"Positions"

Ano: 2020
Selo: Republic
Gênero: Pop, R&B, Trap
Para quem gosta de: Selena Gomez e Mariah Carey
Ouça: POV, Positions e Love Language
Nota: 7.0

Crítica | Ariana Grande: “Positions”

Depois de uma sequência de obras composta por Dangerous Woman (2016), Sweetener (2018) e Thank U, Next (2019), difícil não criar expectativa para qualquer novo lançamento de Ariana Grande. Entretanto, quem for com sede ao pote em direção ao sexto e mais recente trabalho de estúdio da cantora e compositora norte-americana, Positions (2020, Republic), talvez acaba se decepcionando. Na contramão dos últimos registros de inéditas, sempre alavancados por uma composição de maior destaque e evidente diálogo com o grande público, como Problem, Into You e No Tears Left to Cry, a artista original de Boca Raton, Flórida, investe em um álbum de essência contida, como uma busca por novas possibilidades.

Não por acaso, Grande escolheu a própria faixa-título do álbum para apontar a direção seguida até o último instante do registro. Síntese clara de tudo aquilo que a cantora busca desenvolver ao longo da obra, a canção ganha forma em meio a batidas, sintetizadores e vozes cuidadosamente planejadas dentro de estúdio. Um lento desvendar de ideias e experiências sentimentais, estrutura que se completa pela letra de significado ambíguo, ora guiada pelo lirismo lascivo da artista, ora mergulhada em experiências que detalham um relacionamento conturbado. “Sim, estou abatida também / Mudando as posições para você / E isso é uma coisa que eu geralmente não faço / Mas para você, eu meio, meio que quero“, canta. 

São versos sempre confessionais e intimistas, estrutura que naturalmente aponta para o repertório de Dangerous Woman, porém, de maneira ainda mais explícita. “Você pode ficar acordado a noite toda / Fodendo comigo até a luz do dia?“, provoca em 34+35. Claro que isso não interfere na produção de faixas marcadas pelo forte aspecto sentimental dos temas. Exemplo disso acontece em Off The Table. Reencontro com The Weeknd, com quem havia colaborado em Love Me Harder, a canção reflete o que há de mais sensível em Positions. “Será que algum dia voltarei a amar da mesma forma / Algum dia vou amar alguém como amei você?“, questiona com melancolia.

Mesmo capaz de transitar por diferentes temáticas, Positions não consegue disfarçar um grave defeito em sua estrutura: a forte similaridade entre as faixas. Da construção das batidas ao uso das vozes, do tratamento dado aos sintetizadores ao direcionamento contido que envolve o disco, tudo gira em torno de um limitado conjunto de elementos, tornando a experiência de ouvir o álbum bastante arrastada. Salve exceções, como na base dançante de Love Language, música em que evoca as pistas dos anos 1990, Grande revela ao público uma obra exageradamente contida, por vezes preguiçosa, como uma extensa composição de 40 minutos fatiada em pequenos blocos.

Nesse sentido, difícil não lembrar de Mariah Carey, uma das principais inspirações de Grande, no início dos anos 2000. Vinda de uma sequência de obras importantes, como Daydream (1995), Butterfly (1997) e Rainbow (1999), a cantora nova-iorquina fez da virada para a nova década o estímulo para uma seleção de álbuns pouco inspirados e repetitivos, como Glitter (2001) e Charmbracelet (2002), tratamento que se reflete no presente disco. Curioso pensar que uma das principais faixas de Positions, a derradeira POV, seja justamente a que mais dialoga com as habituais criações de Carey. “Eu quero me amar / Do jeito que você me ama“, canta enquanto testa os limites da própria voz, rompendo com o tom moroso do restante do álbum.

Entretanto, mesmo pontuado por momentos de maior desequilíbrio, Positions está longe de ser encarado como um trabalho ruim. Trata-se apenas de um registro menor quando próximo de outros lançamentos recentes da cantora. Concebido durante o período de isolamento social, difícil não pensar no álbum, que ainda conta com nomes como Doja Cat (Motive) e Ty Dolla Sign (Safety Net), como um produto do próprio tempo em que foi gravado. São canções marcadas pelo completo reducionismo dos elementos, porém, sempre sensíveis e íntimas de qualquer ouvinte, como um passeio pela mente, relacionamentos e conflitos vividos pela cantora nos últimos meses.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.