"FIBS"

Ano: 2019
Selo: Moshi Moshi
Gênero: Experimental, Electrônica
Para quem gosta de: Battles e Holly Herndon
Ouça: Paramour e Sawbones
Nota: 7.8

Crítica | Anna Meredith: “FIBS”

Os últimos anos foram bastante movimentados para quem acompanha a obra de Anna Meredith. Passado o lançamento de Varmints (2016), álbum que revelou ao público preciosidades como Nautilus e Something Helpful, a multi-instrumentista inglesa decidiu investir na produção de uma série de registros conceitualmente distintos. Da releitura de As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi, em ANNO (2018), passando pela trilha sonora do filme Eighth Grade (2018) e do seriado Living With Yourself (2019), sobram trabalhos que refletem a completa versatilidade da artista dentro de estúdio.

Sem tempo para descanso, Meredith está de volta com o segundo e mais novo álbum de estúdio da carreira, FIBS (2019, Moshi Moshi). Misto de sequência e criativa desconstrução do material entregue há três anos, o trabalho inaugurado pela crescente Sawbones mostra o esforço da artista inglesa em transitar por entre gêneros de forma sempre provocativa. Canções que utilizam de elemento da música de vanguarda, porém, de forma sempre acessível, estrutura que ganha ainda mais destaque no inusitado uso das guitarras e rica base eletrônica que serve de sustento ao disco.

Não por acaso, a musicista inglesa fez de Paramour a primeira composição do disco a ser apresentada ao público. Marcada pela métrica inexata dos arranjos, a canção parte de uma trama futurística para dialogar com elementos da música erudita detalhados em ANNO. São pouco menos de cinco minutos em que Meredith e seus parceiros de estúdio brincam com a utilização de sintetizadores, guitarras ocasionais, batidas e metais, tornando a experiência do ouvinte sempre incerta. Um criativo catálogo de ideias que sutilmente amplia tudo aquilo que a artista havia testado em Varmints.

Outro elemento de destaque em FIBS é o uso da voz. Mesmo que Meredith já tenha se aventurado a cantar em músicas como Last Rose, Taken e demais composições apresentadas no disco anterior, sobrevive no presente álbum um refinamento maior em relação ao material entregue há três anos. Exemplo disso está em Inhale Exhale, composição que utiliza da própria voz da musicista inglesa como um complemento à fina base instrumental. O mesmo direcionamento acaba se refletindo em Killjoy, canção em que parece emular arranjos de cordas a partir do uso atmosférico das vozes.

Mesmo dentro desse universo de pequenos acertos, faixas como Bump e Limpet, com suas guitarras ressaltadas, parecem menores em relação ao restante da obra. É como se Meredith investisse na produção de um material exageradamente simples, problema também evidente em parte do repertório apresentado em ANNO. Instantes em que a multi-instrumentista perverte o esmero de faixas como Diving, Moonsmoons e a já citada Paramour, distanciando o ouvinte da experiência grandiosa que parece mover o disco nos momentos iniciais.

Conceitualmente versátil, como tudo aquilo que Anna Meredith tem produzido desde o início da carreira, FIBS chama a atenção pela capacidade da artista britânica em transitar por entre gêneros, porém, de forma essencialmente coesa, como se tudo fizesse parte de um mesmo universo criativo. Do uso atmosférico dos sintetizadores, passando pela inserção das guitarras e vozes complementares que correm por entre as brechas do trabalho, cada nova composição parece servir de base para a faixa seguinte, indicativo do completo esmero da artista durante toda a execução da obra.



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