Cozinhando Discografias: Talking Heads

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado muito mais democrático.

Em um cenário dominado por bandas como Blondie, Television e Ramones, a nova-iorquina Talking Heads se destacou com naturalidade pelo caráter plural da própria obra. Com oito registros em estúdio e uma produção que se estender entre 1975 e 1991, a banda formada por David Byrne, Chris Frantz, Tina Weymouth e Jerry Harrison é a base para grande parte dos projetos lançados na época, bem como para boa parte da geração de artistas nascidos nos anos 2000. Fonte criativa para projetos como Arcade Fire, Vampire Weekend e Radiohead, o quarteto nova-iorquino é o novo escolhido em nossa seção, tendo toda a discografia organizada desde o debut, Talking Heads: 77, ao álbum de encerramento, Naked (1988).

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#08. Naked
(1988, Warner Bros.)

Ainda que carregue o título da banda, Naked é muito mais uma preparação para a carreira solo de David Byrne do que um disco do Talking Heads em si. Grandioso, o derradeiro álbum de estúdio é uma expansão da World Music testada inicialmente pelo grupo. Ritmos tropicais, música árabe, jazz, samba e batuques africanos preenchem a atmosfera do disco – musicalmente, o mais grandioso do grupo. Produzido ao longo de um ano, o trabalho concentra um time imenso de colaboradores. Das guitarras de Johnny Marr (The Smiths), passando por uma orquestra de cordas, metais e elementos percussivos, a diversidade é a base para o crescimento de faixas como Blind, (Nothing But) Flowers e Totally Nude, os últimos exemplares melódicos lançados pelo quarteto. Obra final do grupo – nessa época dissolvido em diferentes projetos paralelos -, Naked talvez seja o registro mais limpo e bem produzido da banda, porém, é apenas uma reciclagem de conceitos e experiências antes impostas com maior jovialidade.

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#07. Little Creatures
(1985, Sire)

A busca por uma sonoridade menos complexa em Speaking in Tongues, de 1983, é a base para o direcionamento ainda mais “simples” incorporado em Little Creatures. Possivelmente o trabalho mais pop/convencional de toda a discografia do grupo, o sexto álbum de estúdio funciona como um jogo de guitarras brandas, vozes limpas e melodias quase inofensivas – como se houvesse um limite específico para crescimento da obra. Controlado, o álbum composto e produzido por David Byrne se destaca justamente nos instantes de maior interferência dos parceiros de banda. É o caso de músicas como The Lady Don’t Mind e Perfect World, capazes de resumir a nova face radiofônica do quarteto e ao mesmo tempo flertar com aspectos harmônicos da World/Funk Music. Entrada para o grupo de colaboradores que viriam a acompanhar os futuros lançamentos da banda – como o percussionista brasileiro Naná Vasconcelos -, Little Creatures é um disco que se mantém agradável e coeso em essência, pecando apenas pela incapacidade do grupo em arriscar.

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#06. Talking Heads: 77
(1977, Sire)

Em um cenário de obras responsáveis pelo amadurecimento da música nova-iorquina – como Marquee Moon do Television, a estreia do Suicide e até Rocket To Russia dos Ramones -, Talking Heads: 77 cresce como uma obra naturalmente menor, mas não menos significativa. Esculpido em um bloco de melodias aprazíveis e sempre comerciais, o debut traduz parte da harmônica interação entre David Byrne e os parceiros Chris Frantz, Tina Weymouth e Jerry Harrison, refletindo com acerto toda a versatilidade do grupo – a ser aprimorada nos próximos anos. Mesmo limitado quanto próximo dos sucessores Fear of Music (1979) e Remain in Light (1980), o registro de 11 faixas se manifesta como uma obra rica em possibilidades. São os experimentos com a guitarra em The Book I Read, os testes vocais em New Feeling e o bem resolvido diálogo com o country no hit Psycho Killer – ainda hoje, a faixa mais conhecida da banda. Fragmentos ainda tímidos, mas essenciais para o reforço do grupo logo no álbum seguinte, o já evoluído More Songs About Buildings and Food (1978).

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#05. True Stories
(1986, Sire)

Em 1986 David Byrne tinha carta branca para desenvolver o projeto que bem entendesse dentro ou fora de estúdio com o Talking Heads. Centrado em uma sonoridade cada vez mais pop, aprimorada nos comerciais Speaking in Tongues (1983) e Little Creatures (1985), o grupo nova-iorquino lançou em outubro do mesmo ano o projeto mais corajoso (e louco) até então: True Stories. De um lado, um conjunto de nove faixas inéditas como Wild Wild Life e Love For Sale, representantes do explícito apego pop do quarteto; no outro, uma comédia nonsense dirigida e estrelada por Byrne, que ainda produziu uma trilha sonora à parte para a película. Se por um lado o filme contou com baixa recepção do público e crítica, em se tratando do novo álbum, o acerto foi claro e imediato. Livre de experimentos, o disco sustenta mais de 40 minutos de guitarras versáteis, vozes pegajosas e uma curiosa relação com o Country. Acessível do primeiro ao último acorde, True Stories foi responsável por apresentar o trabalho da banda a toda uma nova parcela de ouvinte, carregando na faixa Radio Head a grande inspiração para o nome do grupo britânico Radiohead.

