"Tuda"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Pop Rock, MPB
Para quem gosta de: Céu, Karina Buhr e Tulipa Ruiz
Ouça: Perfeitamente Imperfeita e Bagunça
Nota: 8.5

Crítica | Bárbara Eugênia: “Tuda”

O amor está no ar! Em Tuda (2019, Independente), primeiro álbum de estúdio de Bárbara Eugênia desde o colaborativo Vida Ventureira (2017), bem-sucedido encontro com Tatá Aeroplano, a cantora e compositora carioca utiliza das próprias emoções como um estímulo para a composição dos versos. São confissões românticas, instantes de profunda vulnerabilidade e entrega sentimental, proposta que resgata o lirismo melancólico detalhado durante a produção do também sensível É o Que Temos (2013), há seis anos, mas que ganha ainda mais destaque frente ao explícito desejo da artista em ampliar musicalmente os limites da própria obra.

Como indicado logo nos primeiros minutos do disco, na inaugural Saudação, encontro com as mulheres do Bloco Pagu, Eugênia utiliza de elementos do axé, referências regionais e ritmos latinos como alicerce criativo para a formação do disco. São variações instrumentais que preservam o mesmo romantismo brega que tem sido explorado pela artista desde a estreia com Journal de BAD (2010), porém, em um sentido menos formatado e, consequentemente, amplo, estrutura que faz do presente álbum um dos registros mais completos da cantora carioca.

Vem justamente dessa criativa colagem de referências a base para uma das principais faixas do disco, a confessional Perfeitamente Imperfeita. “É que me bateu uma urgência de te amar / Quem sabe amanhã talvez você me ache outra vez / Naquela rua que a gente parou / Estou de braços e coração abertos“, confessa enquanto a guitarra de Davi Bernardo se espalha em meio a entalhes percussivos compartilhados entre Zezinho Maracutaia, Lenis Rino, Thereza Menezes e Isadora Id. São pouco menos de quatro minutos em que a artista não apenas se entrega emocionalmente, como sintetiza o lirismo agridoce que serve de sustento ao disco.

Exemplo disso está no encontro com Zeca Baleiro, em Bagunça. “Não sei se é amor, mas arrepia a pele / Você partiu, levou meu disco da Adele / Eu que sonhava tanto, agora já nem durmo / Bagunça, bagunça, bagunça demais“, canta. São versos sentimentais e até um solo de saxofone que ganha forma em meio a sintetizadores, batidas e guitarras rápidas, como uma extensão detalhista do som originalmente testado nas canções de É o Que Temos. A mesma pluralidade de ritmos se faz evidente na colaborativa Confusão, música completa pelo uso de guitarras tropicais e versos compartilhados com o paraense Felipe Cordeiro.

Obra de possibilidades, Tuda encolhe e cresce a todo instante, revelando a completa versatilidade de Eugênia dentro de estúdio. Se em instantes a cantora percorre as pistas de forma deliciosamente nostálgica, como nos sintetizadores e temas dançantes de Perdi, minutos mais tarde, o direcionamento passa a ser outro, vide a latina Sol de Verano. São fragmentos de vozes e ritmos que apontam para diferentes campos da música, porém, de forma concisa, efeito direto da escolha de Eugênia em tratar o amor como componente central da obra.

Doloroso e acolhedor na mesma proporção, Tuda mostra uma artista em pleno domínio da própria obra. Da composição dos versos ao refinamento dos arranjos, da escolha dos convidados, como Iara Rennó (Querência) e Tatá Aeroplano (Eu Vim Saudar), ao time seleto de produtores, caso de Clayton Martin, Dustan Gallas, Onda Vaga e DJ Tide, tudo se projeta de forma a valorizar as histórias e sentimentos compartilhados pela cantora durante toda a execução da obra. Canções que mesmo ancoradas em um universo temático há muito explorado por outros artistas, transbordam novidade e refletem a profunda entrega de sua realizadora.



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