Cozinhando Discografias: The Strokes

Por: Cleber Facchi

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista, ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Formado na cidade de Nova York, no final da década de 1990, o quinteto The Strokes é o principal responsável pelos rumos assumidos no rock alternativo dos anos 2000. Apresentados como os novos “salvadores do rock”, o grupo formado pelos músicos Julian Casablancas, Albert Hammond, Jr., Nikolai Fraiture, Fabrizio Moretti e Nick Valensi fez da curta obra de cinco discos a base para um dos projetos aclamados do novo século. Aproximando elementos que vão do rock concebido no final dos anos 1970, ao conjunto de referências que marcam a década de 1980, a banda nova-iorquina conseguiu despertar o amor do público mesmo em um conjunto limitado de discos. Mais novos escolhidos a integrar a seção Cozinhando Discografias, a banda teve cada um dos cinco álbuns organizados do pior, para o melhor.

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Angles

#05. Angles
(2011, RCA)

Mudança, sem necessariamente saber que direção seguir. Esta parece ser a estratégia do The Strokes durante a construção de Angles. Quarto registro em estúdio da banda, o álbum é uma completa desconstrução da trilogia inicial do grupo, afinal, enquanto ecos de Television e outros elementos do rock firmado nos anos 1970 pareciam direcionar a banda até First Impressions Of Earth (2006), com a chegada do “colorido” álbum a herança dos anos 1980 se faz evidente. Marcado pela colisão de gêneros – reggae, synthpop, além, claro, de algumas sobras do disco solo de Julian Casablancas -, Angles dança pelas pistas sem saber de fato onde vai parar. O resultado está na construção de faixas embebidas em sutileza (Games) ou mesmo músicas que tentam garantir um resultado forçado ao “novo” grupo (Machu Picchu). No meio do catálogo de possibilidades surgem músicas que mais parecem “sobras” do disco anterior, caso de Under Cover Of Darkness, e até canções que emulam de forma cômica a essência da década de 80 (Two Kinds Of Happiness). Da capa aos arranjos, um conjunto versos, cores e essências que estão longe de encontrar um ponto exato de equilíbrio.

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The Strokes

#04. First Impressions Of Earth
(2006, RCA)

Três anos de espera e uma certeza: o terceiro disco dos Strokes deveria ter sido um EP, e não um trabalho completo. Sustentado em totalidade pela trinca inicial – You Only Live Once, Juicebox e Heart In A Cage -, First Impressions Of Earth é um disco que quase morre do meio para o final. Enquanto músicas como On The Other Side antecipam o espírito 80’s da banda, outras como Vision Of Division e Electricityscape soam como versões reaproveitadas de antigos Hits do grupo nova-iorquino. Guitarras aceleradas, a voz berrada de Casablancas e a linha de baixo presente de Nikolai Fraiture, uma sensação de que o catálogo específico de normas da banda foi aberto, como se todas as canções seguissem uma arquitetura imutável. Sobram tentativas em passear pelo Pós-punk de forma tranquila (Killing Lies), baladas (Evening Sun) e até músicas que soam como autoplágios (Red Light). Mesmo a límpida produção de David Kahne e Gordon Raphael não consegue distanciar o grupo de um conjunto de elementos completamente previsíveis. Ainda que bem recebido pelos fãs – seria carência? -, o álbum não conseguiu ocultar o distanciamento entre os próprios integrantes, que mergulhariam em um longo hiato após o processo de divulgação do disco.

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The Strokes

#03. Comewdown Machine
(2013, RCA)

Tudo o que First Impressions Of Earth (2006) tentou ser, tudo aquilo que Angles (2011) jamais será. Menos exaltado em relação ao fluxo oitentista imposto no quatro trabalho de estúdio da banda, Comedown Machine, quinto álbum do grupo nova-iorquino, consegue se livrar dos exageros para focar no uso de boas melodias. Meio termo entre a agressividade dos primeiros álbuns e a tonalidade neon do disco que o antecede, o trabalho usa de Tap Out, na abertura, como um princípio de direção para o restante da obra. Ainda que algumas canções, caso de All The Time, sejam resquícios pouco transformados dos primeiros lançamentos, outras como Welcome to Japan e Slow Animals reforçam com acerto a nova fase do grupo. Versos pontuais, guitarras bem encaixadas e uma curiosa aproximação com o pop que dá certo. Seja brincando de U2, em Chances, ou rasgando guitarras, no Hard Rock 50 50, cada música do disco começa e termina dentro de um ambiente próprio, o que de forma alguma interfere na comunicação final do trabalho. Dessa forma, mesmo a colorida One Way Trigger como a strokiniana Happy Ending dividem funções iguais, assumindo um ziguezaguear inteligente na construção do álbum.

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Room On Fire

#02. Room On Fire
(2003, RCA)

Todos foram pegos de surpresa por Is This It. A postura descompromissada, o jogo veloz das guitarras e os versos tramados em cima de uma estrutura bem definida, garantiram ao The Strokes a licença de entrar nos anos 2000 para romper com o que o Nirvana havia fixado anos antes. Sem romper com a fórmula pronta firmada no primeiro disco e desfilando pelo Hype em um estágio de aclamação, o grupo nova-iorquino fez de Room On Fire a base para tudo o que viria guiar a avalanche de bandas apresentadas logo em sequência. Seja pelos acordes sujos de Automatic Stop, o riff-chiclete de Reptilia ou a letra tola e inevitável de The End Has No End, tudo parece pensado de forma a fisgar o ouvinte. Gordon Raphael, que já havia trabalhado com o grupo no disco anterior, parece compreender com maior interesse a vocação da banda, transformando os vocais de Julian Casablancas em um instrumento alinhado às guitarras cantaroláveis de Nick Valensi. Poucas vezes “mais do mesmo” serviu de forma tão assertiva quanto neste disco.

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The Strokes

#01. Is This It
(2001, RCA)

Raros são os trabalhos reforçam a ciclicidade da música de forma tão interessante quanto Is This It. Explosão criativa que movimentaria toda a nova safra de rock alternativo, o debut do quinteto nova-iorquino encontra na essência final dos anos 1970 o princípio para a construção do que foi anunciado na primeira década do século XXI. Das guitarras matemáticas de Nick Valensi, ao desespero vocal de Julian Casablancas, cada instante do álbum é encarado sob um forte detalhamento jovial e libertador. São canções simples de (des)amor (Last Night), ou mesmo versos típicos de jovens adultos (Hard To Explain), mas, acima de tudo, faixas capazes de escapar da lógica redundante que ocupava a música da época. Parte desse resultado vem do completo resgate da sonoridade de veteranos como The Velvet Underground, Ramones e Television, este último, repetido em cada acorde ou mínima projeção instrumental da obra.

Acelerado, o disco se sustenta em uma formatação propositalmente veloz, um exercício de urgência e efemeridade que casa com a simplicidade melódica dos versos – a mesma deixada para trás no clássico Marquee Moon (1977). Mais do que um disco que usurpa a essência de outros registros clássicos, Is This It é um retrato autêntico da juventude pós-Grunge. O descompromisso (Someday), o romantismo tolo (Barely Legal) e a banalidade dos temas (The Modern Age), tudo é encarado sem grandes pretensões, estratégia que curiosamente reforça a originalidade do álbum e faz dele um catálogo de sons tão atuais hoje, quanto na época em que foram lançados.


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