"Agora"

Ano: 2019
Selo: Touch
Gênero: Experimental, Ambient
Para quem gosta de: Tim Hecker e Grouper
Ouça: Rainfall e Agora
Nota: 8.0

Crítica | “Agora”, Fennesz

A grande beleza do som concebido por Christian Fennesz sempre esteve na forma como o produtor austríaco encontrou no minimalismo das formas instrumentais a base para a construção de um material essencialmente complexo e detalhista. São texturas eletrônicas, camadas de ruídos e delicadas paisagens atmosféricas que se revelam ao público em pequenas doses, estrutura que vem sendo aprimorada desde o amadurecer criativo, em Endless Summer (2001), mas que alcança novo e inusitado refinamento nas composições de Agora (2019, Touch).

Menos urgente em relação ao material entregue no antecessor Bécs (2014), um dos trabalhos mais acessíveis de toda a carreira de Fennesz, o presente álbum carrega na leveza dos arranjos e temas instrumentais a base para uma obra deliciosamente hipnótica. São inserções minimalistas e colagens eletrônicas que parecem desacelerar tudo aquilo que o produtor austríaco havia incorporado durante a formação de obras importantes como Venice (2004) e Black Sea (2008).

Parte desse reducionismo vem da forma como o álbum foi concebido, em um estúdio caseiro montado pelo próprio artista. “Eu havia perdido um espaço de trabalho adequado em estúdio e tive que mudar todo meu equipamento para um quarto pequeno no meu apartamento. Tudo foi feito com fones de ouvido. Uma situação frustrante no começo, mas que, posteriormente, parecia me transportar para quando produzi meus primeiros registros na década de 1990“, escreveu no texto de apresentação da obra.

De fato, basta uma audição atenta para perceber como Fennesz estabelece uma série de pontes criativas para o material entregue no clássico Endless Summer. Exemplo disso ecoa com naturalidade nas ambientações eletrônicas e guitarras sutilmente encaixadas Rainfall. É como uma interpretação soturna do som originalmente testado em faixas como Happy Audio e A Year in a Minut. A própria música de abertura, In My Room, para além de uma síntese conceitual da obra, flutua em meio a paredões de ruídos e sintetizadores que ampliam parte expressiva do universo musical do austríaco.

O mais curioso dentro desse processo de composição talvez esteja na forma como Fennesz costura pequenos atos instrumentais dentro de cada faixa do disco. São improváveis curvas rítmicas e variações atmosféricas que se encaixam de forma homogênea. É como se o produtor austríaco tratasse cada elemento como parte um imenso (e sombrio) mosaico de ideias. Síntese dessa estrutura variável se reflete com naturalidade na faixa-título da obra. Pouco mais de 12 minutos em que o ouvinte é convidado a explorar um labirinto de experiências sensoriais.

Entre inserções de vozes assumidas pela esposa do produtor, Katharina Caecilia, além, claro, de captações de campo assinadas pelo músico Manfred Neuwirth, Agora é o típico caso de uma obra que parece maior e mais complexa a cada nova audição. Trata-se de um trabalho que mesmo esquivo de possíveis excessos, encanta pela estrutura grandiosa, texturas e camadas instrumentais que servem de complemento ao registro. Um lento desvendar de ideias e experiências que reflete o completo esmero de Fennesz.