Cozinhando Discografias: Stereolab


Nascido do encontro e da relação entre a cantora, compositora e multi-instrumentista francesa Lætitia Sadier e o músico inglês Tim Gane, o Stereolab talvez seja um dos projetos mais inventivos das últimas três décadas. Com influências que vão do jazz à bossa nova, do rock psicodélico à produção eletrônica, a dupla franco-britânica fez justamente dessa criativa colisão de ideias e diálogos com diferentes instrumentistas a base para uma seleção de obras marcadas pelo forte caráter inventivo. São trabalhos como Transient Random-Noise Bursts with Announcements (1993), Emperor Tomato Ketchup (1996) e Dots and Loops (1997) que não apenas fizeram do grupo um dos mais cultuados do período, como serviram de inspiração para o surgimento de outros nomes também importantes, caso de Air, Toro Y Moi, Hot Chip e Deerhunter. Para celebrar os 30 anos de lançamento das primeiras canções da banda, organizamos do pior para o melhor cada álbum de estúdio apresentados pelo Stereolab.


#10. Not Music
(2010, Drag City / Duophonic)

Not Music é o produto final de um grupo esgotado criativamente. Concebido a partir de músicas que acabaram de fora das sessões de Chemical Chords (2008), o álbum passeia em meio a composições abstratas, instantes de breve improviso e formas instrumentais que viriam a orientar os rumos de cada colaborador em seus respectivos trabalhos em carreira solo. Entre faixas como Everybody’s Weird Except Me, Two Finger Symphony e So Is Cardboard Clouds, o destaque acaba ficando justamente por conta das releituras de Bradford Cox (Atlas Sound) e Andrew Meecham (Emperor Machine) para Neon Beanbag e Silver Sands, ambas apresentadas no disco anterior. Canções que preservam uma série de elementos que fizeram do coletivo franco-britânico conhecido na década de 1990, mas que não chegam nem perto de refletir o mesmo esmero e caráter inventivo do grupo.


#9. Chemical Chords
(2008, 4AD / Duophonic)

Mesmo em um ano marcado pelo surgimento de nomes importantes como Fleet Foxes, Vampire Weekend e Hercules And Love Affair, o Stereolab conseguiu deixar sua marca com a entrega de Chemical Chords. Primeiro trabalho de inéditas da banda desde o material apresentado em Margerine Eclipse (2004) e sucessor de uma série de novas coletâneas, como Oscillons from the Anti-Sun (2006) e Fab Four Suture (2006), o álbum de 14 faixas segue de onde o coletivo franco-britânico havia parado nos registros que o antecedem. São composições marcadas pelo uso destacado dos sintetizadores, vozes instrumentais e guitarras sempre carregadas de efeitos, estrutura que se completa pelo uso complementar de metais e arranjos de cordas, conceito reforçado em faixas como The Ecstatic Static. Composições em que Lætitia Sadier e Tim Gane preservam e pervertem a própria essência criativa, como uma natural continuação de tudo aquilo que o grupo vinha testando desde os primeiros anos de carreira.


#8. Peng!
(1992, Too Pure)

Quando Lætitia Sadier e Tim Gane entraram em estúdio para as gravações do primeiro álbum do Stereolab, o introdutório Pang!, o som produzido pela dupla franco-britânica já circulava há bastante tempo dentro da cena alternativa de Londres. Com dois ótimos EPs em mãos Super 45 (1991) e Super-Electric (1991), além de outras composições avulsas, faltava ao casal, na época acompanhado pelo baterista Joe Dilworth e o baixista Martin Kean, organizar melhor as próprias ideias e testar os próprios limites criativos. O resultado desse processo está na entrega de uma obra essencialmente tímida, porém, distante da psicodelia barata que dominava a produção inglesa do período. Canções como as crescentes Perversion e Orgiastic, com suas guitarras tortas, e Mellotron, marcada pelo uso de experimentações sintéticas e vozes sobrepostas que viriam a orientar as criações da banda pelos próximos anos.


