Cozinhando Discografias: The Roots

Por: Cleber Facchi

The Roots

A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Formado na cidade de Filadélfia, Pensilvânia no final dos anos 1980, o The Roots surgiu de forma tímida, como apenas mais um coletivo na recente safra de artistas inclinados a unir o Jazz ao Hip-Hop. Entretanto, o discurso político e as letras marcadas pela sóbria poesia urbana em pouco tempo elevaram o grupo a um novo patamar. Com mais de duas décadas de atuação, o projeto, representado na imagem do baterista Questlove, trouxe alguns dos registros mais significativos que o cenário musical proporcionou nos últimos anos. Seja em álbuns antigos (Things Fall Apart, 1999) ou obras recentes (Undun, 2011), cada trabalho do grupo norte-americano parece ambientado em um cenário próprio, quase isolado. Com dez álbuns de estúdio, a banda é a nova escolhida em nosso especial, que teve a difícil tarefa de catalogar cada um dos lançamentos na ordem do “pior” para o melhor.

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The Roots

#10. The Tipping Point
(2004, Geffen/Interscope)

Quem conhece a discografia do The Roots sabe que o grupo norte-americano está longe de concentrar grandes exageros musicais ou acumular obras relativamente fracas. Entretanto, mesmo dentro do catálogo de obras assertivas e cuidadosamente trabalhadas pelo coletivo, algumas canções ou mesmo álbuns inteiros parecem tropeçar eventualmente. The Tipping Point, de 2004, talvez seja a melhor representação disso. Não se trata de um álbum ruim, pelo contrário, é um bom registro em estúdio se observado próximo de outros álbuns do gênero, mas que ao ser posicionado ao lado dos principais trabalhos do grupo se manifesta impreciso, menor. Vindo em sequência ao bem recebido Phrenology, o disco parece seguir os conceitos raciais/sociais explorados no álbum que o antecede, porém, em um estágio simplificado, como se os experimentos testados na obra de 2002 fossem deixados de lado em prol de um disco resumido ao público médio. Esse efeito “compactado” que habita no disco resulta em um trabalho inexistente de brilho, redundante por vezes, como se o grupo batesse na mesma tecla, sem um mínimo acréscimo aparente.

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The Roots

#09. Organix!
(1993, Independente)

A relação de acerto entre Jazz e Hip-Hop, proclamada pelo A Tribe Called Quest e outros grupos norte-americanos, fez nascer uma sequência de projetos mundo afora. Impulsionado pela mesma composição e o cruzamento exato entre gêneros, o The Roots fez do debut Organix! uma sequência mais do que natural desse cenário, ao mesmo tempo em que trazia marcas bastante específicas para dentro da própria estética musical. Produzido de forma independente e custeado pelos integrantes, o álbum é um típico registro do começo dos anos 1990, talvez isolado e autoral em relação ao efeito orgânico/instrumental que conduz toda a obra. Nos versos, um retrato das periferias norte-americanas, nesse caso, a cidade de Filadélfia, morada do grupo e base temática para grande parte das composições que habitam os versos. Embora tímido em relação aos futuros inventos do grupo, o álbum, na contramão de outras estreias, revela o trabalho de um coletivo maduro, ciente da própria proposta, ao mesmo tempo em que se assume capaz de antecipar diversas marcas e conceitos posteriormente ampliadas em obras como Things Fall Apart (1999) e Phrenology (2002).

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The Roots

#08. Rising Down
(2008, Def Jam)

Passado e presente se confundem na produção de Rising Down. Oitavo registro em estúdio do The Roots, o álbum segue as pistas deixadas pelo grupo em Game Theory (2006), porém, longe da manifestação melódica que parecia crescer dentro da estrutura do grupo, o álbum encontra nos versos nada cantaroláveis uma forte relação musical com a década de 1990. Enquanto sintetizadores sujos e guitarras presentes se manifestam como a base temática para toda a extensão da obra, rompendo a multiplicidade dos arranjos, a presença ativa de um grupo de convidados derrama versos e rimas em uma intensa aproximação com o que caracteriza o universo inicial do grupo, até o álbum Illadelph Halflife (1996). Cinzento e homogêneo, o disco assume um posicionamento isolado dentro do apelo melódico que o grupo vinha arquitetando, o que torna a audição do álbum curiosa, uma espécie de versão ampliada dos discos Organix! e Do You Want More?. Distante de possíveis singles, o disco curiosamente contou com uma boa aceitação do público, vendendo relativamente bem tanto dentro, como fora dos Estados Unidos.

