"Adeus"

Ano: 2020
Selo: Sentinela Discos
Gênero: Indie, Folk, Psicodélico
Para quem gosta de: Devendra Banhart e Boogarins
Ouça: 2013, o Ano Bege e Agonia
Nota: 8.0

Crítica | Arthur Melo: “Adeus”

Saudade, solidão e recordações de um passado distante. Em Adeus (2020, Sentinela Discos), terceiro e mais recente álbum de estúdio do cantor e compositor mineiro Arthur Melo, cada fragmento do disco produzido e gravado inteiramente pelo músico, estabelece em memórias empoeiradas e pequenas desilusões sentimentais a base para grande parte das faixas. São canções concebidas de forma caseira, sem pressa, como e cada componente da obra fosse trabalhado em uma medida própria de tempo. Um exercício de essência intimista, como um convite a revisitar o que há de mais doloroso e acolhedor nas experiências resgatadas pelo artista.

Hoje é segunda meu amor / A tristeza é presente / Essa canção já ficou bege / Tem gosto de carnaval do interior“, relembra em 2012, o Ano Bege, segunda faixa do trabalho e um indicativo do lirismo melancólico que serve de sustento ao disco. Instantes em que Melo perverte as ambientações ensolaradas de Agosto (2017) e Nhanderuvuçu (2018), porém, em nenhum momento sufoca pela própria tristeza, fazendo do ambiente particular detalhado ao longo do registro o estímulo para uma obra quase sensorial, sempre convidativa, como se feita para ser desvendada pelo público.

São ruídos ocasionais, captações de campo, vozes e a permanente sensação de proximidade, como se fosse possível visualizar o músico em um quarto escuro, à meia-luz. Exemplo disso está em A Última Solidão, música que se espalha em meio ao canto de pássaros, vozes ecoadas e o uso atmosférico da percussão. Instantes em que Melo parece cercar o ouvinte, convidado a se perder em um território de pequenas incertezas. “Te torturam logo ao sair de casa / Tiram sua esperança com a confusão / Mas guarde suas dores pra você / Seu coração aguenta muito mais ate cansar“, sussurra.

O mesmo comprometimento estético acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra. São preciosidades como a curtinha Presença / Saudade (Vila Velha, Janeiro, 2020), composição que parte de uma base atmosférica, cresce em meio a vozes submersas e encanta pela forma como o músico registra os próprios sentimentos enquanto caminha solitário. Frações poéticas e instrumentais que se espalham de forma sempre inexata, torta, estrutura que acaba se refletindo na sequência composta por Barreiras N. 1 e Barreiras N. 2, ou mesmo na dolorosa faixa-título do trabalho.

Entretanto, assim como em Nhanderuvuçu, a grande beleza de Adeus está na forma como o compositor mineiro oscila entre criações reducionistas e faixas sempre entusiasmadas. É o caso de Agonia, canção que parte de uma base melancólica, lembrando as antigas criações de Devendra Banhart, porém, cresce em um sambinha descompromissado, como se Melo convidasse o ouvinte a dançar. É partindo desse mesmo direcionamento criativo que o músico revela faixas como a colorida De La Pra Cá / Trafegar, uma anti-bossa pontuada por momentos de doce experimentação, ou mesmo a crescente Procissão, música que incorpora a essência psicodélica dos anos 1970.

Misto de sequência e fina desconstrução de tudo aquilo que Melo havia testado há poucos meses, no antecessor Metanoia (2019), Adeus evidencia o amadurecimento do músico mineiro, porém, preserva de forma inteligente o aspecto caseiro que orienta as criações do artista desde os primeiros registros autorais. São composições ambientadas em um universo particular. Um espaço onde sonhos e desilusões se cruzam a todo instante, sem ordem aparente, fazendo da voz ecoada, melodias sujas e percussão inexata o estímulo para um registro tão íntimo do cantor quanto do próprio ouvinte.