#7. Cobra and Phases Group Play Voltage in the Milky Night
(1999, Duophonic / Elektra)

Concebido durante o período de gestação e nascimento do primeiro filho de Lætitia Sadier e Tim Gane, Cobra and Phases Group Play Voltage in the Milky Night talvez o álbum que mais dividiu as opiniões da crítica e público em toda a discografia da banda. Para os defensores do disco co-produzido em parceria com John McEntire (Tortoise, The Sea and Cake) e Jim O’Rourke (Sonic Youth, Wilco), trata-se de uma clara continuação do pop nostálgico incorporado durante o lançamento do antecessor Dots and Loops (1997). Canções que vão do rock psicodélico à bossa nova em uma criativa colagem de ideias e referências deliciosamente confessas. Já para os críticos da obra, como o jornalista Johnny Cigarettes, da NME, o registro não passa de um projeto “autoindulgente” e que utiliza de “destreza estilística” para disfarçar um som “deliberadamente obscuro e inaudível”. Observado de forma atenta, o trabalho que revelou faixas como The Free Design e Infinity Girl se posiciona exatamente no meio termo entre esses dois extremos. Composições que naturalmente partem de uma estrutura íntima do coletivo franco-britânico, mas que em nenhum momento sufocam pelo próprio conforto.


Menção Honrosa: Switched On
(1992, Too Pure / Slumberland)

Para além da sequência de obras produzidas em estúdio, o Stereolab sempre foi conhecido pelo vasto acervo de composições avulsas, EPs e colaborações que acabaram reunidas em uma série de coletâneas intitulada Switched On. Lançado em outubro de 1992, o primeiro “capítulo” da série reflete o lado menos experimental e evidente urgência do grupo franco-britânico. Trata-se de um resgate dos dois primeiros EPs da banda, Super 45 (1991) e Super-Electric (1991), além de duas faixas apresentadas no single Stunning Debut Album, primeiro lançamento oficial do projeto comandado por Lætitia Sadier e Tim Gane. Pouco mais de 40 minutos em que a dupla e alguns poucos parceiros de estúdio confessam o fascínio pelo krautrock e a música de vanguarda do The Velvet Underground, porém, preservando a própria identidade criativa, conceito que seria ampliado com o lançamento de Transient Random-Noise Bursts with Announcements, no ano seguinte.


#6. Margerine Eclipse
(2004, Duophonic / Elektra)

Não seria uma surpresa se Stereolab encerrasse suas atividades logo após o lançamento de Sound-Dust (2001). Com o fim do relacionamento entre Tim Gane e Lætitia Sadier, e a morte inesperada da multi-instrumentista Mary Hansen, vítima fatal em um acidente de bicicleta, o grupo franco-britânico parecia pronto para se despedir dos palcos. Entretanto, os membros remanescentes decidiram seguir em frente e transformar parte dessa dor no fino repertório entregue em Margerine Eclipse (2004). Enquanto faixas como Hillbilly Motobike e Feel and Triple refletem o lado melancólico do disco, se aprofundando em temas como a morte, romances fracassados e conflitos existencialistas, musicalmente o disco resgata uma série de elemento testados em obras como Dots and Loops (1997) e Cobra and Phases Group Play Voltage in the Milky Night (1999). São sintetizadores coloridos, bips e formas inexatas que se conectam de forma sensível aos versos de cada canção. 


