Cozinhando Discografias: Talk Talk

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado muito mais democrático.

Poucos artistas brincaram tanto com os próprios limites em estúdio quando a banda britânica Talk Talk. Com apenas dez anos de carreira e cinco registros oficiais, o grupo formado em 1981 na cidade de Londres, Inglaterra, atravessou o som pegajoso da New Wave para mergulhar em temas densos e experimentais, antecipando uma série de conceitos que sustentariam o Pós-Rock. Aos comandos do vocalista e principal compositor Mark Hollis, Lee Harris, Paul Webb e Simon Brenner sustentaram a obras tão comerciais (It’s My Life), quanto complexas (Laughing Stock), trabalhos agora organizados do pior para o melhor lançamento em mais uma seção Cozinhando Discografias.

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#05. The Party’s Over
(1982, EMI)

Em um ano de obras como Rio do Duran Duran e New Gold Dream (81-82-83-84) do Simple Minds, a estreia do Talk Talk com The Party’s Over quase passou despercebida. Não fosse pela boa recepção de hits como Hate e Today, grande parte do acervo desenvolvido pelo vocalista Mark Hollis seria facilmente descartado pelo público, entregue ao montante de registros típicos do pop pegajoso que ecoava pela música da época. Todavia, em meio a composições plásticas e canções nitidamente fabricadas, faixas extensas como Have You Heard the News? ou mesmo a própria faixa-título pareciam antecipar de forma controlada os mesmos experimentos que o grupo viria a reforçar no fim da década. Atos climáticos, bases condensadas de sintetizadores e um espaço sempre preciso para a inclusão dos vocais. Peças encaixadas de forma precisa pelo assertivo produtor Colin Thurston – parceiro de Tony Visconti nos últimos anos de David Bowie na fase Berlim. A julgar pelo material que seria melhor explorado em It’s My Life (1984) e The Colour of Spring (1986), apenas um curioso exercício de formação da própria identidade.

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#04. It’s My Life
(1984, EMI)

Em janeiro de 1984, quando Mark Hollis e os parceiros do Talk Talk apresentaram ao público It’s My Life, faixa-título do segundo álbum de estúdio da banda, todas as pistas indicavam que a relação do grupo com a New Wave parecia fortalecida. O vocal direto, sintetizadores e batidas prontas para as pistas; uma atenta continuação do material lançado dois anos antes em The Party’s Over (1982). Ainda que a experiência da banda fosse naturalmente reforçada em músicas como Such A Shame e Call In The Night Boys, do mesmo álbum, basta um mergulho na inaugural Dum Dum Girl para sentir a transformação na sonoridade do grupo. Percussão marcada pelo experimento em Tomorrow Started, arranjos melancólicos e atmosféricos em Renée, guitarras inspiradas pelo jazz em toda a formação do registro. Na superfície, um típico exemplar do Synthpop chiclete que ocupava as paradas de sucesso, no interior, um grupo fortalecido pela constante necessidade de mudança. Hollis e o produtor Tim Friese-Greene – parceiro da banda até o derradeiro Laughing Stock (1991) – conseguiram finalizar bons singles, agradando gravadora e público, porém, são as peças complexas encaixadas ao longo do disco – antecipando a orientação do sucessor The Colour of Spring (1986) -, que realmente sustentam o álbum.

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#03. The Colour of Spring
(1986, EMI)

