"A Pegada Agora É Essa"

Ano: 2021
Selo: Far Out Recordings
Gênero: Jazz, Samba, Funk
Para quem gosta de: Ana Frango Elétrico, Quartabê e Metá Metá
Ouça: Forte Apache, Luz Negra e Noite de Temporal
Nota: 9.0

Crítica | Antônio Neves: “A Pegada Agora É Essa”

Instantes de doce calmaria que antecedem momentos de completo delírio. Em A Pegada Agora É Essa (2021, Far Out Recordings), segundo e mais recente álbum do multi-instrumentista, arranjador e produtor carioca Antônio Neves, passado e presente da música produzida no Rio de Janeiro se encontram em um turbilhão instrumental e poético que aponta para as mais variadas direções criativas. Canções que vão do jazz ao samba, do rock ao uso de temas experimentais de forma sempre inexata, torta, como um acumulo natural de tudo aquilo que artista que já colaborou com nomes como Elza Soares, Moreno Veloso e Ana Frango Elétrico tem produzido desde o início da carreira.

Não por acaso, Neves inaugura o disco com a caótica Simba. Como um soco, a composição rapidamente situa o ouvinte no interior do álbum, porém, perverte qualquer traço de normalidade, tornando o caminho até o encerramento da obra deliciosamente incerto. São arranjos quebradiços, pianos e metais que se chocam em meio a fragmentos de vozes e ruídos aleatórios, proposta que ganha ainda mais destaque na música seguinte, a própria faixa-título do trabalho. Da construção das batidas, que parecem saídas de alguma bateria de escola de samba, passando pelo uso de guitarras que evocam Fela Kuti e até o som da interferência de um celular, cada elemento da canção parece transportar o ouvinte para um novo e sempre inusitado território criativo.

É somente com a chegada de Noite de Temporal, terceira faixa do disco, que A Pegada Agora É Essa sutilmente desacelera e conduz a experiência do ouvinte com maior sobriedade. Originalmente composta por Dorival Caymmi (1914 – 2008), a canção ganha novo significado nas ambientações soturnas e sons de trovão que se completam pela voz forte de Alice Caymmi, neta do compositor baiano. O mesmo aspecto revisionista acaba se refletindo na música seguinte, Luz Negra, criação de Nelson Cavaquinho (1911 – 1986) que ganha contornos atmosféricos no piano de Eduardo Farias e voz doe de Ana Frango Elétrico, com quem Neves havia colaborado como arranjador durante a produção de Little Electric Chicken Heart (2019).

Nada que se compare ao material entregue em Forte Apache. Dividida entre momentos de maior leveza e caos, a faixa que parece saída da trilha sonora de algum filme de faroeste encanta pela forma como cada instrumento assume uma função de destaque. Do clarinete de Joana Queiroz, passando pelas linhas de baixo de Alberto Continentino à percussão de Roque Miguel, tudo soa como um preparativo para o mandolim delirante de Hamilton de Holanda, proposta que rompe com a atmosfera elétrica do restante da obra e transporta o disco para um terreno completamente novo. São tantos detalhes que a canção seguinte, Lamento De Um Perplexo, bem-sucedido encontro com o saxofonista Leo Gandelman, quase acaba engolida. Entretanto, mais do que um momento de breve respiro, a música serve de passagem para o bloco final do trabalho.

Longe da euforia que marca os minutos iniciais do registro, Neves utiliza dos momentos finais de A Pegada Agora É Essa para mergulhar o ouvinte em um ambiente que mesmo contido, mantém firme a riqueza de detalhes e direcionamento torto que embala o restante da obra. Exemplo disso acontece em Summertime. Icônica criação de George Gershwin (1898 – 1937), a canção parte de uma atmosférica jazzística, porém, assume novo tratamento na voz suja do multi-instrumentista, proposta que muito se assemelha à interpretação de Tom Waits para a composição. Um lento desvendar de cada elemento, como nas melodias que escapam do piano elétrico de Luiz Otávio, conceito que prepara o terreno para a derradeira Jongo no Feudo.

Completa pela participação do flautista Edu Neves, músico que lançou há poucos meses o também primoroso Olayá (2020), a canção trabalhada em uma estrutura crescente funciona como uma soma de tudo aquilo que o músico carioca incorpora desde a introdutória Simba. São incontáveis camadas instrumentais que se entrelaçam de forma sempre detalhista, lembrando criações quase religiosas de Heaven and Earth (2018), último disco de Kamasi Washington. Instantes em que Neves e seus convidados mais uma vez se permitem brincar com as possibilidades dentro de estúdio, porém, fazendo da costura fina entre os arranjos um precioso componente de fechamento para o álbum.

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