Menção Honrosa: Aluminum Tunes (Switched On, Volume 3)
(1998, Drag City / Warp)

Poucos artistas se mostraram tão prolíficos e engenhosos na década de 1990 quanto o Stereolab. Em um intervalo de apenas sete anos, foram seis álbuns de estúdio que refletem o permanente processo de transformação criativa da banda, proposta que vai do rock psicodélico em Peng! (1992) ao experimentalismo de Cobra and Phases Group Play Voltage in the Milky Night (1999). Nesse intervalo, o grupo ainda estreitou a relação com nomes como Yo La Tengo, Faust e Tortoise, circulou em diferentes coletâneas, como a cultuada Red Hot + Rio (1996), com participação de Caetano Veloso e Gilberto Gil, e ainda revelou uma série de composições inéditas. Parte desse material foi compilado no terceiro e último registro da série Switched On, Aluminum Tunes, trabalho que reúne preciosidades como How to Play Your Internal Organs Overnight, originalmente lançada no EP Music for the Amorphous Body Study Center (1995), e até remixes para algumas das principais composições do coletivo, como Metronomic Underground, música que ganha novo tratamento nas batidas do conterrâneo inglês Wagon Christ.


#5. Sound-Dust
(2001, Duophonic / Elektra)

Enquanto Cobra and Phases Group Play Voltage in the Milky Night (1999) foi apontado por parte do público e crítica como uma obra preguiçosa, Sound-Dust revelou a imagem de uma banda mais uma vez disposta a testar os próprios limites criativos. Marcado pelo forte direcionamento jazzístico, além de incorporar uma série de novos gêneros e possibilidades, o sétimo álbum de estúdio do Stereolab nasce como um produto da época e dos colaboradores que estiveram envolvidos com o grupo durante o período de gravação. Produzido em Chicago, no estúdio de John McEntire, velho colaborador da banda, o registro se abre para a chegada de nomes importantes da cena local, caso do jazzista Rob Mazurek (Marcelo Camelo, Tortoise) e o pianista Mikael Jorgensen (Wilco). Um time seleto de colaboradores que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra, estímulo para a formação de músicas como Space Moth, Captain Easychord e a psicodélica Suggestion Diabolique, composição que parecia resgatar os grooves e a essência versátil de Emperor Tomato Ketchup (1996).


Menção Honrosa: Refried Ectoplasm (Switched On, Volume 2)
(1995, Duophonic Records / Drag City)

Refried Ectoplasm (Switched On, Volume 2) é um desses casos em que uma coletânea de raridades parece mais impactante e coesa do que um trabalho em estúdio. Entregue ao público poucos meses após o lançamento de Mars Audiac Quintet (1994), registro que marca a busca do Stereolab por uma sonoridade cada vez mais pop, o álbum de 13 faixas reflete a completa versatilidade do grupo franco-britânico em seus primeiros anos de atividade. De um lado, faixas essencialmente acessíveis, como Lo Boob Oscillator e French Disko, no outro, canções marcadas pelo forte caráter experimental dos temas, marca de Exploding Head Movie e Animal or Vegetable (A Wonderful Wooden Reason…), essa última, com quase 14 minutos de duração. Instantes em que Lætitia Sadier e Tim Gane se permitem brincar com as possibilidades dentro de estúdio, proposta que embala a experiência do ouvinte até a derradeira e também inexata Tempter.


#4. Transient Random-Noise Bursts with Announcements
(1993, Duophonic / Elektra)

Mesmo marcado por uma série de problemas técnicos, como a destruição de milhares de cópias da primeira prensagem do vinil por conta da péssima qualidade de impressão, e o uso não autorizado de trechos de Wonderwall Music, de George Harrison, em Pack Yr Romantic Mind, Transient Random-Noise Bursts with Announcements talvez seja o trabalho que ajudou a definir a estética e identidade criativa do Stereolab. Do diálogo com a música brasileira, em I’m Going Out of My Way, faixa que incorpora trechos de Samba de uma Nota Só, de Antônio Carlos Jobim, passando pelo uso destacado dos sintetizadores Moog e órgãos Farfisa, cada elemento do disco estabelece uma série de conceitos bastante característicos para o grupo franco-britânico. São incontáveis camadas instrumentais que vão do pop francês ao krautrock, do experimentalismo eletrônico à neo-psicodelia, riqueza explícita nos mais de 18 minutos de Jenny Ondioline, uma das principais criações do registro e evidente ponto de transformação na carreira da banda.


