"It Should Be Us"

Ano: 2019
Selo: Modern Love
Gênero: Eletrônica, Techno, Experimental
Para quem gosta de: Actress e Nicolas Jaar
Ouça: It Should Be Us e Collapse
Nota: 7.8

Crítica | Andy Stott: “It Should Be Us”

Definir o som produzido por Andy Stott está longe de parecer uma tarefa simples. Se em início de carreira o produtor de Manchester parecia investir em elementos de techno dub, vide o material apresentado em We Stay Together (2011) e Passed Me By (2011), com a chegada de Luxury Problems (2012), a busca por temas atmosféricos transportou o ouvinte para um novo território criativo. Um ziguezaguear de ideias e experiências melódicas que ganha tratamento reformulado no experimentalismo de Faith in Strangers (2014) e até contornos acessíveis, como em Too Many Voices (2016), indicativo da completa versatilidade do artista inglês em estúdio.

Em It Should Be Us (2019, Modern Love), mais recente trabalho de Stott, um criativo resgate conceitual passeia por diferentes fases na carreira do produtor britânico. São nove faixas e pouco menos de 50 minutos de duração em que o artista preserva a essência dos antigos registros, porém, de forma sempre provocativa, colidindo diferentes fórmulas instrumentais. Canções que atravessam as pistas de dança, como em Take, para provar de uma sonoridade puramente experimental, base de faixas como as instáveis Ballroom e Versi.

Não por acaso, Stott escolheu justamente a versátil Dismantle como faixa de abertura do disco. Se nos minutos iniciais a composição parece seguir a trilha atmosférica detalhada em Luxury Problems, mais à frente, o registro se espalha em um território puramente experimental. São fragmentos eletrônicos, ruídos e ambientações densas, conceito anteriormente testado durante o lançamento de Faith in Strangers. É como se o produtor britânico resumisse parte das experiências que serão detalhadas no decorrer da obra, mudando de direção sem ordem aparente.

Com base nessa estrutura, Stott vai de composições claustrofóbicas, como Collapse, à entrega de músicas parcialmente acessíveis. É o caso da própria faixa-título do disco. Claramente inspirada pela produção eletrônica dos anos 1990, a canção parece apontar para o mesmo ambient techno de nomes como Actress, efeito direto do uso ruidoso dos sintetizadores e abstrações pontuais que cercam o ouvinte. O mesmo direcionamento acaba se refletindo em OL9, canção maraca pelo uso minucioso das vozes e batidas destacadas, como um convite a se perder nas pistas de dança.

Interessante notar que mesmo quando aporta em um conceito específico, Stott em nenhum momento tende ao óbvio. É como se diferentes composições habitassem dentro de cada faixa, tornando a experiência de ouvinte sempre imprevisível. Exemplo disso está em Not This Time, canção que parte de uma base minimalista para mergulhar em uma soma de ruídos e ambientações metálicas, como um parcial regresso aos primeiros registros produzidos pelo artista. Melodias, batidas e vozes abafadas que se entrelaçam de forma instável, estrutura que orienta a composição do álbum até a derradeira Versi.

Marcado pelos detalhes, como tudo aquilo que Stott tem produzido desde o início da carreira, It Should Be Us perverte uma série de elementos em prol de uma sonoridade própria do artista britânico. São camadas sobrepostas, batidas trabalhadas de forma irregular e incontáveis rupturas estéticas, estrutura que naturalmente aponta para a obra de conterrâneos como Burial e demais personagens de destaque da cena inglesa. Um misto de resgate e criativa desconstrução do material entregue entregue pelo próprio produtor nos últimos anos.



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