"Antinomia"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, R&B, Trip-Hop
Para quem gosta de: Arquelano e Fabriccio
Ouça: Deepdown e Panorâmica
Nota: 7.5

Crítica | “Antinomia”, 1LUM3

O minimalismo explícito na imagem de capa de Antinomia (2019, Independente), álbum de estreia de Luiza Soares como 1LUM3, funciona como um indicativo da estrutura que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. São fragmentos de vozes, melodias econômicas e batidas que vão do novo R&B ao experimentalismo eletrônico em uma montagem quase anêmica, deliciosamente contida, proposta que naturalmente reforça a melancolia dissolvida em cada verso derramado pela jovem artista.

Com produção assinada por Liev, parceiro de longa data da cantora, o trabalho de essência soturna segue exatamente de onde Soares parou há poucos meses, durante o lançamento do EP Reflexos & Refluxos (2018). Versos marcados pela força dos sentimentos, instantes de profunda inquietação e conflitos existencialistas, conceito sutilmente detalhado logo nos primeiros minutos do disco, na introdutória (passadopresentefuturo). “Momentos improváveis / Frases inflexíveis / Razões desconfortáveis / Subo degraus de madeira rumo ao caos“, canta enquanto a base ruidosa da canção se revela aos poucos, cercando o ouvinte.

São poemas curtos, cíclicos, porém, sempre expressivos, estrutura que naturalmente reforça a atmosfera sufocante que ganha forma e cresce no decorrer da obra. Exemplo disso ecoa com naturalidade na amarga Burning Eyes. Enquanto camadas de ruídos e batidas densas correm ao fundo da canção, lembrando o trabalho de The Weeknd, em Beauty Behind the Madness (2015), vozes duplicadas refletem a angústia do eu lírico. “Dentro dos seus olhos eu me desespero / Eu procuro exílio em você / Mas / Olho para fora e não vejo o que restou de nós / Essa cortina de fumaça / Me impede de ver o estrago que fez em mim“, desaba.

Se por um lado esse direcionamento restrito contribui para a atmosfera melancólica do disco, por outro, tamanha economia e homogeneidade na composição dos elementos torna a experiência do ouvinte exaustiva. Falta maior distinção entre as faixas, efeito direto da voz arrastada e base instrumental que pouco evolui, dando volta em meio a sintetizadores cinzentos, ruídos e colagens eletrônicas. Sequências, como em A Coisa Mais Distinta e Vazio, em que Soares e Liev parecem dar voltas em torno de um limitado conjunto de ideias.

De fato, é justamente quando perverte essa estrutura, como em Panorâmica, que o trabalho de 1LUM3 cresce consideravelmente. Da guitarra aprazível que invade os minutos iniciais da canção, estrutura que faz lembrar as canções de Coexist (2012), segundo álbum de estúdio do The xx, passando pelo coro de vozes em parceria com os integrantes da Tuyo e o próprio Liev, poucas composições no decorrer da obra se revelam de forma tão sensível quanto na citada canção. Mesmo o encontro com Baco Exu do Blues, em Deep Down, perverte parte da estrutura que rege o disco. Da voz forte da cantora à construção das rimas lançadas pelo rapper, tudo se projeta de forma pouco usual dentro da base compacta do álbum, lembrando o encontro da dupla em Me Desculpa Jay-Z, uma das músicas mais impactantes do elogiado Bluesman (2018).

Completo pela presença de Rodrigo Zin, em Corpo Fechado, Antinomia cresce em uma medida própria de tempo, como uma extensão natural de tudo aquilo que a cantora vem produzindo desde o primeiro EP de inéditas da carreira, Waters (2018). Trata-se de uma obra concebida a partir da colagem de ideias e elementos extraídos de diferentes campos da música, como um diálogo de 1LUM3 com algumas de suas principais referências criativas, caso de FKA Twigs, James Blake e Portishead. Canções que partem do isolamento sentimental da própria artista para capturar a atenção do ouvinte.