Se você comparar o número de músicos que aparecem no encarte de The Colour Of Spring com as informações registrado nos primeiros discos do Talk Talk vai perceber duas bandas completamente distintas. Além da maior interferência de percussionistas – caso de Morris Pert (Kate Bush, Peter Gabriel) e Martin Ditcham (Elton John, Rolling Stones) – e diferentes músicos convidados, para o disco de 1986, um time de engenheiros de som acompanharam de perto todos os movimento do produtor Tim Friese-Greene, principal parceiro do vocalista Mark Hollis durante a concepção do disco. Detalhista em essência, o terceiro álbum do grupo londrino é mais do que uma obra de ruptura, mas um exercício atento de experimento. Em meio a atos extensos de sete ou oito minutos de duração – como em Living in Another World e Time It’s Time -, o coletivo deixa crescer arranjos lentos e ambientações tão íntimas do pop, quanto do som climático que a banda viria a assumir no trabalho seguinte. Inaugurado pelo coro de vozes pueris de Happiness Is Easy, o sucessor de It’s My Life (1984) parece sobreviver em um plano extremamente fértil, utilizando dos sentimentos e confissões de Hollis como a ponte para o cenário melancólico que o grupo tece com parcimônia no decorrer da obra.

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#02. Spirit of Eden
(1988, EMI)

Os mais de nove minutos da climática The Rainbow servem como um aviso: o som incorporado pelo Talk Talk (há muito) não era o mesmo de It’s My Life. Faixa de abertura do quarto álbum de estúdio do trio, a canção resume não apenas o material explorado ao longo de todo o registro, como as experiências que viriam a orientar o trabalho grupo até o ponto final da carreira em Laughing Stock (1991). Vozes econômicas, arranjos complexos e um completo desapego da New Wave reforçada nos dois primeiros discos. Quem esperava por um novo hit acessível talvez devesse regressar ao ambiente colorido de The Party’s Over. Base para os conceitos que viriam a definir o Pós-Rock bem como o trabalho de Sigur Rós, Mogwai e outros grupos próximos na década seguinte, Spirit of Eden é uma obra organizada em meio a temas sombrios e esparsos improvisos. Influenciado pelo trabalho de Miles Davis, John Coltrane e outros jazzístas, Mark Hollis e o produtor Tim Friese-Greene interpretam o registro como uma obra livre. Entre instantes de euforia, como em Desire, e delírio, caso de I Believe in You, cada faixa se acomoda em um território isolado, como se o arco-íris anunciado na faixa de abertura fosse a passagem para o universo autoral que cresce lentamente ao ecoar das faixas. Em uma arquitetura sensível, por vezes mística, o caminho para um paraíso particular do Talk Talk.

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#01. Laughing Stock
(1991, Polydor)

A julgar pela crueza imposta em obras como Nevermind do Nirvana, Loveless do My Bloody Valentine e tantos outros registros de 1991, talvez Laughing Stock fosse uma fuga natural desse cenário turbulento. De fato, o “Éden instrumental” apresentado pelo Talk Talk no disco anterior, de 1988, não apenas é ampliado ao longo do quinto (e último) registro em estúdio da banda, como Mark Hollis e os parceiros parecem mergulhar ainda mais nos próprios experimentos. Todavia, o que antes era encarado em meio a improvisos jazzísticos e extensos atos instrumentais, agora se revela de forma bem estruturada, refletindo maior precisão e controle por parte dos músicos, imposição explícita no ambiente delineado para a inaugural Myrrhman.

Com maior liberdade em estúdio – o grupo havia deixado a EMI para seguir com a Polydor – e o reforço do amigo/produtor Tim Friese-Greene, cada instante do derradeiro ato do Talk Talk encanta pelas possibilidades e nítida precisão dos arranjos. Trompetes e clarinetes brandos em Taphead, vozes bem resolvidas em Myrrhman e Ascension Day, um labirinto percussivo cortado por guitarras no interior de New Grass. Atravessar cada composição do trabalho é como ser perder um universo de conceitos tão reais quanto voltados ao campo onírico. Apresentado ao público no mesmo ano de Spiderland do Slint, Laughing Stock seria uma obra fundamental para definir não apenas a estrutura do pós-rock ao longo da década, mas toda uma variedade de gêneros e também registros. Radiohead em OK Computer (1997) ou Arcade Fire com Funeral (1994), muita gente ainda brinca com as experiências lançadas neste disco.

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