Cozinhando Discografias: Skank


Depois de três décadas de carreira, Samuel Rosa (guitarra e voz), Henrique Portugal (teclados), Lelo Zaneti (baixo) e Haroldo Ferretti (bateria) decidiram encerrar as atividades do Skank. Formada em 1990 na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, o quarteto mineiro, junto de nomes como Raimundos, Chico Science & Nação Zumbi e O Rappa, é um dos responsáveis por fazer da colorida mistura de ritmos o estímulo para uma nova fase do rock nacional. Responsáveis por um extenso catálogo de hits — são mais de 25 músicas que alcançaram o topo das principais paradas de sucesso do país —, o grupo teve cada um dos nove trabalhos de estúdio organizados do pior para o melhor lançamento em mais uma edição do Cozinhando Discografias. Nos comentários, aproveite para compartilhar quais são seus registros favoritos da banda.


#9. Velocia
(2014, Sony Music)

Por mais genuíno que fosse o esforço do Skank em se reinventar dentro de estúdio, não há nada em Velocia (2014) que não possa ser encontrado de forma bem resolvida em outros trabalhos da banda. Nono registro de inéditas do quarteto mineiro, o disco que conta com versos compartilhados com Emicida (Rio Beautiful, Tudo Isso), Lia Paris (Aniversário) e Lucas Silveira (Multidão), mostra o esforça da banda em se adaptar aos novos tempos, porém, preservando a essência dos primeiros álbuns. Um exercício puramente nostálgico, proposta que convence nos instantes de maior leveza da obra, como na divertida Ela Me Deixou, mas que tropeça de forma evidente nos momentos de maior sobriedade da obra. Exemplo disso está em canções como Multidão, parceria com BNegão que busca dialogar com a situação política do país no momento em que o trabalho foi gravado, porém, peca pela ingenuidade e falta de aprofundamento dos versos. Canções marcadas pelo desequilíbrio criativo, evidenciando o cansaço que há muito parecia consumir os registros da banda.

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#8. Skank
(1993, Chaos)

Concebido de maneira independente e custeado pelos próprios integrantes, o autointitulado registro de estreia do Skank mostra, mesmo que de forma incipiente, a completa versatilidade do quarteto formado por Samuel Rosa, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti. Utilizando de elementos do raggae/dancehall, proposta que viria a orientar os trabalhos da grupo durante os primeiros anos de carreira, o registro de 11 faixas ganha forma em meio a versos românticos, temas cotidianos e canções de essência política, sonoridade que embala a experiência do público até a chegada da instrumental Caju Dub, faixa de encerramento do disco. Entre preciosidades como In(dig)Nação e Homem Q Sabia Demais, versões para o trabalho de outros artistas, como Tanto (Bob Dylan) e Cadê o Pênalti? (Jorge Ben Jor), o destaque acaba ficando por conta da introdutória Gentil Loucura, início da longa parceria com Chico Amaral. Originalmente lançado em 1992, o trabalho ganharia uma reedição no ano seguinte pelo selo Chaos, novo braço da gigante Sony Music.

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#7. Carrossel
(2006, Sony Music)

Primeiro registro de inéditas do Skank desde a coletânea Radiola (2004), trabalho alavancado pelo sucesso em torno da versão para Vamos Fugir, de Gilberto Gil, Carrossel (2006) segue exatamente de onde o quarteto mineiro havia parado no antecessor Cosmotron (2003). Do momento em que tem início, em Eu e a Felicidade, parceria entre Samuel Rosa e Nando Reis, passando pelo pop pegajoso de Uma Canção é pra Isso, Notícia e Mil Acasos, tudo parece apontar para o passado, como uma tentativa clara da banda em replicar o som produzido por algumas de suas principais referências criativas, como The Beatles e Oasis. Claro que isso não interfere na produção de faixas como a curiosa Trancoso, parceria com Arnaldo Antunes que se entrega ao uso de melodias acústicas, como a passagem para um novo ambiente temático. Instantes que refletem o completo domínio criativo da banda em relação à própria obra.

