Cozinhando Discografias: Sufjan Stevens

Por: Cleber Facchi

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

O clássico, o pop e o experimental se encontram dentro da versátil obra de Sufjan Stevens. Um dos personagens de maior relevância dentro da música alternativa dos anos 2000, o cantor e compositor de Detroit, Michigan, fez da rica discografia um catálogo de possibilidades, brincando com elementos do Folk, eletrônica, ambient e avant-garde sem jamais fugir do uso das boas melodias. Com um cardápio selecionado de discos, o músico é o mais novo escolhido a integrar a seção Cozinhando Discografias. Para a produção da lista, foram selecionados apenas os trabalhos oficiais do músico, o que explica a ausência de discos como The Avalanche (207), The BQE (2009) ou mesmo o conjunto de registros natalinos compilados nos álbuns Songs for Christmas (2006) e Silver & Gold (2012).

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#06. A Sun Came
(2000, Asthmatic Kitty)

No começo dos anos 2000, a cena Folk estadunidense começou a se transformar de forma evidente, assumindo novas tendências e revelando diferentes personagens. Nomes como Devendra Banhart, Phil Elvrum e todo um novo grupo de artistas que abriram passagem para uma série de outros projetos que viriam a crescer ao longo da década. É dentro desse novo ambiente que o então novato Sufjan Stevens apresentou o debut A Sun Came (2000). Ainda que limitado quando próximo dos futuros inventos do artista – principalmente Illinois (2005) e The Age of Adz (2010) -, o álbum se revela como uma obra de possibilidades. Basta a inaugural We Are What You Say, com suas passagens por ritmos orientais/africanos para perceber o campo vasto encontrado pelo músico. Sobram ainda resgates do folk dos anos 1990 (Demetrius), e até músicas de puro experimento (Jason), prova de que mesmo cercado em um ambiente criativo (ainda) tímido, Stevens já se mantinha acima da média dos outros artistas do gênero.

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Sufjan Stevens

#05. Enjoy Your Rabbit
(2001, Asthmatic Kitty)

Mais conhecido pelas emanações brandas e histórias entoadas pela singeleza das vozes e violões, Sufjan Stevens fez dos primeiros anos uma constante busca pelo experimento. Quase uma década antes de mergulhar nas colagens eletrônicas de The Age of Adz, de 2010, o músico norte-americano transformou o curioso Enjoy Your Rabbit (2001) em um registro de pequenas e ricas possibilidades. Conduzido pela temática do Horóscopo Chinês, o segundo álbum solo de Stevens equilibra instantes de pura leveza e atos corrompidos pela distorção, exercício que mantém fixa a atenção do ouvinte durante os quase 80 minutos de duração do projeto. Do orquestral hipnótico de Year of the Rat, ao conjunto de ambientações sintéticas/orgânicas em Year of the Tiger, cada música usa do isolamento como uma forma de expansão dos domínios lançados pelo artista – que mantém os vocais em um estágio econômico durante todo o disco. De forma evidente, um ensaio dentro da carreira de Stevens e ao mesmo tempo uma obra completa.

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Sufjan Stevens

#04. Seven Swans
(2004, Sounds Familyre)

Poucos artistas viveram uma fase tão criativa quanto Sufjan Stevens no começo dos anos 2000. Depois da bem sucedida passagem por Michigan (2003) e a caminho de apresentar a obra-prima Illinois (2005), o cantor e compositor norte-americano fez da sutileza imposta em Seven Swans um ponto de reclusão e ainda assim preparativo para o que estava por vir. Compacto e visivelmente mais tímido em relação ao cenário proposto no trabalho anterior, o disco usa das vocalizações sublimes e parcos violões como o principal instrumento da obra. Não interessado em repetir as experiências da série The Fifty States Project, Stevens foi de encontro ao uso de temas bíblicos, trazendo na construção de faixas como Abraham, The Transfiguration e In the Devil’s Territory um criativo ponto de renovação para a própria carreira. De visível composição intimista – em alguns momentos apenas e voz e os violões do cantor ocupam o disco -, Seven Swans curiosamente está longe de parecer uma obra limitada, pelo contrário, expressa a sensibilidade de Sufjan de maneira tão criativa e doce quanto nos principais lançamentos do cantor.

