"Little Electric Chicken Heart"

Ano: 2019
Selo: Risco
Gênero: Indie Rock, Pop Rock
Para quem gosta de: O Terno e Sara Não Tem Nome
Ouça: Tem Certeza? e Devia Ter Ficado Menos
Nota: 8.5

Crítica | Ana Frango Elétrico: “Little Electric Chicken Heart”

Palavra e melodia, sentimento e desconstrução. Em Little Electric Chicken Heart (2019, Risco), segundo e mais recente álbum de estúdio de Ana Frango Elétrico, você pode esperar de tudo, menos pelo óbvio. Entregue ao público poucos meses após o lançamento do também curioso Mormaço Queima (2018), obra em que se permite brincar com a fragmentação dos arranjos e vozes, Ana Fainguelernt, verdadeiro nome da artista responsável pelo projeto, utiliza do presente álbum como uma colorida extensão do disco anterior. São camadas de guitarras, metais e referências sobrepostas de forma propositadamente inexata, torta, indicando o caminho percorrido pela musicista carioca até o último instante da obra.

Síntese desse criativo processo de transformação se faz evidente logo nos primeiros minutos do disco, em Saudades. São pouco menos de quatro minutos em que Fainguelernt parte de uma base contida e atmosférica, como uma bossa tropical, para um cenário consumido pela incerteza dos elementos. Um ziguezaguear estético que passa pela obra de Jorge Ben Jor, perverte o pop empoeirado dos anos 1960 e chega até o presente cenário em uma estrutura própria da artista carioca, sempre sonora, feita para grudar na cabeça do ouvinte logo em uma primeira audição.

Como indicado durante o lançamento de Mormaço Queima, Ana Frango Elétrico parece menos interessada em dar sentido aos versos e mais em como trabalhar as palavras em um complemento rítmico e melódico ao restante da obra. São fragmentos de vozes, poemas e retalhos conceituais que beiram o nonsense, proposta evidente em músicas como Chocolate e Promessas e Previsões. De fato, do momento em que tem início, em Saudades, até alcançar a derradeira Caspa, tudo se projeta como um convite a se perder pela mente de Fainguelernt. Um colorido catálogo de ideias que muda de direção a todo instante, proposta que faz de Little Electric Chicken Heart um álbum diferente a cada nova audição.

O mais interessante talvez seja perceber a forma como Fainguelernt dilui tamanha quantidade de informação mesmo em um curto intervalo de tempo. São composições rápidas, dois ou três minutos, em que a cantora vai do experimentalismo de Yoko Ono ao pop delirante de Rita Lee em uma linguagem deliciosamente particular. Canções que partem de questionamentos simples, como na divertida Se No Cinema (“Ah se no cinema / Se sentisse a temperatura do amor / Do casal, da tela, do sexo dela, do cheio/ da cor“), ao refinamento político dos versos, base para a sóbria Torturadores (“Pesquisando o nome e o endereço de torturadores / Só pra contar pros netos e porteiros / Que têm todo o direito de saber”).

Interessante notar que mesmo imersa nesse turbulento cenário criativo, Ana Frango Elétrico garante ao público uma série de composições menos herméticas, capazes de capturar a atenção do público logo em uma primeira audição. É o caso de Tem Certeza?, quarta faixa do disco. “Você não quer? / Tem quem queira / Nem um beijinho? / Tem certeza?“, questiona enquanto guitarras distorcidas e metais cobrem toda a superfície da canção. Em Devia Ter Ficado Menos, próxima ao fim do disco, versos existencialistas que discutem a passagem do tempo de forma simples, porém, sempre honesta e tocante. “Devia ter ficado menos / Menos na cama / Menos tempo no chuveiro“, reflete.

Maior e mais complexo a cada nova audição, Little Electric Chicken Heart parte de uma estrutura convencional para mergulhar o ouvinte em um território marcado pela ruptura. Da composição dos arranjos ao uso das vozes, tudo se projeta de forma caótica e mágica. Um esforço criativo que parte de inquietações e vivências acumuladas pela própria artista desde o último ano, mas que se completa pela interferência direta de um time seleto de instrumentistas — como Guilherme Lírio (guitarra), Marcelo Callado (bateria), Vovô Bebê (baixo), Antônio Neves (trombone), Eduardo Santana (tropmpete) e Marcelo Cebukin (saxofone). Canções trabalhadas em um misto de fuga e fina continuação do material entregue em Mormaço Queima.