"Bandana"

Ano: 2019
Selo: Keep Cool / RCA
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Run The Jewels e Danny Brown
Ouça: Crime Pays e Half Manne Half Cocaine
Nota: 8.0

Crítica | “Bandana”, Freddie Gibbs & Madlib

Ouvir as canções de Bandana (2019, Keep Cool / RCA) é como se perder em um universo marcado pelos detalhes. Concebido em meio a trechos de filmes japoneses, retalhos instrumentais que vão do funk dos anos 1970 a clássicos esquecidos da música brasileira, ruídos e versos marcados pelo consumo excessivo de drogas, o segundo registro da parceria entre Freddie Gibbs e Madlib exige tempo até se revelar por completo para o ouvinte. Um lento desvendar de ideias e experiências que naturalmente amplia tudo aquilo que a dupla havia testado cinco anos antes, durante o lançamento do elogiado Piñata (2014).

Parcialmente livre da estrutura melódica incorporada nas canções do álbum anterior, a presente obra parte da desconstrução dos elementos como estímulo para a formação das rimas e fina base instrumental que corre ao fundo do trabalho. A própria imagem de capa do disco, uma ilustração concebida por Jeff Jank, parece sintetizar esse desejo de ruptura. São fragmentos extraídos de diferentes fases na carreira de cada realizador, como a criatura amarela que tradicionalmente estampa as capas do alter ego de Madlib, Quasimoto.

Exemplo disso está em Half Manne Half Cocaine, terceira faixa do disco. Dividida em duas metades, a canção parte de pequenas conquistas pessoais, instantes de celebração ao sexo e versos explícitos que se completam pela produção inexata de Madlib. Na segunda metade do material, fragmentos descritivos que vão do consumo ao tráfico de drogas em uma linguagem essencialmente crua, conceito que se reflete em algumas das principais obras de Gibbs em carreira solo, como a mixtape Baby Face Killa (2012) e Shadow of a Doubt (2015).

O mais interessante talvez seja perceber como a dupla mergulha na composição de um registro essencialmente detalhista, mas que se organiza em intervalos curtos de tempo. É o caso de Crime Plays. São pouco mais de três minutos em que a poesia descritiva de Gibbs se espalha em meio a delírios psicodélicos, abrindo passagem para o vocal feminino e teclados de Free Spirit, música originalmente lançada por Walt Barr no álbum East Winds (1979). Uma criativa colcha de retalhos que faz lembrar a boa fase de Madlib em Madvillainy (2004), primeiro registro da parceria com MF DOOM.

Da mesma forma que em Piñata, Bandana estabelece pequenas pontes criativas que se conectam ao trabalho de representantes vindos de diferentes campos da música negra dos Estados Unidos. São nomes como Anderson .Paak, dono das vozes em Giannis; Pusha T e Killer Mike na empoeirada Palmolive, composição que ainda conta com samples de Cry of a Dreamer, do grupo The Sylvers, e Yasiin Bey e Black Thought na política Education. Surgem ainda nomes como o experiente Mario Caldato Jr. (Beastie Boys, Jack Johnson), responsável pela masterização da obra.

Conceitualmente amplo, mesmo produzido por Madlib inteiramente em um iPad, Bandana brinca com a incerteza das formas instrumentais de maneira irregular e louca, como uma constante perversão estética, lírica e melódica de tudo aquilo que cada colaborador do registro vem produzindo desde o início da carreira. São fragmentos de vozes, arranjos empoeirados, samples e rimas que se entrelaçam sem ordem aparente, estrutura que faz do disco um inevitável convite a se perder em um cenário marcado pela mais completo delírio.