"Renaissance"

Ano: 2020
Selo: Mad Decent
Gênero: Pop, R&B, Dance
Para quem gosta de: Disclosure, Dua Lipa e NAO
Ouça: Body Pump, Get Paid e The Recipe
Nota: 7.0

Crítica | Aluna: “Renaissance”

Os últimos meses foram marcados por pequenas transformações na vida de Aluna Francis. Passado o nascimento da primeira filha, Amaya, a cantora e compositora britânica decidiu investir na própria estreia em carreira solo. Longe do antigo parceiro de composição, George Raid, com quem dividiu os comandos do AlunaGeorge até o lançamento de Champagne Eyes EP (2018), a artista inglesa buscou por novos colaboradores e estabeleceu no uso de ritmos periféricos a base para uma identidade parcialmente renovada. O resultado desse processo está na entrega de Renaissance (2020, Mad Decent), obra em que parece testar os próprios limites e possibilidades dentro de estúdio.

Não por acaso, Francis fez de Body Pump uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público. Do tratamento dado aos vocais, claramente inspirados pela produção eletrônica dos anos 1990, à formação das batidas, sempre pulsantes, tudo gira em torno do desejo da artista em transitar por entre gêneros de forma tão particular quanto referencial, apontando para o passado. Entretanto, para além do mero direcionamento estético, como um nova embalagem conceitual, parte expressiva da obra vem do desejo da cantora em explorar a própria identidade racial.

Olhei para a história da música e vi como, por exemplo, a [cena] House de Chicago, conhecida como a invenção da house music, foi pioneira nas comunidades LGTBQI+ de negros e latinos, o que me inspirou a colocar minha bandeira no chão como uma mulher negra, assumindo o controle da produção e composição com minha própria vibração“, escreveu no texto de apresentação da faixa. O mesmo tratamento acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra. São músicas como Surrender e Ain’t My Business em que vai do reggae ao techno em uma criativa colagem de tendências, estrutura que evoca o debute de AlunaGeorge, o excelente Body Music (2013), porém, de forma conceitualmente desafiadora.

Perfeita representação desse resultado acontece em Get Paid, sexta faixa do disco. Completa pela presença de Princes Nokia e Jada Kingdom, a canção cresce em um misto de reggae, grime e pop, indicativo da completa versatilidade da artista dentro de estúdio. São incontáveis camadas instrumentais, batidas e vozes, como uma síntese clara de tudo aquilo que Francis busca explorar ao longo do álbum. A própria colaboração com Kaytranada, em The Recipe, reflete o desejo da artista em avançar criativamente, preservando o aspecto acessível de I Remember (2016), segundo álbum do AlunaGeorge, porém, de forma nada previsível, proposta que ganha ainda mais destaque na participação do rapper nigeriano Rema.

O problema acontece justamente quando Francis se distancia desse universo. São faixas como Sneak e Ain’t My Business em que a cantora rompe com qualquer traço autoral para mergulhar em um som puramente formatado, dialogando de forma pouco inventiva com outros representantes do pop europeu. Mesmo a pegajosa Warrior, parceria com o requisitado SG Lewis (Dua Lipa, Robyn), pouco avança quando próxima de outras músicas ao longo disco. Canções que apontam diretamente para as pistas, como possíveis sobras de estúdio abandonadas por nomes como MØ e Dua Lipa.

Dessa forma, a artista garante ao público uma obra que preserva o que há de mais comercial nos últimos registros do AlunaGeorge, mas que utiliza da criativa combinação de ideias e busca por novas possibilidades um necessário ponto renovação. De fato, desde a estreia, com Body Music, que a cantora e compositora inglesa revelava ao público um registro tão interessante e musicalmente desafiador. Mesmo quando tropeça em meio a faixas exageradamente plásticas, em nenhum momento Francis perde o controle do próprio trabalho, minúcia que se reflete até os últimos segundos da derradeira Whistle.