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The Roots

#07. Do You Want More?!!!??!
(1995, DGC/Geffen).

A maturidade exposta em Organix!, uma sequência de boas apresentações ao vivo, além do cenário naturalmente favorável, não custaram a transformar o The Roots em uma das grandes novidades do Hip-Hop nos anos 1990. Agora com um contrato assinado com DGC, o coletivo fez da estreia em um grande selo uma evolução visível em relação ao independente debut. Partindo da mesma relação de cruzamento entre o Rap e o Jazz, o álbum parece amenizar a composição proposta dois anos antes pelo grupo, compactando pianos, batidas e uma linha de baixo volumosa em um cenário essencialmente climático. Longe da possível timidez que embalava os versos, o grupo brinca com as rimas e melodias em uma aproximação maior ao grande público, o que garante ao trabalho um efeito natural de crescimento. A abertura, entretanto, não priva o grupo de passear pelas periferias, proposta ministrada com sobriedade e orquestrações seguras durante toda a composição do álbum. Extenso, são mais de 70 minutos de duração, o álbum mantém a relação de harmonia entre as faixas até o último segundo, efeito da relação da interferência precisa de cada integrante como compositor e ao mesmo tempo produtor do álbum.

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#06. Game Theory The Roots
(2006, Def Jam)

Desde o lançamento de Phrenology, em 2002, a busca por um resultado mais “acessível” parecia motivar as composições do The Roots. Ainda que as rimas e o teor crítico em torno da obra do grupo se mantivesse em pleno ápice, em se tratando do manuseio dos samples e instrumentos, cada novo registro parecia motivar criativamente o coletivo a tocar o grande público. Em Game Theory, de 2006, é quando todas essas interferências começam a se manifestar com maior cuidado e nitidez. Ampliando a presença dos convidados, instrumentos e até dos samples, o álbum é um passo seguro para o que aproximaria o princípio firmado no Hip-Hop da verve melancólica instalada na soul music – salto para os presentes lançamentos do grupo. Sombrio, mas não menos melódico, o álbum concentra em músicas como Don’t Feel Right e Long Time uma construção aprimorada daquilo que o grupo parecia concentrar nos primeiros trabalhos de estúdio, mantendo firme a relação com os primórdios da música negra, mas sempre em busca de um resultado musical de composição própria.

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The Roots

#05. Illadelph Halflife
(1996, DGC)

O The Roots, tal qual conhecemos hoje, nasceu em Illadelph Halflife. Com uma melhor compreensão do cruzamento entre o Rap e o Jazz, o coletivo fez do terceiro registro em estúdio uma obra entregue ao delineamento seguro das composições, ao mesmo tempo em que a experimentação parecia surgir como uma necessidade. Musicalmente amplo e instrumentalmente versátil, o disco tira o grupo do conforto em estúdio instalado no álbum anterior, reforçando o teor urbano já expressivo nas criações instaladas no debut. Marcado pelo teor colaborativo das faixas, o disco encontra na presença de Q-Tip, D’Angelo, Common e Raphael Saadiq um salto na essência do grupo, que se permite brincar com faixas de apelo sombrio, enquanto outras atentam para o grande público. Racismo, criminalidade ou mesmo simples histórias cotidianas atravessam o interior do disco, evidenciando no lirismo das faixas uma evolução em proximidade ao que havia guiado as primeiras rimas do grupo. Marcado pelo Groove – há um distanciamento em relação ao Jazz, com o coletivo apostando em gêneros como o Soul, Funk e outros traços da música negra -, Illadelph Halflife entrega ao ouvinte um território amargo, mas que em nenhum momento se distancia do uso coeso de boas harmonias e bases melódicas.

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The Roots

#04. Undun
(2011, Def Jam)

Nascimento e morte, passado e presente, começo e fim. Em Undun o The Roots deixou a imensa colagem de referências para se concentrar em um ponto específico, nesse caso, a história de Redford Stevens, personagem fictício inspirado em uma música de Sufjan Stevens – no álbum Michigan, de 2003 – e a base para toda a construção do registro. De efeito conceitual, a obra coleciona fragmentos que ao serem agrupados revelam a morte e o nascimento do que a banda definiu como uma “típica criança urbana”. Uma das obras mais amplas já alcançadas pelo grupo, o registro concentra na presença de diferentes rappers a montagem temática de Redford, como se o curioso personagem fosse na verdade uma metáfora para os diferentes rostos que circulam pelas periferias. Dividido abertamente entre o Rap e Neo-Soul, o álbum traz na presença dos colaboradores um teor de grandeza, operístico por vezes, como se cada aspecto do registro fosse posicionado em um ensaio autoral marcado pela precisão dos arranjos ou simplesmente no encaixe pontual das batidas e rimas.

