"2017–2019"

Ano: 2020
Selo: Other Music
Gênero: Experimental, Eletrônica, Techno
Para quem gosta de: Ross From Friends e DJ Seinfeld
Ouça: Fantasy e Faith
Nota: 8.0

Crítica | Against All Logic (Nicolas Jaar): “2017–2019”

A imprevisibilidade talvez seja uma das principais marcas do som produzido por Nicolas Jaar. Seja no minimalismo explícito nas canções de Space Is Only Noise (2011), trabalho que apresentou a obra do produtor nova-iorquino, ou na criativa colagem de ideias de Sirens (2016), casa de músicas como No e The Governor, cada novo registro entregue pelo artista de ascendência chilena utiliza da incerteza como importante componente criativo. Instantes de fina experimentação e propositada ruptura estética, direcionamento que se reflete mesmo em projetos colaborativos, como no paralelo Darkside, encontro com o multi-instrumentalista Dave Harrington, e toda uma sequência de faixas compartilhadas pelo selo Other People, do qual é fundador.

É justamente essa ausência de certeza que orienta a experiência do público durante toda a execução de 2017–2019 (2020, Other People). Segundo e mais recente álbum do produtor como Against All Logic, o registro de nove faixas encontra na permanente desconstrução dos elementos um estímulo para seduzir o ouvinte. São ruídos, ambientações eletrônicas e vozes que se espalham de forma inexata, torta, como se cada composição fosse tratada de maneira independente, indicativo de uma obra que se revela muito mais como uma coletânea de ideias do que um registro fechado.

Exemplo disso está na transição entre Fantasy e If Loving You Is Wrong, logo nos primeiros minutos do disco. Enquanto a faixa de abertura do trabalho vai de Baby Boy, parceria entre Beyoncé e Sean Paul, ao experimentalismo de Psychic (2013), colaboração com Dave Harrington, na música seguinte, o direcionamento passa a ser outro. São pouco menos de quatro minutos em que Jaar se concentra no uso de ambientações cíclicas, batidas e sintetizadores pontuais, estrutura que tanto aponta para a estética dos anos 1980, como preserva a essência dançante do material apresentado em 2012–2017 (2018), primeiro grande lançamento como Against All Logic.

Com base nessa estrutura, Jaar entrega ao público uma obra ausente de qualquer certeza. São criações que convidam o ouvinte a dançar, porém, se perdem em um labirinto de fórmulas delirantes, vozes e incontáveis resgates conceituais que apontam para diferentes campos da música. Perfeita representação desse resultado está na dobradinha composta por Deeeeeeefers e Faith. São pouco mais de dez minutos em que o produtor nova-iorquino parece testar os próprios limites dentro de estúdio, proposta que vai do uso ressaltado das batidas ao reducionismo atmosférico, leveza que faz lembrar da trilha sonora produzida pelo próprio artista para o filme soviético A Cor da Romã (1969).

Se por um lado essa riqueza de detalhes e fórmulas pouco usuais mantém a atenção do ouvinte em alta, vide a intensa If You Can’t Do It Good, Do It Hard, parceria com Lydia Lunch, por outro, fica evidente a sensação de vazio da obra, como se tudo não passasse de um novo esboço criativo de Jaar. Exemplo disso está no contexto político adotado em parte das canções de Sirens, quando trouxe elementos sobre a repressão durante a ditadura de Augusto Pinochet e o período de redemocratização do Chile. Ideias conceitualmente amplas, porém, regidas por uma mesma base temática.

Produto das possibilidades e experiências acumuladas por Jaar em um intervalo de dois anos, 2017–2019 cresce como um novo capítulo em uma obra marcada pelo criativo processo de ruptura estética. Não por acaso, o produtor nova-iorquino decidiu presentear o próprio público com outras duas criações inéditas que acabaram de fora do corte final do disco, Illusions of Shameless Abundance, com a já citada Lydia Lunch, e Alucinao, parceria com Estado Unido e FKA Twigs. Um permanente exercício de transformação criativa, proposta que, mesmo irregular, reflete a capacidade do artista em se reinventar dentro de estúdio.



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