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#6. Siderado
(1998, Chaos)

Ainda que a busca por novas possibilidades fosse percebida de forma expressiva durante o lançamento do Maquinarama (2000), com a chegada de Siderado (1998), dois anos antes, evidente é o esforço do quarteto mineiro em se reinventar dentro de estúdio. Com parte expressiva das gravações realizadas no lendário estúdio Abbey Road, em Londres, e produção assinada pela dupla Paul Ralphes e John Shaw, o quarto álbum de estúdio do Skank preserva a essência radiante dos primeiros trabalhos do banda, porém, sutilmente aporta em novos territórios criativos. Exemplo disso está na acústica Resposta, colaboração com Nando Reis e princípio de toda uma sequência de baladas românticas que seriam apresentadas pelo grupo nos próximos anos. Surgem ainda criações como a bem-humorada Mandrake e os Cubanos e a própria faixa-título do disco, frações da essência melódica da banda, proposta que assume novo resultado na curiosa No Meio do Mar, composição que se abre para o sutil experimentalismo dos conterrâneos do Uakti, ou mesmo Do Ben, colaboração com Marcelo Yuka (O Rappa) e uma homenagem a Jorge Ben Jor.

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#5. Estandarte
(2008, Sony BMG)

Ponto de equilíbrio entre o som tropical que embala os primeiros trabalhos de estúdio e o pop melódico dos anos 2000, Estandarte (2008) sintetiza, mesmo que de forma sutil, a completa versatilidade do Skank. Não por acaso, o quarteto mineiro decidiu colaborar com o produtor e parceiro de longa data Dudu Marote. Nada previsível em relação ao antecessor Carrossel (2006), o registro transita por diferentes gêneros de forma sempre curiosa, conceito evidente no misto de pop, reggae e música eletrônica de Assim Sem Fim e Noites de um Verão Qualquer, composições que parecem apontar para a boa fase do grupo, lembrando o colorido repertório de Maquinarama (2000). Entretanto, é justamente quando se despe de qualquer traço de complexidade que o grupo realmente acerta. Exemplo disso está na reducionista Sutilmente, com sua base acústica e versos confessionais, ou mesmo o minimalismo eletrônico de Ainda Gosto Dela, completa pela voz de Negra Li. Canções que partem de emoções e vivencias reais como estímulo para o imediato diálogo com o ouvinte.

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#4. O Samba Poconé
(1996, Chaos)

O sucesso em torno de Calango (1994), segundo álbum de estúdio do Skank, acabou servindo de passagem para um novo registro de inéditas da banda. Mais uma vez acompanhado pelo produtor Dudu Marote (Pato Fu, Adriana Calcanhotto), o quarteto mineiro decidiu investir na composição de um trabalho que fosse capaz de dialogar com novas fórmulas instrumentais e ritmos periféricos, conceito evidente durante toda a execução do bem-sucedido O Samba Poconé (1996). Casa de alguns dos principais sucessos do grupo, como Garota Nacional, Tão Seu, Eu Disse a Ela e É Uma Partida de Futebol, essa última, alavancada durante a Copa do Mundo de 1998, o trabalho não apenas preserva, como sutilmente amplia tudo aquilo que os músicos haviam testado durante o lançamento do álbum anterior. O destaque acaba ficando por conta da presença do então desconhecido Manu Chao, parceiro nas políticas Zé Trindade, Sem Terra e Los Pretos, estímulo para o material que seria entregue dois anos mais tarde, no hoje cultuado Clandestino (1998), estreia em carreira solo do artista francês.