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The Roots

#03. How I Got Over
(2010, Def Jam)

Um álbum pensado para as melodias. Em toda a discografia do The Roots versos, sons e samples sempre foram trabalhados em um grau pleno de aproximação, porém, nunca de forma tão significativa quanto em How I Got Over. Colecionando parcerias – estão lá Joanna Newsom (Right On), Monsters Of Folk (Dear God 2.0) e John Legend (The Fire) – o trabalho posiciona as rimas em segundo plano, abrindo um espaço maior para os instrumentos e, principalmente, os vocais. Essencialmente comercial, o álbum se adorna de composições plásticas, mas que estão longe de perder o efeito crítico que desde a década de 1990 impulsiona as canções do grupo. Em um sentido de maior compreensão sobre aquilo que o coletivo havia iniciado em Rising Down (2008), o álbum se desprende da veia jazzística para afundar em melancolias típicas do Soul/R&B e diversos outros traços da década de 1970. O resultado dessa composição faz nascer verdadeiros hits, efeito raro dentro da composição do grupo, mas que banha com sensibilidade e acerto canções aos moldes de Now Or Never, Radio Daze ou a própria faixa título. Se você nunca ouviu nenhum disco do The Roots, How I Got Over talvez seja o caminho mais fácil para se impressionar com o coletivo.

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The Roots

#02. Phrenology
(2002, MCA/Geffen)

Frenologia, “estudo” focado em desvendar as principais características de um indivíduo com base na formação do crânio. Um dos princípios para a construção de uma série de conceitos racistas que marcaram o final do século XIX e começo do século XX, a pseudociência e suas questões raciais abrem as portas do quinto registro em estúdio do The Roots, obra em que as rimas se sobrepõem atenciosamente aos sons. Sequência natural ao que o grupo havia alcançado com Things Fall Apart, em 1999, o álbum encontra no olhar apurado para as periferias o alicerce social e temático para todo o movimento crítico do grupo, ampliando o teor sombrio que já existia na obra do coletivo. Extenso, faixas como Water ultrapassam com facilidade os dez minutos de duração, o trabalho encontra na colagem de referências – líricas e musicais – a base para um passeio sóbrio pela história recente, discutindo questões sociais e criminalidade com um acabamento naturalmente preciso. Com nomes como Nelly Furtado, Talib Kweli e Mos Def, o imenso cenário de interferências do The Roots se amplia ainda mais, conceituando o que viria a guiar de forma ainda mais ampla toda a produção musical do grupo nos anos 2000.

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The Roots

#01. Things Fall Apart
(1999, MCA)

Em 1999 o Hip-Hop apresentava traços nítidos do que viria a conduzir os exageros do gênero no começo do novo século. Os versos exaltando luxos, a onda Bling Bling e a ruptura com as bases sociais que marcaram o estilo nos anos 1980 guiavam de forma decisiva o cenário musical norte-americano. A industria e o grande público haviam absorvido o Rap, efeito que praticamente sufocou uma série de trabalhos de quem talvez buscasse por um sentido contrário a esse propósito temático. É justamente dentro desse ambiente isolado e quase reflexivo que se encontra Things Fall Apart, obra-prima do The Roots e um curioso regresso ao que tanto conceituou os primeiros lançamentos do Hip-Hop. Sombrio e marcado pelo teor político-social dos versos, o álbum atravessa décadas de preconceito, crimes e as dificuldades da comunidade negra em uma obra de alcance lírico talvez maior do que os próprios conceitos que a conduzem.

Centrado em um exercício claro de aprimoramento de ideias, o álbum condensa tudo o que o coletivo havia testado nos trabalhos anteriores, principalmente Illadelph Halflife (1996), o que torna músicas como Dynamite! e The Next Movement continuações quase naturais de diversas bases prévias. Alimentado pelas referências, o disco traz no romance homônimo de Chinua Achebe, no cinema de Spike Lee e até na imagem da capa – um recorte agressivo sobre os movimentos civis nas décadas de 1960 e 1970 – toda a composição da obra. Gravado em Nova York, no histórico Electric Lady Studios, de Jimmi Hendrix, o álbum reforça na presença de Erykah Badu, Mos Def, Common e uma série de outros colaboradores partículas essências para a composição final da obra, um trabalho feito da colagem de histórias, temas e experiências coletivas que vão muito além dos próprios limites do The Roots.