"Anak Ko"

Ano: 2019
Selo: Polyvinyl / Lucky Number
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Japanese Breakfast e Hatchie
Ouça: Tenderness e Superbike
Nota: 8.0

Crítica | “Anak Ko”, Jay Som

Se em Everybody Works (2017) Melina Duterte decidiu investir em um som que parecia dialogar com o rock alternativo produzido no início dos anos 1990, em Anak Ko (2019, Polyvinyl / Lucky Number) a cantora e compositora norte-americana vai além. Terceiro e mais recente álbum de estúdio da multi-instrumentista como Jay Som, o trabalho segue a trilha nostálgica que vem sendo aprimorada pela artista de Los Angeles desde a estreia com Turn Into (2015). A diferença está na forma como a Duterte se permite provar de novas possibilidades, apontando para diferentes décadas, ritmos e conceitos específicos.

Perfeita representação desse direcionamento versátil adotado pela artista ecoa com naturalidade no encontro entre Tenderness e a própria faixa-título do disco. Se em minutos Duterte parece mergulhar no pop rock empoeirado dos anos 1980, emulando o que parece ser a trilha sonora de um antigo seriado de TV, com a faixa seguinte, a guitarrista revela a busca por um som puramente torto e delirante. São camadas instrumentais que se revelam ao público em pequenas doses, como uma tentativa da cantora em explorar as cores e a psicodelia da década de 1970.

Assumidamente inspirada pelas harmonias de vozes e melodias detalhadas por veteranos dos anos 1960, outro elemento de destaque para o trabalho, Duterte faz dessa relação com o passado o estímulo para músicas como Nighttime Drive. “Estou afundando em minha cama / Vamos sair da cidade amanhã / É tudo para as minhas memórias / Tão acostumado a me sentir entorpecida“, canta enquanto antecipa uma sequência de versos descritivos e intimistas, inspirados na permanente vida da artista pela estrada. Uma seleção de versos aprazíveis que se completam pela inserção de arranjos de cordas e outros componentes antes inéditos na obra da Jay Som.

Mesmo apontando para diferentes campos da música, interessante perceber a forma como Duterte resgata e adapta uma série de elementos originalmente testados no disco anterior. Exemplo disso está em Superbike, faixa que vai de Cocteau Twins a My Bloody Valentine em uma montagem quase ensolarada, como uma interpretação particular do som consolidado em 1 Billion Dogs, Remain e demais faixas de Everybody Works. São camadas de guitarras e ruídos que se completam pela poesia sentimental da cantora, sempre ancorada em memórias e desilusões recentes. “Disse que você queria outra coisa / Algo novo para mostrar e contar / Vou respirar até você partir“, canta.

De fato, a todo momento Duterte parece estabelecer um novo diálogo com o material entregue nos dois primeiros álbuns de estúdio. É como se a cantora preservasse a essência ruidosa de Everybody Works e Turn Into, porém, costurando incontáveis camadas instrumentais, estrutura que se reflete na composição de músicas como a detalhista Crown ou mesmo a inaugural If You Want it, faixa que mostra a capacidade da cantora em brincar com os instrumentos, mudando de direção a cada fragmento da canção. Mesmo faixas como a contida Get Well, com suas guitarras slide e atmosfera sertaneja, parecem adaptar os instantes de maior recolhimento de Jay Som, vide músicas como Unlimited Touch.

Entregue ao público em um ano de grandes lançamentos para a cena alternativa dos Estados Unidos, vide a estreia de SASAMI, o novo álbum do Mannequin Pussy e a volta do Sleater-Kinney, Anak Ko reflete o cuidado de Melina Duterte na composição de cada elemento do trabalho. E não poderia ser diferente. Como indicado no próprio título da obra – em idioma filipino, “meu filho” –, o registro convida o ouvinte a se perder em um universo marcado pela forte sensibilidade dos temas, como um olhar curioso sobre a vida sentimental, desilusões e conflitos particulares que embalam o cotidiano da própria artista.



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