"Alienígena"

Ano: 2019
Selo: Risco
Gênero: Pós-Punk, Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Tatá Aeroplano e Forgotten Boys
Ouça: Edifício Joelma e Trabalho Trabalho Trabalho
Nota: 8.3

Crítica | “Alienígena”, Jonnata Doll e os Garotos Solventes

Não fosse pelo anuncio óbvio de que Alienígena (2019, Risco) foi produzido e gravado nos últimos meses, seria fácil encarar o terceiro álbum de estúdio de Jonnata Doll e os Garotos Solventes como uma obra esquecida dos anos 1980. Da composição dos versos à formação dos arranjos, tudo parece apontar para o passado em uma criativa reciclagem de tendências. São temas, guitarras e vozes que vão do punk brega de veteranos como Os Replicantes à vanguarda paulista, do pós-punk da extinta Fellini a personagens descritivos, típicos da fluminense Picassos Falsos. Letras e melodias que se espalham de maneira incerta, torta, reforçando a essência caótica do trabalho.

Ambientado no centro de São Paulo, conceito reforçado logo nos primeiros minutos da obra, Alienígena, como o próprio título indica, mostra o olhar curioso de Jonnata Doll, um artista cearense, sobre o cotidiano noturno da capital paulista. “É noite de inverno no vale do Anhangabaú / As pessoas cheiram thinner, os nóias procuram no chão / Roberta disse ao Paulo: “Menor vai entregar o oitão” / E eu vi o esqueitista caindo / Se lascar / No rosto dos seus amigos eu vi a morte passar“, canta em Vale do Anhangabaú, música que sintetiza a ambientação urbana do trabalho, detalhando o encontro com personagens mundanos que surgem e desaparecem a todo instante. É como se Doll vivesse seu próprio Ziggy Stardust, sufocando em meio a delírios lisérgicos e momentos de breve contemplação.

Em Edifício Joelma, segunda faixa do disco, a mesma crueza na construção dos versos. “Não guardo mágoas, eu só magoo e ofereço a minha confusão / De bar em par, estrela cadente até o tempo acabar / Tô no inverno de chinela, fui maltratado no inferno da baixa augusta e na Pain / Esperando que tragam na para mim“, cresce a letra da canção enquanto guitarras e melodias sujas fazem lembrar de Ainda É Cedo, Perdidos no Espaço ou qualquer outra composição produzida pela Legião Urbana na segunda metade dos anos 1980. Fragmentos instrumentais e poéticos que parecem dançar pelo tempo, flutuando entre passado e presente.

Não por acaso, Doll e seus parceiros de banda, Edson Van Gogh, Felipe Maia, Léo Breedlove e Loiro Sujo, escolheram Fernando Catatau (Cidadão Instigado) como produtor do disco. Conhecido pela direcionamento nostálgico em obras como UHUUU! (2009) e Fortaleza (2015), o músico cearense auxilia na composição empoeirada da atmosfera que serve de sustento à obra, avançando criativamente em relação ao material entregue no antecessor Crocodilo (2016). Exemplo disso ecoa com naturalidade na crescente Trabalho Trabalho Trabalho, faixa marcada pelos detalhes, sintetizadores enevoados, guitarras e vozes complementares de Ava Rocha e do próprio Catatau. Um exercício, que mesmo estilístico e referencial, preserva a identidade do grupo.

Uma vez imerso nesse cenário, Doll vai de composições entristecidas, como em Derby Azul (“Culpa, nostalgia / Esquecer é soltar / Feliz daquele que não sentou com um anjo na beira de um buraco“) a instantes de breve romantismo, caso de Baby (“Talvez em outra linha de tempo / Nos dois moremos juntos no centro / Enlaçados vendo filmes no quarto / Ouvindo o rom rom rom do seu gato“), jogando com a interpretação do ouvinte. São versos curtos, sempre precisos, estrutura evidente logo na inaugural Matou a Mãe, composição em que utiliza de um personagem fictício para discutir o atual cenário político do Brasil – “Ah ele quer se sentir à vontade para fazer piada de preto e gay … Ah ele quer comprar um revólver para atirar num pobre no sinal“.

Completo pela presença de Clemente (Inocentes), Clayton Martin, Guizado e Murilo Sá, Alienígena brinca com a estranheza das formas instrumentais e vozes de forma a capturar a atenção do público. São ruídos, maquinações caseiras e interferências pontuais que servem de alicerce para a composição dos versos, sempre descritivos e detalhistas, como se crônicas policiais e fragmentos do cotidiano esbarrassem em histórias em quadrinhos e elementos da cultura pop. Uma permanente fuga do óbvio, estrutura que naturalmente orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra.



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