Cozinhando Discografias: TV On The Radio

 

Formado no começo dos anos 2000, na região do Brooklyn, em Nova York, o TV On The Radio é um coletivo de rock alternativo que parece brincar com as possibilidades e ritmos. Em um lento exercício de transformação, a banda que tem na formação clássica os músicos Tunde Adebimpe, David Sitek, Kyp Malone, Jaleel Bunton e Gerard Smith contabiliza uma boa sequência de obras. Trabalhos como Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004), Return to Cookie Mountain (2006) e Dear Science (2008), registros que acabaram posicionando o grupo como um dos mais importantes da cena norte-americana na última década. Com cinco álbuns de estúdio e um bom catálogo de singles – como Wolf Like Me, Golden Age e Will Do –, a banda foi escolhida para mais uma edição da seção Cozinhando Discografias.

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#06. OK Calculator
(2002, Independente)

Muito embora tenha sido lançado sob o título de TV On The Radio, OK Calculator (2002), primeiro registro de inéditas da banda nova-iorquina, está longe de refletir o mesmo cuidado explícito nos principais trabalhos da banda. Trata-se de uma coletânea de músicas caseiras produzidas em parceria entre Tunde Adebimpe e David Sitek. Fragmentos que incorporam elementos do soul, Hip-Hop, reggae, R&B, rock e eletrônica sem necessariamente fixar residência em um conceito específico. Um experimento capaz de traduzir algumas das principais influências da dupla, como os britânicos do Radiohead, cujo clássico OK Computer (1997) serviu de inspiração para o registro, além, claro, de ambientações típicas da obra de Brian Eno e outros representantes da música produzida nos anos 1970. Pouco mais de 70 minutos que serviriam de base para os futuros trabalhos da banda, vide o resgate de faixas como Freeway e On a Train, músicas posteriormente adaptadas como parte do single Staring at the Sun, uma das canções de Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004).

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#05. Seeds
(2014, Harvest)

Primeiro registro de inéditas do TV On The Radio desde a morte do baixista Gerard Smith, Seeds mantém firme o cuidado em relação ao trabalho da banda nova-iorquina. Na trilha do antecessor Nine Types of Light (2011), o álbum lançado em novembro de 2014 mostra a busca do quarteto em produzir um som ainda mais acessível, comercial. Um bom exemplo disso está na composição melódica Careful You, música que confirma a capacidade do grupo em transformar os sentimentos no principal componente para o trabalho. Surgem ainda faixas como Could You, um típico exemplar da relação do grupo com a obra de David Bowie ou mesmo Happy Idiot, primeiro single do trabalho e a composição mais intensa da banda desde a explosão de guitarras e vozes aplicadas em Wolf Like Me, parte do álbum Return To Cookie Mountain. Sintetizadores, batidas e versos cuidadosamente alinhados, prova de que mesmo dentro de uma obra “menor”, prevalece o esforço do TV On The Radio em produzir um bom registro.

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#04. Nine Types of Light
(2011, Interscope)

Entregue ao público poucos dias após a morte do baixista Gerard Smith, Nine Types of Light segue um ritmo particular quando comparado aos demais trabalhos do TV On The Radio. Naturalmente íntimo do som produzido para o antecessor Dear Science, de 2008, o registro se espalha em meio a melodias típicas do Soul/R&B, reforçando a relação do grupo nova-iorquino com a música negra dos Estados Unidos. O resultado está na construção de faixas essencialmente contidas, caso da dolorosa You ou mesmo das delicadas Killer Crane e Will Do, composições que reforçam o aspecto intimista em torno da obra. Surgem ainda músicas como Repetition e Caffeinated Consciousness, perfeitas representações da sonoridade versátil que acompanha a banda. Mais do que o um registro isolado, o trabalho ainda contou com a interferência de uma série de diretores para a produção de um longa com cada um dos clipes do trabalho. Uma clara tentativa do TV On The Radio em continuar se reinventando dentro e fora de estúdio.

