"Songs / Instrumentals"

Ano: 2020
Selo: 4AD
Gênero: Indie, Folk, Folk Rock
Para quem gosta de: Big Thief, Bon Iver e Angel Olsen
Ouça: Anything, Heavy Focus e Come
Nota: 8.6

Crítica | Adrianne Lenker: “Songs” / “Instrumentals”

A música de Adrianne Lenker é dotada de uma capacidade única: a de acolher e confortar o ouvinte. São versos e melodias detalhistas que se entrelaçam de forma a revelar personagens, cenas e acontecimentos de forma sempre sensível. Canções que partem de experiências vividas pela cantora e compositora norte-americana, mas que em nenhum momento deixam de dialogar com ouvinte, reforçando uma constante sensação de familiaridade. Instantes de profunda entrega sentimental e vulnerabilidade aparente, tratamento que se reflete em cada uma das composições que embalam a dobradinha composta pelos delicados Songs e Instrumentals.

Concebidos e lançados em conjunto, os trabalhos produzidos entre os meses de abril e maio deste ano mostram a capacidade de Lenker em revelar um material essencialmente amplo, mesmo no reducionismo das vozes e temas instrumentais. São canções que partem de uma base econômica, sempre regida pelo violão rústico da musicista, mas que revelam um catálogo de pequenos detalhes. Instantes em que a vocalista do Big Thief traz de volta tudo aquilo que foi apresentado durante o lançamento de U.F.O.F. (2019), há poucos meses, porém, partindo de um novo direcionamento estético.  

Parte desse resultado vem da forma como os trabalhos foram concebidos. Acompanhada apenas do engenheiro de som Phil Weinrobe, Lenker decidiu se isolar em uma cabana na região de Westhampton, município que conta com pouco mais de mil habitantes, no interior do estado de Massachusetts. O resultado desse processo está na entrega de duas obras conceitualmente distintas, porém, dotadas de uma mesma base estrutural. Frações poéticas e instrumentais sempre adornadas pelo uso de captações de campo, texturas e cantos de pássaros, como se a musicista transportasse para dentro de estúdio a mesma atmosfera bucólica de onde os discos foram gravados.

Dessa forma, a poesia confessional de Lenker, cuidadosamente refinada durante o lançamento do antecessor Abyskiss (2018), parece crescer para além dos limites da própria obra. São músicas como Anything (“Eu não quero falar sobre nada / Eu quero beijar, beijar seus olhos de novo“), Heavy Focus (“Tremi como da primeira vez / Nossas palmas se encontraram no suor dos moluscos“) e Come (“Pegue minha mão, segure/ Deixe-me deitar em seus braços“), em que a artista se entrega por completo, fazendo de cada fragmento poético no decorrer de Songs um complemento ao fino alicerce instrumental que serve de sustento ao disco.

Instrumentals, mesmo na ausência de palavras, garante ao público uma experiência tão complexa quanto o repertório apresentado em Songs. São duas composições extensas em que Lenker parece envolver o ouvinte lentamente, convidado a se perder em um labirinto de melodias e formas instrumentais que evidenciam o completo esmero da artista. “Esse instrumento [o violão] tem sido meu principal amigo, meu companheiro. Isso me confortou muito. A maneira como gravamos os arranjos e como o toquei parece quase mais vulnerável [do que música], porque não está tentando ser nada demais”, respondeu em entrevista ao NME, indicando parte da leveza e direcionamento criativo que embala a composição do disco.

O resultado desse processo está na entrega de dois álbuns que, mesmo lançados separadamente, se complementam. É como se a cantora garantisse ao público um registro quase fidedigno de todo o processo de composição do trabalho, revelando desde faixas cuidadosamente polidas e completas, a instantes de maior experimentação e evidente improviso dentro de estúdio. De fato, tudo se transforma em música nas mãos nas mãos da artista. Do som de passos na floresta de folhas quebradiças ao ruído das cordas arranhando a superfície do violão, Lenker garante ao público uma obra viva, onde cada fragmento, mesmo o mais discreto, assume uma posição de destaque.