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#04. Speaking in Tongues
(1983, Sire)

Passado o lançamento de Remain in Light, em 1980, os membros do Talking Heads deixaram as atividades da banda de lado para investir em diferentes projetos paralelos. Enquanto Jerry Harrison lançou em 1981 o primeiro disco solo, The Red and the Black, David Bryne se uniu a Brian Eno para produzir o colaborativo My Life in the Bush of Ghosts. Chris Frantz e Tina Weymouth, por sua vez, aproveitaram o espaço para montar o Tom Tom Club, lançando no mesmo ano o primeiro registro em estúdio da parceria. De volta ao Talking Heads em 1982, grande parte dessas novas experiências serviram de sustento para o inspirado Speaking in Tongues, quinto álbum do grupo. Síntese comercial do som testado desde More Songs About Buildings and Food (1978), o registro é ao mesmo tempo uma continuação dos primeiros inventos com Brian Eno, além de um preparativo para o trabalho reforçado em Little Creatures (1985). Com boas canções – como Burning Down the House e Girlfriend Is Better -, e experimentos moderados, a obra produzida pela própria banda equilibra conforto e experimento, funcionalidade retratada com acerto na derradeira This Must Be the Place (Naive Melody).

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#03. More Songs About Buildings and Food
(1978, Sire)

Poucos meses haviam se passado desde o lançamento de Talking Heads: 77, entretanto, a diferença em relação ao sucessor More Songs About Buildings and Food é bastante clara. Início da parceria com Brian Eno, o álbum de 1978 é uma fuga declarada do pop óbvio lançado pela banda nas primeiras canções, reforçando o uso experimental das guitarras, batidas e vozes de David Byrne. Irônico do título aos versos, o disco é uma coleção de faixas enérgicas, marcadas por versos urbanos e sonoridade ampla – nascida da colisão de elementos do Funk, Reggae e Country. Ao mesmo tempo em que parece solucionado de forma melódica e acessível ao grande público – vide a estrutura de The Good Thing ou mesmo na versão para Take Me To The River, de Al Green -, cada instante da obra se entrega ao domínio de novas ferramentas e temáticas instáveis. Basta observar o caldeirão de conceitos que borbulha em I’m Not in Love e Found a Job. Pequenas colagens, arranjos incertos e adequações comandadas pela voz de Byrne. Uma obra fechada e ao mesmo tempo que um preparativo inteligente para o cenário ainda mais complexo desenvolvido logo em Fear of Music (1979).

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#02. Fear of Music
(1979, Sire)

Havia uma distância imensa entre o Talking Heads apresentado no álbum de 1977 e a banda lançada ao final de More Songs About Buildings and Food (1978). Ainda que a estrutura pop de Psycho Killer e Take Me to the River fosse suficiente para garantir sustento comercial ao grupo, desde a chegada do segundo álbum que a sonoridade “experimental” predominava em estúdio. Colisão entre estes dois universos, Fear of Music resume não apenas o pop-dançante desenvolvido para o primeiro álbum, como ainda expande o material aquecido inicialmente na produção de Brian Eno. Ao mesmo tempo em que trava um diálogo honesto com outras obras recentes – como Entertainment! do Gang Of Four e Unknown Pleasure do Joy Division -, o disco lançado em agosto de 1979 é uma obra que logo assume o próprio caminho. Ora eletrônico (I Zimbra e Animals), ora imerso no cenário pop (Life During Wartime), Fear Of Music colide ideias, gêneros e fórmulas, tendo como único ponto da apoio os sentimentos incertos de David Byrne. Da morte de uma ex-namorada (Mind), aos tormentos que habitavam a mente do cantor (Heaven), há sempre um novo sentido lírico/musical para o disco, o que explica parte do ineditismo que acompanha a obra ainda hoje, três décadas depois de lançada.

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#01. Remain in Light
(1980, Sire)

Diferente dos três primeiros álbuns do Talking Heads, Remain in Light foi uma obra concebida em um cenário de inevitável conflito. Início da pequena crise que acompanharia o grupo em 1981 – com David Byrne e Brian Eno atuando de forma isolada em My Life in the Bush of Ghosts, e Chris Frantz e Tina Weymouth dando vida ao Tom Tom Club -, o álbum (inicialmente intitulado Melody Attack) nasce da completa ausência de inspiração do vocalista/líder Byrne, obrigando o grupo a investir em arranjos experimentais, variações temáticas de guitarras, bem como no aspecto “cíclico” das vozes e arranjos que preenchem as canções. Ponto central e mecanismo de equilíbrio para a obra, Brian Eno encontra no cenário abrangente uma série de argumentos melódicos para amarrar as pontas soltas da banda, resumindo desde atos comercialmente provocativos, como no interior da densa The Overload, até faixas voltadas ao grande público, vide Crosseyed and Painless e Once In A Lifetime.

Instável, Remain in Light usa do propósito libertador de cada música como uma ferramenta de crescimento natural. É possível encontrar desde elementos da cultura árabe em House In Motion, passando pela comunicação com o Hip-Hop em Once In A Lifetime, até ruídos de Fella Kuti e outros nomes da música africana em toda a formação da obra. Há sempre um ponto de evidente desequilíbrio e tensão estrutural, fragmentando os limites do óbvio dentro de cada faixa – sejam elas íntimas do pop, como de uma estrutura essencialmente complexa. Ato final da primeira “fase” do quarteto, Remain in Light resume de forma criativa grande parte do material lançado por outros artistas ao longo de toda a década de 1980, antecipando em duas décadas elementos expressivos reforçados por The Rapture, Vampire Weekend e outros nomes fortes dos anos 2000.

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