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Sufjan Stevens

#03. Greetings from Michigan: The Great Lake State
(2003, Secretly Canadian)

No início de 2003, Sufjan Stevens resolveu dar inicio a um dos mais ambiciosos (e geniais) projetos da música norte-americana recente: o imenso The 50 States Project. Espécie de gigantesca homenagem aos 50 estados que compõem o território dos Estados Unidos, o músico deu início à atividade com o lançamento do sutil Greetings from Michigan: The Great Lake State, trabalho em que se aventura musicalmente pela região de origem, bem como estabelece todo um novo e detalhado enquadramento à cena folk contemporânea. Posteriormente, mesmo que a imensa ideia tenha se revelado como uma brincadeira por parte do compositor e abandonada após o lançamento do ainda mais belo Illinois (2005), fugir da beleza e das formas sonoras que se sobrepõe no interior da obra é uma tarefa quase impossível. Com letras sempre descritivas – que vão desde arcos fechados, até manifestações subjetivas do músico -, Stevens cria as bases para que toda uma gigantesca e delicada tapeçaria musical seja estendida pelo álbum, que se dissolve de forma natural em acordes doces e aconchegantes.

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The Age of Adz

#02. The Age of Adz
(2010, Asthmatic Kitty)

Depois de dar vida à obra-prima Illinois (2005), Stevens passou a se relacionar com outros campos da música em uma tentativa de expandir as próprias referências. Além da coletânea de canções natalinas, Songs for Christmas (2006), e de reciclar algumas sobras de estúdio no álbum The Avalanche, em 2007, o músico passou a interagir com outros artistas (como The National) e até diferentes gêneros musicais (caso do Hip-Hop). Não por acaso, ao abrir as portas de The Age Of Adz (2010), o sexto álbum de estúdio, o universo criado pelo compositor parecia ser outro. Amplo em essência, o trabalho vai além do folk minimalista dos primeiros discos, laçando arranjos orquestrais imensos (Impossible Soul), diversas colagens eletrônicas (Too Much), além, claro, de uma curiosa relação com o Hip-Hop/R&B (I Walked) que impera por toda a obra. É preciso observar que a mudança não está apenas nos arranjos, mas nos versos do álbum. Longe dos velhos personagens e arcos fechados dos discos lançados anteriormente, Stevens finaliza uma obra de lírica particular, esbarrando em conceitos como a melancolia, sexo e até mesmo a morte. Uma representação do próprio universo do cantor, mas que em nenhum momento exclui o ouvinte dessa equação.

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Sufjan Stevens

#01. Illinois
(2005, Asthmatic Kitty)

Uma garota com câncer nos ossos, discos voadores, um serial killer vestido de palhaço, passagens bíblicas, pessoas comuns, celebridades e um cardápio (quase) infinito de possibilidades: seja bem vindo ao ambiente colorido (e triste) de Illinois. Segundo “capítulo” da série The 50 States Project, o quinto álbum de Sufjan Stevens é um registro que encanta, tamanha a riqueza de detalhes e histórias concentradas em seu interior. Produzido em um curto período de tempo – o que torna tudo ainda mais surpreendente -, o trabalho que foi gravado entre igrejas e locações pouco convencionais é um mergulho atento na cultura e na história do estado de Illinois. De fatos históricos (Casimir Pulaski Day), ao passeio por cidades (Chicago) e personagens, caso do assassino John Wayne Gacy, Jr., cada instante dentro do álbum transporta o ouvinte para diferentes épocas e cenários, sem que haja um limite específico para a atuação de Stevens.

Diferente do exercício assumido em Michigan (2003), Stevens afasta o disco de qualquer instante de calmaria, carregando no exagero dos instrumentos e vocais um estágio pleno de grandeza. Por todos os cantos da obra, coros de vozes, arranjos orquestrais e métricas típicas da música de vanguarda dialogam de forma assertiva com o pop, gerando um trabalho tão criativo musicalmente, quanto comercial. Dentro desse enquadramento dinâmico, Stevens não apenas mantém as atenções do ouvinte em alta, como faz das 22 faixas do álbum (algumas são apenas vinhetas) objetos de puro detalhe. Uma das maiores homenagens já feitas à cultura norte-americana e ao mesmo tempo uma obra de linguagem universal.

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