"Whole New Mess"

Ano: 2020
Selo: Jagjaguwar
Gênero: Indie, Rock, Folk
Para quem gosta de: Big Thief e Sharon Van Etten
Ouça: Whole New Mess e Waving, Smiling
Nota: 8.0

Crítica | Angel Olsen: “Whole New Mess”

Quando surgiu com Half Way Home (2012), no início da década passada, foi o reducionismo dos arranjos e letras sempre detalhistas que chamaram a atenção para o trabalho de Angel Olsen. Ainda que a poesia confessional da cantora e compositora de St. Louis, Missouri, tenha sido preservada, ao longo dos anos, cada novo registro de inéditas parecia ampliar o universo conceitual da artista, avançando em meio a obras cada vez mais grandiosas, fortes, como o maduro Burn Your Fire for No Witness (2014), My Woman (2016) e All Mirrors (2019), esse último, apogeu criativo de Olsen e casa de músicas como Lark, New Love Cassette e a própria faixa-título.

Satisfatório perceber nas canções de Whole New Mess (2020, Jagjaguwar), quinto e mais recente trabalho de estúdio da cantora, um parcial regresso ao mesmo território criativo desbravado em Half Way Home. Misto de coletânea de inéditas e releitura do material apresentado em All Mirrors, o registro produzido e gravado em uma igreja transformada em estúdio, na região de Anacortes, Washington, mostra a capacidade da artista em brincar com a própria identidade. Instantes em que Olsen costura passado e presente de forma tão referencial quanto marcada pelo ineditismo.

Com base nessa estrutura, a artista naturalmente divide o trabalho em dois blocos distintos. No menor deles, dedicado à apresentação de novas canções, o primoroso exercício de Olsen em, mais uma vez, se revelar por completo a cada novo fragmento poético, conceito evidente na introdutória faixa-título. “Quando tudo escurecer, estarei de volta aos trilhos / De volta à minha própria cabeça, limpa, até chegar a hora / Faça uma nova bagunça novamente“, clama em meio a movimentos contidos da guitarra, sempre precisos. Instantes de doce melancolia, proposta que volta a se repetir minutos à frente, na também inédita Waving, Smiling.

Entretanto, é na porção seguinte, dedicada à reinterpretação de músicas já conhecidas, que o álbum realmente cresce. Se por um lado faixas como a colossal Lark perde parte de sua força, por outro, composições antes inofensivas, como Tonight (Without You), ganham novo significado. Enquanto o registro inicial da canção parecia mergulhado em incontáveis orquestrações e sintetizadores etéreos, com a presente versão, cada verso disparado por Olsen parece tocar o ouvinte. “Eu gosto do ar que respiro / Eu gosto dos pensamentos que penso / Eu gosto da vida que vivo / Sem você“, canta. São versos sempre intimistas, potencializados pelo minimalismo dos arranjos a captações caseiras.

O mesmo resultado acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra. Canções como (New Love) Cassette, What It Is (What It Is) e (Summer Song), que parecem ampliar a forte carga emocional presente em cada verso. Mesmo (We Are All Mirrors), originalmente adornada pelo uso de ambientações densas e melodias eletrônicas, encontra na crueza dos arranjos e vozes empoeiradas da cantora um precioso ponto de renovação. Os mesmos velhos sentimentos, dores e inquietações narradas por Olsen, porém, sob uma nova ótica e enquadramento completamente distinto.

Originalmente gravado em outubro de 2018, antes mesmo do lançamento de All Mirrors, Whole New Mess surge com um trabalho que dialoga de forma muito mais expressiva com o presente cenário do que o registro que o antecede. É como se Olsen antecipasse a sensação de isolamento e angústia vivida nos últimos meses, fazendo do álbum uma espécie de trilha involuntária para o período em que vivemos. Um misto de dor e libertação, medo e entrega, estrutura que naturalmente parte dos conflitos vividos pela própria cantora, mas que a todo momento se conecta ao ouvinte, proposta que tem sido incorporada e aprimorado desde a estreia com Half Way Home.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.