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#03. Desperate Youth, Blood Thirsty Babes
(2004, Touch and Go / 4AD)

Lançado em março de 2004, Desperate Youth, Blood Thirsty Babes é um verdadeiro acúmulo de experiências. Dos experimentos caseiros gerados na demo OK Calculator, de 2002, passando pela boa repercussão do EP Young Liars, em junho de 2003, grande parte do material produzido pelo TV On The Radio durante os primeiros anos de vida assume novo e criativo enquadramento ao longo de nove faixas — 11 na versão digital. Aos comandos de Tunde Adebimpe (Voz), Kyp Malone (voz, guitarras), David Andrew Sitek (bateria, guitarras, teclados) e Martin Perna (saxofone, flautas), cada composição se transforma em um objeto de destaque. Instantes em que o som produzido por veteranos como Wire, David Bowie e Pixes mergulha no R&B/Soul dos anos 1970. Uma criativa sobreposição de referências que ganha maior destaque em músicas como Staring At The Sun, Dreams e, principalmente, na dobradinha formada por Ambulance e Poppy, perfeito indicativo do som que viria a ser desenvolvido no trabalho seguinte da banda, Return to Cookie Mountain (2006).

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#02. Return to Cookie Mountain
(2006, 4AD / Interscope / Touch and Go)

Com o lançamento de Desperate Youth, Blood Thirsty Babes, em março de 2004, os integrantes do TV On The Radio conseguiram estabelecer as regras do som produzido pela banda. Uma colagem de ideias que passeia por diferentes épocas e sonoridades de forma sempre curiosa, inventiva. Entretanto, ninguém parecia preparado para a transformação que viria em Return to Cookie Mountain. Primeiro trabalho da banda com a presença de Jaleel Bunton e Gerard Smith, o trabalho de 11 faixas impressiona logo nos primeiros minutos, efeito da colisão de ritmos que marca I Was A Lover, música que ainda se apropria de samples de Teardrop do Massive Attack. Entre instantes de maior melancolia (Dirty Whril) e faixas marcadas pela explosão dos arranjos (Playhouses), o destaque acaba ficando por avalanche de vozes, guitarras e metais que cobre toda a extensão de Wolf Like Me, quinta faixa do disco e uma das melhores composições da banda. Bem-recebido pela imprensa e público, Return to Cookie Mountain abriria passagem para que o grupo fosse convidado a participar de diversos festivais ao redor do globo, servindo de passagem para a madura transformação no álbum seguinte, o elogiado Dear Science (2008).

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#01. Dear Science
(2008, 4AD / Interscope / Touch and Go)

Do momento em que tem início em Halfway Home, passando pela construção de músicas como Crying, Golden Age, Shout Me Out e DLZ, até alcançar a derradeira Lover’s Day, difícil encontrar um possível traço de erro dentro de Dear Science. De fato, o terceiro álbum de estúdio da banda nova-iorquina nasce maduro, pronto. Produto das experiências acumuladas pelo grupo no antecessor Return to Cookie Mountain (2006), o registro de 11 faixas e pouco mais de 50 minutos de duração faz de cada composição um objeto precioso. São diferentes camadas de vozes e instrumentos que ampliam consideravelmente os limites do trabalho. Momentos em que o quinteto força o ouvinte a dançar, caso da pulsante Red Dress, ou mesmo instantes de profundo recolhimento, marca da dolorosa Family Tree, uma delicada reflexão sobre o amor familiar, amizade e morte. Cuidadosamente polido por David Sitek, responsável pela produção de toda a discografia da banda, Dear Science ainda se abre para a chegada de um time seleto de colaboradores. Nomes como Martín Perna (Antibalas, The Roots), Stuart D. Bogie (David Byrne, Foals) e os saxofonistas Matana Roberts e Colin Stetson, este último, convidado a integrar a turnê de divulgação do álbum.

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