"All Mirrors"

Ano: 2019
Selo: Jagjaguwar
Gênero: Rock, Art Pop, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Sharon Van Etten e Weyes Blood
Ouça: Lark, Impasse e All Mirrors
Nota: 9.0

Crítica | Angel Olsen: “All Mirrors”

Seja no minimalismo de Half Way Home (2012), na transformação explícita em Burn Your Fire for No Witness (2014), ou na poesia confessional de My Woman (2016), Angel Olsen sempre tratou das próprias desilusões e conflitos sentimentais como um estímulo para a composição dos versos. Um exercício de profunda entrega emocional, lamento e dor, estrutura que não apenas alcança sua melhor forma nas canções de All Mirrors (2019, Jagjaguwar), como revela ao público a imagem de uma artista completa, em pleno domínio da própria obra. Da identidade estética à composição dos arranjos, marcados pelo direcionamento orquestral, passando pela dor lancinante que cresce no decorrer da obra, tudo se projeta como um exercício do pleno amadurecimento artístico da cantora.

E qual a melhor forma de traduzir tamanha transformação se não na força descomunal da introdutória Lark? Concebida em uma estrutura crescente, a faixa de abertura do disco se espalha em um intervalo de mais de seis minutos de duração, tempo suficiente para que Olsen revele ao público incontáveis orquestrações assinadas em parceria com o compositor Ben Babbitt, além, claro, de apontar a direção sentimental seguida até a derradeira Chance. “Esquecer você é esconder / Ainda há muito a recuperar / Se pudéssemos começar de novo / Fingindo que não nos conhecemos“, canta enquanto reflete sobre memórias de um passado ainda recente, sufocando o ouvinte lentamente.

Em What It Is, sexta canção do disco, um direcionamento melancólico bastante similar, porém, marcado pelo parcial cinismo dos versos. “É fácil quando você está apaixonada / É fácil quando você conhece o caminho / É fácil quando você ama algo / É fácil se você souber exatamente como … Nunca é fácil admitir / Que talvez você só queira / Sentir algo de novo“, reflete. A mesma força criativa e sensibilidade na composição dos versos acaba se refletindo em outros momentos no decorrer da obra. Instantes em que Olsen canta sobre as próprias feridas, como em Summer (“Perdi minha alma, era apenas uma concha / Não havia mais nada que eu pudesse perder“), e a constante sensação de abandono, como em Impasse (“Eu estou apenas vivendo na minha cabeça / Eu só estou trabalhando pelo nome / Eu nunca perdi ninguém“), arrastando o ouvinte cada vez mais para dentro do núcleo triste da obra.

Entretanto, para além de um registro puramente confessional, consumido pela angústia de relacionamentos fracassados, interessante perceber a forma como Olsen utiliza desse lirismo doloroso como um estímulo para aportar em outros temas. É o caso da própria faixa-título do disco, canção em que discute a passagem do tempo, o próprio desgaste emocional e as diferentes mulheres que habitam em seu interior, como uma extensão do material entregue no antecessor My Woman. “Eu tenho assistido ao meu passado se repetir / Não há fim … Em pé, vendo todos os espelhos se apagar / Perdendo a beleza / Pelo menos antes me reconhecia“, canta, extraindo conflitos internos.

Parte dessa força criativa e dramaticidade impressa logo na imagem de capa do disco, vem do refinamento melódico que rege o trabalho. São delicadas paisagens instrumentais, arranjos de cordas e orquestrações conduzidas por Jherek Bischoff, como se tudo fosse trabalhado de forma a potencializar as experiências sentimentais da artista, conceito evidente em músicas como Lark e Impasse. Claro que isso não interfere na produção de faixas deliciosamente compactas, também movidas pelo mesmo refinamento lírico. São preciosidades como Too Easy, New Love Cassette e a já citada Chance. Canções que vão do pop barroco da década de 1970 ao uso de experimentações eletrônicas, sempre contidas, indicativo da completa versatilidade de Olsen dentro de estúdio.

Co-produzido em colaboração com John Congleton, parceiro de longa data da artista, All Mirrors nasce como o produto final de uma seleção de obras recentes inclinadas a revisitar o passado. Do minimalismo bucólico de Quiet Signs (2019), novo lançamento de Jessica Pratt, à força criativa de Titanic Rising (2019), obra-prima de Weyes Blood, tudo parece reverberar de forma particular dentro do presente álbum de Angel Olsen. Mesmo o uso de referências eletrônicas e sintetizadores complementares, talvez íntimos de Remind Me Tomorrow (2019), quinto disco de Sharon Van Etten, se articulam de um jeito único. Um delicado cruzamento de ideias que costura passado e presente, fazendo dos sentimentos e dor compartilhada pela artista um precioso elemento de conexão.