#3. Mars Audiac Quintet
(1994, Duophonic / Elektra)

Com a consolidação do Stereolab em Transient Random-Noise Bursts with Announcements (1993), a banda deixava de ser uma criação particular de Lætitia Sadier e Tim Gane para se transformar em um projeto cada vez mais colaborativo. E isso se reflete não apenas na maior participação dos novos membros do grupo, como o baterista Andy Ramsay, a cantora e multi-instrumentista Mary Hansen, o guitarrista Sean O’Hagan e a tecladista Katharine Gifford, como na busca por uma sonoridade cada vez mais acessível, capaz de dialogar com diferentes parcelas do público. E é exatamente isso que acontece com o lançamento de Mars Audiac Quintet. Terceiro álbum de estúdio do coletivo franco-britânico, o registro abandona a crueza explícita desde a estreia com Pang! (1992) para investir em uma sonoridade cada vez mais voltada ao pop. O mais interessante talvez seja perceber essa busca por novas possibilidades criativas, porém, preservando a essência delirante e poesia política dos primeiros registros, marca de músicas como Nihilist Assault Group, International Colouring Contest e Ping Pong, essa última, regida pelo lirismo satírico e anticapitalista de Sadier.


#2. Dots and Loops
(1997, Duophonic / Elektra)

Não existe caminho mais fácil para conhecer a obra do Stereolab se não pelo convidativo Dots and Loops. Produto de um lento processo de transformação criativa que teve início em Mars Audiac Quintet (1994), o quinto álbum de estúdio do coletivo franco-britânico evidencia a busca de cada integrante por uma sonoridade tão acessível quanto conceitualmente provocativa. Influenciado de forma bastante explícita pela música pop dos anos 1960, o jazz e a bossa nova, o registro co-produzido por John McEntire (Tortoise, The Sea and Cake) e Andi Toma (Mouse on Mars), evidencia a capacidade de Lætitia Sadier e seus parceiros de banda em lidar com uma sonoridade que mesmo reducionista, se projeta de forma essencialmente ampla. São delicadas camadas instrumentais, melodias e vozes que se apresentam ao público em uma medida própria de tempo, riqueza que se reflete tanto em composições menos contidas, como Miss Modular e Brakhage, quanto em músicas como as atmosféricas Refractions in the Plastic e PulseContronatura.


#1. Emperor Tomato Ketchup
(1996, Duophonic / Elektra)

Você não precisa ir além da introdutória Metronomic Underground para ser prontamente transportado para dentro do quarto álbum de estúdio do Stereolab, Emperor Tomato Ketchup. Com título inspirado em um filme homônimo do cineasta e poeta japonês Shūji Terayama, o trabalho produzido em parceria com John McEntire (Tortoise, The Sea and Cake) e Paul Tipler (Mojave 3, The Pipettes), mostra o grupo franco-britânico em sua melhor forma. Enquanto a base instrumental do disco alcança um ponto de equilíbrio entre o pop eletrônico, o krautrock e o hip-hop, nos versos, Sadier brinca com o encaixe das palavras de forma sempre inexata, detalhado retalhos poéticos que se conectam diretamente aos arranjos e batidas tortas do álbum. São versos curtos e cíclicos, como mantras, proposta que garante ao registro um caráter quase transcendental. Exemplo disso pode ser percebido em faixas como Percolator e OLV 26. Canções que partem de uma estrutura linear, porém, crescem na completa fragmentação das ideias, improvisos e ambientações labirínticas. Nada que se compare ao cuidado explícito em Cybele’s Reverie, música que serviu para apresentar o som do Stereolab a uma nova parcela do público e reforça a linguagem acessível que seria aprimorada com o lançamento de Dots and Loops (1997). Um delírio do primeiro ao último instante.