"Rainha dos Raios"

Ano: 2014
Selo: Joia Moderna
Gênero: MPB, Pop, Trip-Hop
Para quem gosta de: Letrux, Céu e Gal Costa
Ouça: Como Vês, Homem e Princessa
Nota: 9.0

Crítica | Alice Caymmi: “Rainha dos Raios”

Alice Caymmi já havia dado uma boa mostra do próprio trabalho durante o lançamento do primeiro álbum de estúdio da carreira. Entre criações inéditas, como Água Marinha e Tudo o que for Leve, versões para a obra de outros artistas, como Unravel, de Björk, e Sargaço Mar, do avô Dorival, sobram instantes em que a força criativa da cantora e compositora carioca se destaca. Nada que se compare ao material entregue em Rainha dos Raios (2014). Do momento em que tem início, na força avassaladora de Como Vês (“Como vês o amor vai carregar as coisas na hora que ele chegar / Vai levar tudo que conseguir, chutando as paredes que eu construí“), criação de Bruno Di Lulo e Domenico Lancellotti, passando pela inusitada releitura de Princesa, de MC Marcinho, ou mesmo no clássico Meu Mundo Caiu, música eternizada na voz de Maysa, cada fragmento do disco parece pensado para brincar com a interpretação do público, como se Caymmi jogasse com a desconstrução da própria identidade.

Parte desse direcionamento versátil vem da escolha da artista em trabalhar ao lado de Diogo Strausz na produção do disco. Longe da essência litorânea detalhada no homônimo debute, além, claro, do alicerce conceitual herdado da própria família, a artista carioca joga com as possibilidades, riqueza que se reflete até o último instante do disco, em Jasper. São fragmentos instrumentais e poéticos que ganham ainda mais destaque no pancadão urbano e doce erotismo de Homem, bem-sucedida interpretação da obra de Caetano Veloso, ou mesmo na base labiríntica de Iansã, de onde vem a inspiração para o título e temática turbulenta da obra – “Senhora das nuvens de chumbo / Senhora do mundo / Dentro de mim / Rainha dos raios“. Vozes tratadas como instrumentos, inserções eletrônicas e fórmulas pouco usuais que se entrelaçam sem ordem aparente, fazendo de cada nova audição o convite a se perder em uma obra completamente distinta.



Este texto faz parte da nossa lista com Os 100 Melhores Discos Brasileiros dos Anos 2010 que será publicada ao longo das próximas semanas. São revisões mais curtas ou críticas reescritas de alguns dos trabalhos apresentados ao público na última década. Leia a publicação original.


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