"Apollo XXI"

Ano: 2019
Selo: 3QTR
Gênero: R&B, Soul, Indie
Para quem gosta de: The Internet, Syd e The Internet
Ouça: Playground e Hate CD
Nota: 6.5

Crítica: “Apollo XXI”, Steve Lacy

Em um intervalo de poucos meses, Steve Lacy esteve envolvido em alguns dos registros mais importantes da produção norte-americana. Da construção dos arranjos ao lado de Kendrick Lamar, em DAMN. (2017), passando pela estreia de Syd, em Fin (2017), ao encontro com Ravyn Lenae, em Crush EP (2018), até alcançar os elogiados Isolation (2018), de Kali Uchis, Negro Swan, de Blood Orange, Hive Mind, do The Internet, ou mesmo os ainda recentes When I Get Home (2019), de Solange, e Father of The Bride (2019), do Vampire Weekend, sobram trabalhos significativos que sintetizam a completa versatilidade do multi-instrumentista norte-americano.

Tamanha força criativa naturalmente chamou a atenção para o primeiro álbum de estúdio do cantor e compositor californiano em carreira solo, Apollo XXI (2019, 3QTR). Menos urgente em relação ao material entregue nos últimos meses, o trabalho segue exatamente de onde o artista parou há dois anos, durante o lançamento de Steve Lacy’s Demo (2017). São pouco mais de 40 minutos em que o jovem músico se concentra na fragmentação das ideias, picotando diferentes cenas e tendências de forma particular.

Exemplo disso está na extensa Like Me. São pouco mais de nove minutos em que Lacy brinca com a criativa sobreposição das guitarras, sintetizadores, batidas e vozes, arrastando o ouvinte para dentro de um cenário marcado pela incerteza dos elementos. São melodias e versos que se revelam ao público em pequenas doses, como se o artista fosse da neo-psicodelia caseira de nomes como Homeshake ao parcial isolamento do novo R&B, conceito reforçado pela presença da convidada Daisy, dona da voz em parte expressiva da canção.

A mesma força criativa se faz evidente nos pouco mais de três minutos de Playground, terceira faixa do disco. Das guitarras que parecem saídas de I Don’t Feel Like Dancin’, passando pelo minucioso uso dos falsetos, batidas, melodias e vozes, Lacy entrega ao público uma composição que se revela em pequenas doses, cercando e hipnotizando o ouvinte. Em N Side, próxima ao encerramento do disco, uma criativa colisão de ideias que aponta para o R&B de Miguel e outros artistas que vem revisitando a década de 1990. Um lento desvendar de ideias e experiências pessoais que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Outro Freestyle/4Ever.

Interessante perceber em Hate CD, sétima composição do disco, uma parcial fuga desse mesmo direcionamento criativo. Do uso característico da voz ao posicionamento firme das guitarras e batidas, difícil não lembrar do som produzido pelo R.E.M. no final da década de 1980. A mesma concepção nostálgica acaba se refletindo em Guide, música de apenas dois minutos que soa como um encontro entre R&B torto de Lacy com a obra de veteranos como Devo, transportando o ouvinte para um território marcado pela incerteza dos elementos, proposta que vem sendo aprimorada desde Steve Lacy’s Demo.

Uma vez dentro desse universo criativo, Apollo XXI se revela muito mais como uma obra de ideias do que o um trabalho completo em si. É como se Lacy testasse os próprios limites dentro de estúdio, flutuando em meio a melodias nostálgicas, recortes inusitados e variações que apontam para diferentes campos da música de forma propositadamente inexata. Uma completa ausência de certeza, estrutura que naturalmente reflete a completa capacidade do artista em se reinventar criativamente, mas que pouco avança quando observamos o rico catálogo colaborativo acumulado pelo jovem produtor nos últimos anos.



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