"The Neon Skyline"

Ano: 2020
Selo: ANTI-
Gênero: Indie Folk, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Whitney e Foxwarren
Ouça: Living Room e The Moon
Nota: 7.3

Crítica | Andy Shauf: “The Neon Skyline”

Desde o início da carreira, há mais de uma década, Andy Shauf tem seguido uma trilha estruturalmente bem definida. Entre letras descritivas, desilusões amorosas e poemas embriagados, o cantor e compositor original de Regina, no Canadá, fez dessa essência melancólica o estímulo para cada novo registro de inéditas. Trabalhos como o introdutório Darker Days (2009), The Bearer of Bad News (2012) e, principalmente, The Party (2016), obra em que parte de uma base conceitual como estímulo para a formação dos versos, proposta evidente em algumas das principais faixas do disco, como Quite Like You e The Magician, todas ambientadas dentro de uma mesma festa.

Quatro anos após a entrega do bem-sucedido registro, interessante perceber nas canções do recém-lançado The Neon Skyline (2020, ANTI-), novo álbum de estúdio do músico canadense, uma estrutura bastante similar. De essência conceitual, assim como o registro que o antecede, o trabalho se desenvolve ao longo de uma noite no bar que dá nome ao disco. Canções marcadas pela força dos sentimentos e inquietações do protagonista após a descoberta de que sua ex-namorada, Judy, está de volta à cidade.

Com base nessa estrutura, Shauf investe na composição de um material marcado pelo forte lirismo narrativo, conceito que se reflete tão logo o trabalho tem início, na autointitulada faixa da abertura, e segue até a derradeira Changer. São diálogos, cenas e ponderações internalizadas que servem de sustento ao disco. Exemplo disso está em Where Are You Judy, canção que parte de um diálogo despretensioso — “Você sabia que Judy está de volta à cidade?“, “Há quanto tempo ela está aqui? Eu não a vi por aí” —, para mergulhar na mente do protagonista sem nome — “Se você estivesse no meu ouvido esquerdo, falando tão doce novamente / Eu te perguntaria / Onde está você, Judy?“.

É justamente esse uso de reflexões intimistas e elementos alheios à narrativa poética de Shauf que tornam a experiência de ouvir o álbum atrativa. Para além de garantir a produção de uma obra que exige ser apreciada do primeiro ao último verso, o músico canadense utiliza de inserções sentimentais e memórias compartilhadas como um elemento de imediato diálogo com o público. Dessa forma, o protagonista apresentado ao longo da obra deixa de ser interpretado como um personagem para se transformar em uma materialização sonora do próprio ouvinte.

Se por um lado The Neon Skyline reflete o esmero de Shauf na composição dos versos, musicalmente o trabalho pouco avança em relação ao antecessor The Party. São melodias empoeiradas que ora apontam para a obra de veteranos dos anos 1970, como Neil Young e Harry Nilsson, ora fazem lembrar do Wilco em sua fase mais recente. Salve o uso destacado do clarinete e pianos complementares, parte expressiva do trabalho utiliza de uma mesma base instrumental, estrutura que torna a experiência do ouvinte arrastada, principalmente na segunda metade do disco, quando a trama do disco perde seu ineditismo.

Com produção dividida entre Philip Shaw Bova (Devendra Banhart) e o veterano Rob Schnapf (Elliott Smith, Kurt Vile), The Neon Skyline segue em um misto de conforto e sutil desejo de transformação, estrutura também evidente no último trabalho de estúdio do Whitney, Forever Turned Around (2019), obra que partilha dos mesmos erros e acertos do presente disco. São canções que preservam a identidade criativa de Shauf, como uma extensão natural do álbum anterior, porém, incapazes de dialogar com uma parcela maior do público, indicativo de um registro que parece exigir uma experiência prévia do som produzido pelo músico canadense.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.