. Trabalhado em cima de um reaproveitamento de ideias firmadas no álbum de 1999, o disco deixa claro o esforço do grupo em aprofundar ainda mais o uso dos vocais e melodias de branda representação instrumental. Épico e acolhedor na mesma medida, o disco traz logo na primeira grande faixa, Glósóli, uma fina representação de tudo o que circula pela obra. Composto por algumas das composições mais marcantes de toda a trajetória do grupo – entre elas Hoppipolla, Hufupukar e Saeglopur -, o álbum praticamente obriga o ouvinte a permanecer atento até os últimos instantes de cada faixa. Desenvolvido inteiramente em cima de detalhes e atos complementares, Takk… seria a constatação final de toda a beleza em torno da obra do grupo.

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Sigur Rós

#01. Ágætis byrjun
(1999, Fat Cat)

A julgar pelas experiências manifestas em Von, seria difícil imaginar um salto criativo tão grande na carreira do ainda desconhecido Sigur Rós. Entretanto, tão logo tem início a introdução que marca a chegada de Ágætis byrjun, todos o crescimento do grupo islandês tem início e se faz visível. De funções orquestrais e efeitos instrumentais marcados pelo grandiosismo dos atos, o segundo registro em estúdio traz na presença de pianos, sintetizadores e arranjos de corda todo um sustento grandioso para o disco e consequentemente para a própria banda. Com mais de 70 minutos de duração, o álbum parece solucionar tudo aquilo que a banda havia tentado dois anos antes, abrindo as portas de um cenário finalmente desvendado em completude. Morada de obras como Svefn-G-Englar, Avalon e Olsen Olsen, o álbum praticamente perverte a essência do pós-rock em aproximação com elementos típicos da música barroca, de vanguarda ou mesmo experimentos calcados no shoegaze que parecem próximos do grupo. Lançado em um período de obras fundamentais e tão grandiosas quanto – como Kid A do Radiohead e The Sophtware Slump do Grandaddy -, Ágætis byrjun se apresenta ao público como um princípio de todas as transformações sonoras que viriam a ocupar o início do novo século.

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