"Modus Vivendi"

Ano: 2020
Selo: GOOD / Def Jam
Gênero: Hip-Hop, R&B, Rap
Para quem gosta de: Teyana Taylor e Tierra Whack
Ouça: Guilty Conscience e Morrow
Nota: 7.5

Crítica | 070 Shake: “Modus Vivendi”

Modus Vivendi (2020, GOOD / Def Jam) é uma obra estranha, entretanto, isso está longe de ser um problema. Primeiro álbum de estúdio da cantora, compositora e produtora Danielle Balbuena como 070 Shake, o registro guiado pelo experimentalismo das formas instrumentais utiliza da lenta desconstrução dos elementos como um estímulo para a composição dos versos. Canções que vão do pop empoeirado da década de 1980 ao R&B dos anos 2010 em uma linguagem própria da artista de Nova Jersey, conceito que se reflete tão logo o disco tem início, na atmosférica Don’t Break the Silence, e segue até a imagem de capa do trabalho, uma criação retro-futurista do ilustrador Sam Spratt.

De fato, do momento em que tem início, na já citada Don’t Break the Silence, até alcançar a derradeira Flight319, cada fragmento do disco costura passado e presente em uma linguagem própria da artista norte-americana. Frações instrumentais e poéticas que parecem pensadas para jogar com a experiência do público, conceito que não apenas preserva a essência dos antigos registros apresentados pela cantora nos últimos anos, caso de Glitter EP (2018), como em participações esporádicas no trabalho de outros artistas, vide o encontro com Kanye West, em Ye (2018), ou mesmo na ainda recente coletânea The Lion King: The Gift (2019), organizada por Beyoncé.

Exemplo disso está na crescente Morrow, terceira faixa do disco. Inaugurada em meio a samples de música latina, indicativo da herança familiar de Balbuena, a canção rapidamente mergulha em uma sequência de batidas ritmadas, vozes carregadas de efeitos e sintetizadores que fazem lembrar a boa fase de Kanye West, principalmente em Yeezus (2013). Um rico alicerce melódico que se completa pela letra confessional da artista. “Eu não vim te impressionar / Você saberá porque está destinado / Você sente isso no seu intestino / Eu sei que é difícil de engolir / Eu não sei se estarei aqui amanhã“, segue em um misto de canto e rima, direcionamento que se reflete durante toda a execução do trabalho.

É como se Balbuena fizesse de pequenas inquietações, medos e conflitos sentimentais a base para cada uma das composições que recheiam o disco. É o caso de Guilty Conscience. Faixa mais acessível do disco, a canção utiliza de memórias de um passado ainda recente como elemento de diálogo entre a cantora e o próprio ouvinte. “Minha mente não me deixa descansar, a voz na minha cabeça / Eu ouço o que diz, não posso confiar em nada … Não podia acreditar no que eu vi / Você estava no corpo de outra pessoa / Fantasmas do passado vieram me assombra“, desaba. São versos sempre intimistas, proposta que tem sido explorada pela artista desde o lançamento de Glitter EP, porém, aprimorada com a entrega do presente disco.

Se por um lado a entrega de Balbuena contribui para o fortalecimento da obra, por outro, não há como ignorar o evidente aspecto monotemático que rege a formação dos versos. São desilusões amorosas e outros conflitos intimistas que pouco avançam criativamente, tornando a experiência do ouvinte arrastada. Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, como na lisérgica Under The Moon, 070 Shake não apenas aporta em novos territórios, como avança musicalmente, provando de um trap futurístico e guitarras que servem de complemento à letra da canção.

Mesmo pontuado por instantes de sutil desequilíbrio, não há como negar que Modus Vivendi cumpre o papel de apresentar a obra de 070 Shake a uma parcela maior do público e, ao mesmo tempo, pavimentar o caminho para os futuros lançamentos da artista. Parte dessa coerência na composição do álbum vem da escolha da artista em trabalhar com um número reduzido de colaboradores, estreitando a relação com a dupla de produtores formada por Mike Dean (Frank Ocean, Beyoncé) e Dave Hamelin. O resultado desse intenso processo criativo está na entrega de um registro homogêneo, como se cada composição servisse de base para a faixa seguinte, proposta que orienta a experiência do público até o último segundo do disco.