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#3. Maquinarama
(2000, Chaos)

Talvez você nunca tenha parado para ouvir Maquinaram (2000), entretanto, é bastante provável que você saiba cantar grande parte das canções que recheiam o quinto álbum de estúdio do Skank. Do momento em que tem início, em Água e Fogo, passando pelo pop romântico de Três Lados ou o flerte com a música eletrônica, em Balada do Amor Inabalável, colaboração entre Samuel Rosa e Fausto Fawcett, cada elemento do disco parece pensado para grudar na cabeça do ouvinte. Longe dos metais e previsível diálogo com o reggae/dancehall, base dos três primeiros registros de inéditas, o quarteto mineiro decidiu provar de novas possibilidades dentro de estúdio. Com produção dividida entre Chico Neves e Tom Capone (O Rappa, Maria Rita), o trabalho vai do soul branco de Roberto Carlos, como na melancólica Ela Desapareceu, ao rock litorâneo de Canção Noturna, música que parece apontar para a trilha sonora de Pulp Fiction (1994). A própria faixa-título do disco, com suas guitarras carregadas de efeitos e inserções eletrônicas, sutilmente aponta para a obra de Primal Scream, The Chemical Brothers e outros nomes de destaque da cena inglesa, estrutura que faz de Maquinarama uma obra tão convidativa, quanto deliciosamente estranha.

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#2. Calango
(1994, Chaos)

Do momento em que tem início, em Amolação, até alcançar a derradeira Pacato Cidadão, cada fragmento de Calango (1994), segundo álbum de estúdio do Skank, parece trabalhado como um hit em potencial. Para além do evidente uso de elementos do reggae/ska, conceito destacado desde o bem-sucedido debute do quarteto mineiro, sobrevive no criativo diálogo com elementos da música regional um importante componente de transformação para a obra. O resultado desse colorido catálogo de ideias está na entrega de músicas como Jackie Tequila, O Beijo e a Reza, Te Ver, Esmola e toda uma sequência de faixas que rapidamente transportaram o grupo para o topo das principais paradas de sucesso em rádios brasileiras. Com produção assinada por Dudu Marote (Pato Fu, Adriana Calcanhotto), o trabalho ainda se abre para a interferência direta de Roberto Frejat, parceiro na inusitada releitura de É Proibido Fumar, música originalmente composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos, em 1964, porém, eternizada pelo grupo de Belo Horizonte. Recebido de forma positiva pelo público – foram mais de 1,2 milhão de cópias vendidas –, Calango ainda serviria de base para toda de obras produzidas pela banda até a transição iniciada em Maquinarama (2000).

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#1. Cosmotron
(2003, Sony Music)

Com a boa repercussão em torno de Maquinarama (2000) e consequente fenômeno causado pelo MTV ao Vivo (2001), trabalho gravado na cidade histórica de Ouro Preto, Minas Gerais, o Skank se consagrava como um dos projetos mais bem-sucedidos da história recente da música brasileira. Foi justamente movido por essa boa fase que o quarteto mineiro entrou em estúdio para a produção do sexto álbum de inéditas da carreira: Cosmotron (2003). Fortemente inspirado pela produção brasileira dos anos 1970, principalmente o clássico Clube da Esquina (1972), além, claro, de dialogar com a obra de veteranos do rock inglês, como The Beatles, o grupo belo-horizontino fez do registro co-produzido por Tom Capone a passagem para uma nova coletânea de clássicos. Estão lá faixas como a radiante Vou Deixar, uma das composições mais tocadas do grupo; baladas como Amores Imperfeitos, Formato Mínimo e As Noites, além, claro, da introdutória Supernova, reencontro com Fausto Fawcett. Nada que se compare ao fenômeno causado por Dois Rios, canção que reflete o lirismo melancólico de Samuel Rosa e a capacidade da banda em provar do pop psicodélico em uma linguagem sempre acessível. Um misto de sequência e fina desconstrução de tudo aquilo que o Skank havia testado anteriormente, estrutura que orienta a experiência do ouvinte até a música de encerramento do álbum, o pop eletrônico de Sambatron.


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