"KiCk i"

Ano: 2020
Selo: XL Recordings
Gênero: Experimental, Avant-Pop, Eletrônica
Para quem gosta de: SOPHIE, Lotic e Björk
Ouça: La Chíqui, Afterwards e KLK
Nota: 8.3

Crítica | Arca: “KiCk i”

Em KiCk i (2020, XL Recordings), a incerteza rege o trabalho de Alejandra Ghersi. Quarto e mais recente álbum de estúdio da cantora, compositora e produtora venezuelana como Arca, o sucessor do homônimo disco de 2017 reflete a imagem de uma artista ainda mais desafiadora, como se cada composição entregue ao longo do registro servisse de passagem para um universo de novas possibilidades. “Um choque de gêneros“, como resumiu em entrevista à Garage Magazine, conceito que se materializa tão logo a obra tem início, na experimental Nonbinary, mas que acaba se refletindo até a faixa de encerramento do disco, No Queda Nada.

Sequência ao material entregue há poucos meses, no também delirante @@@@@ (2020), KiCk i nasce como um exercício de autoafirmação e busca por novas possibilidades. Primeiro trabalho de estúdio da cantora após o processo de transição de gênero, o disco nasce como um exercício de reapresentação e fina desconstrução de tudo aquilo que Arca tem revelado desde os primeiros registros autorais, quando colaborou com nomes como Kanye West e FKA Twigs. Pouco menos de 40 minutos em que a artista vai do pop etéreo à música latina, do experimentalismo eletrônico ao rap de forma inexata, como se diferentes obras fossem condensadas dentro de cada composição.

Exemplo disso está no bem-sucedido encontro com Rosalía, em KLK. Da construção das batidas, passando pelo uso das vozes e temas latinos, tudo soa como uma extensão do material assinado pela artista espanhola, porém, dentro de uma linguagem própria da produtora venezuelana. Instantes em que Arca se permite provar de uma sonoridade acessível, convida o ouvinte a dançar e sutilmente mergulha em um território marcado pelos ruídos e colisões sintéticas. Um constante perversão do óbvio, conceito que se reflete nas canções assumidas individualmente pela cantora, mas que ganha ainda mais destaque no encontro com diferentes colaboradoras.

É o caso de Afterwards. Aguardado reencontro com Björk, com quem trabalhou na produção de Utopia (2017), a canção parte de uma estrutura típica dos trabalhos da artista islandesa, porém, lentamente se perde em um labirinto de sons e pequenas possibilidades próprias de Arca. Dos versos cantados em espanhol, passando pela inserção de ambientações e ruídos sintéticos, cada fragmento da canção parece transportar o ouvinte para um território diferente. O mesmo tratamento acaba se refletindo em La Chíqui, ao lado de SOPHIE, e Watch, com Shygirl. Instantes em que a venezuelana preserva e perverte a identidade criativa de cada convidada.

Mesmo quando avança solitária pelo interior do disco, Arca em nenhum momento tende ao óbvio. Exemplo disso ecoa com naturalidade em Mequetrefe, canção que parte de um trap latino, cresce em meio a sintetizadores atmosféricos e se conecta diretamente à fixa seguinte do disco, Riquiquí, composição que vai do canto à rima em uma estrutura que evoca o trabalho de ANOHNI, uma das principais referências criativas das artista. Curioso perceber que mesmo faixas já conhecidas, como Nonbinary e Time, assumem novo significado dentro do disco. Frações poéticas e instrumentais que vão do recolhimento à libertação, jogando com a interpretação do público.

Ponto de equilíbrio entre os delírios atmosféricos que embalam o disco apresentado há três anos e o material entregue em obras como Mutant (2015) e @@@@@, KiCk i mostra Arca em sua melhor forma. São canções que refletem o que há de mais incerto na obra da artista venezuelana, marca de músicas como Rip The Slit e Riquiquí, mas que a todo momento servem de passagem para pequenos refúgios criativos, conceito reforçado em faixas como Afterwards e No Queda Nada. Uma seleção de pequenos acertos, ruídos e fórmulas pouco convencionais, estrutura que vai da imagem de capa à inserção de cada batida ou tema instrumental.