"Angel's Pulse"

Ano: 2019
Selo: Domino
Gênero: R&B, Neo-Soul, Hip-Hop
Para quem gosta de: Solange, Toro Y Moi e Tinashe
Ouça: Benzo e Dark & Handsome
Nota: 7.8

Crítica | “Angel’s Pulse”, Blood Orange

Quem há tempos acompanha o trabalho de Dev Hynes no Blood Orange sabe que os registros entregues pelo cantor e compositor britânico são precedidos ou mesmo completos pelo lançamento de uma série de músicas adicionais. Exemplo disso está na produção de faixas como 05/11/2015, Do You See My Skin Through The Flames? e, principalmente, Sandra’s Smile, composição que viria a orientar parte do material apresentado meses mais tarde, em Freetown Sound (2016), álbum marcado pela criativa colagem de referências, fragmentos de vozes e melodias cíclicas que haviam sido previamente testadas pelo artista.

Em Angel’s Pulse (2019, Domino), Hynes parece ir além. Concebido em um curtíssimo intervalo de tempo, o trabalho funciona como um complemento direto ao repertório entregue há poucos meses, no elogiado Negro Swan (2018), quarto álbum de estúdio do Blood Orange. “Eu tenho o hábito de produzir um disco que acabo dando para amigos, gravações em fita para as pessoas na rua ou ninguém. Normalmente, esse material é feito após o álbum que acabei de lançar. Como um epílogo das coisas que fiz antes. Desta vez, eu decidi liberar“, escreveu no texto de apresentação do registro.

Do uso atmosférico dos arranjos, batidas e vozes, passando pela lenta inserção de captações caseiras, ruídos e o habitual som de sirene, tudo se projeta como uma delicada extensão do universo urbano detalhado pelo artista há poucos meses. São canções que discutem masculinidade negra, relacionamentos fracassados e a constante sensação de deslocamento do eu lírico, estrutura que vem sendo aprimorada pelo artista desde o amadurecer criativo em Cupid Deluxe (2013), obra que revelou ao público músicas como You’re Not Good Enough e Chamakay.

A principal diferença em relação ao trabalho entregue há poucos meses está na forma Hynes resolve parte expressiva das canções em um diminuto intervalo de tempo. São faixas curtas, como Something To Do, Birmingham, Today e I Wanna C U em que o músico britânico parte de abstrações melódicas para mergulhar em uma estrutura típica do R&B tradicional. São retalhos instrumentais e poéticos, proposta que naturalmente aponta para o trabalho de Solange, em When I Get Home (2018), e, principalmente, Tierra Whack, no ainda recente Whack World (2018).

Perfeita representação desse conceito inexato ecoa com naturalidade na sequência formada por Benzo e Birmingham. São pouco mais de quatro minutos em que Hynes parte de uma ambientação jazzística para um R&B torto de forma deliciosamente quebrada. Em Happiness, próxima ao encerramento do disco, captações de campo e conversas paralelas que se completam pelo refinamento melódico de sintetizadores e vozes tratadas como instrumentos. Surgem ainda faixas como Baby Florence (Figure), canção de essência experimental, mas que acaba revelando algumas das principais referências criativas do artista, vide a forte similaridade com a obra de Prince nos anos 1980.

Interessante notar que mesmo nesse curto intervalo de tempo, Hynes estabelece uma série de diálogos criativos com representantes vindos de diferentes campos da música. São nomes como Toro Y Moi, na sensível Dark & Handsome, uma das principais canções do disco; Tinashe, em Tuesday Feeling (Choose to Stay); Arca, no experimentalismo de Take It Back; a voz doce de Kelseu Lu, em Birmingham, e a colaboração em conjunto de Ian Isiah e Porches, em Berlin. Um colorido cardápio de ideias que não apenas preserva tudo aquilo que o Blood Orange havia experimentado durante o lançamento de Negro Swan, como reflete a capacidade do artista em revelar um material tão complexo mesmo em um curto intervalo de tempo.