"Contracorrente"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Indie, Rock Nacional, Pop Rock
Para quem gosta de: Maglore, Nevilton e Terno Rei
Ouça: Babaca, Desgarrar e Só Tive Vontade de Escrever
Nota: 8.6

Crítica | Andrio Maquenzi: “Contracorrente”

Eu também já fui um babaca completo / Hoje eu acredito ser um pouco menos“. A autorreflexão proposta por Andrio Maquenzi logo nos primeiros minutos de Babaca, terceira faixa de Contracorrente (2020, Independente), funciona como um indicativo claro de tudo aquilo que o cantor e compositor gaúcho busca desenvolver no do primeiro álbum em carreira solo. São versos em que discute a passagem do tempo, a necessidade de seguir em frente e o amadurecimento imposto pela chegada da vida adulta. Canções que preservam a habitual leveza e jovialidade típica dos primeiros registros do músico, ex-integrante da Superguidis, mas que ganham novo direcionamento lírico e estético dentro do presente disco.

Sem pressa, como uma propositada fuga da crueza explícita em clássicos como Malevolosidade, O Raio Que o Parta e Não Fosse o Bom Humor, Maquenzi investe em um material de essência reducionista, porém, imenso em seu significado. São delicadas paisagens instrumentais, ambientações acústicas e melodias que surgem e desaparecem de forma discreta durante toda a execução da obra, conceito que muito se assemelha à transição de J Mascis, guitarrista e líder do Dinosaur Jr., durante a produção do primeiro álbum em carreira solo, o também sensível Several Shades of Why (2011).

Exemplo disso está na própria faixa de abertura do disco, Pedal no Vento. Entre captações de campo que mostram um passeio de bicicleta do músico gaúcho, a mesma estampada na imagem de capa fotografada por Leo Caobelli, arranjos sutis e a percussão econômica se revelam ao público em uma medida própria de tempo, sem pressa. Composições que atravessam os habituais blocos de ruídos que sempre definiram a obra de Maquenzi, vide o paralelo Medialunas, para mergulhar em um universo de emanações acolhedoras. Dos sintetizadores que invadem a delicada faixa-título aos sopros de Abobadização, cada elemento do álbum parece pensado para cercar e confortar o ouvinte.



Entretanto, para além da busca por novas possibilidades, sobrevive na poesia de Maquenzi a real beleza da obra. Instantes em que o músico gaúcho se divide entre conflitos intimistas e questões políticas. Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade em Curto Tempo, quarta faixa do disco. “Quando tudo acabar / Quando não mais restar / Mais fóssil pra queimar / É questão de tempo, curto tempo“, canta em uma delicada reflexão que vai da temática ambiental ao fim da existência humana. O mesmo cuidado pode ser percebido na já citada Babaca, faixa que parte de experiências pessoais para dialogar com elementos típicos do cotidiano, e Abobadizção, uma curiosa análise sobre a cultura do cancelamento e o comportamento dos indivíduos nas redes sociais.

Nada que prejudique o surgimento de músicas puramente contemplativas. É o caso de Desgarrar, faixa que nasce como um refúgio em momentos de caos. “É preciso desgarrar / Abre os braços pra voar / Respire fundo / Sem bombinha“, canta em tom acolhedor. A mesma leveza acaba se refletindo mais à frente, em Só Tive Vontade de Escrever, faixa que resgata a essência melódicas e versos cantaroláveis que apresentaram a Superguidis no início dos anos 2000. “Rimas pobres / Mas o coração está cheio / Só tive vontade de escrever“, confessa. A própria canção de encerramento do disco, Vai Ficar Tudo Certo, parece reforçar o mesmo sentimento de paz. “Vai ficar tudo certo / Vai ficar tudo certo“, repete, como um mantra.

Curto, porém, eficaz, Contracorrente é o típico caso de um trabalho que exige ser revisitado. São canções que ocultam um universo de pequenos detalhes, melodias e vozes reducionistas, como se feitas para serem desvendadas pelo ouvinte. Completo pela presença dos músicos Brenno di Napoli (baixo, upright), Lucas Protti (clarinete, flauta transversal, sax tenor) e Fu_k the Zeitgeist (bateria, percussão), esse último, co-produtor do disco ao lado cantor, o registro nasce como um produto das experiências e memórias acumuladas por Maquenzi nos últimos anos. Composições que trazem a cidade como um importante pano de fundo conceitual, mas que estabelecem nas inquietações e vivências do próprio autor um importante componente criativo.