"Live Forever"

Bartees Strange

Ano: 2020
Selo: Memory Music
Gênero: Indie Rock, R&B, Rock Alternativo
Para quem gosta de: TV On The Radio e Young Fathers
Ouça: Mustang, Flagey God e Kelly Rowland
Nota: 8.5

Crítica | Bartees Strange: “Live Forever”

A grande beleza do trabalho de Bartees Strange em Live Forever (2020, Memory Music), primeiro álbum de estúdio do cantor e compositor que cresceu em Mustang, Oklahoma, está justamente em não saber onde ele vai dar. Do momento em que tem início, na introdutória Jealousy, com suas captações de campo e vozes atmosféricas, até alcançar a derradeira Ghostly, música adornada pelo uso de melodias sintéticas e versos semi-declamados, cada fragmento do registro produzido e gravado pelo músico de origem inglesa parece transportar o ouvinte para dentro de um novo território criativo. É como se diferentes obras, experiências sentimentais e referências fossem cuidadosamente escolhidas e encaixadas dentro do disco.

E não poderia ser diferente. Nascido em 1989, Strange é um produto de sua época. Uma criança que cresceu bombardeada por estímulos visuais, mas que acabou encontrando na produção musical dos anos 2000, durante a adolescência, um importante alicerce criativo. E isso se reflete com logo nos primeiros minutos do disco, na pulsante Mustang. Enquanto os versos da canção passeiam em meio a memórias da infâncias e questões relacionadas à negritude, musicalmente, o guitarrista confessa algumas de suas principais influências. São ecos de Bloc Party, TV On The Radio e até The Antlers, esse último, homenageado em interpolações com Epilogue, uma das principais faixas do cultuado The Hospice (2009) – “Você está gritando e xingando, eu estou sorrindo, você está me matando“.

A mesma entrega de Strange acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra. São músicas como Boomer, canção que evoca Kings of Leon, mesmo preservando o caráter anárquico do restante do álbum. Mais à frente, em Stone Meadows, o mesmo direcionamento criativo, porém, partindo de uma nova abordagem. São guitarras atmosféricas que se entrelaçam em uma estrutura crescente e forte, proposta que aponta para os primeiros registros do The National, como Sad Songs for Dirty Lovers (2003) e Alligator (2005). Surgem ainda criações curiosas, como a industrial Mossblerd, com suas texturas e ruídos que ora apontam para o lado acessível do Nine Inch Nails, ora fazem lembrar de veteranos como Throbbing Gristle.

Entretanto, para além da evidente inclinação ao rock que embala os minutos iniciais do registro, sobrevive na imprevisível colagem de ritmos e ideias dissonantes um importante componente criativo para o fortalecimento da obra. Exemplo disso acontece na já conhecida Kelly Rowland, quarta faixa do disco. Enquanto os versos da canção reforçam a temática racial que surge em momentos estratégicos ao longo do álbum – “Quando fui marginalizado, ninguém acreditou em mim / Mas agora tenho pôsteres, e as correntes brilhando no pescoço” –, Strange se concentra em remontar a base de Dilemma, icônica parceria entre Nelly e a citada Kelly Rowland. O resultado desse processo está na entrega de um R&B torto e labiríntico, indicativo da completa versatilidade do músico dentro de estúdio.

Esse completo esmero de Strange acaba se refletindo mesmo nos momentos de maior comodidade da obra. Perfeita representação desse resultado pode ser percebida na dobradinha composta por Far e Fallen For You, próximo ao encerramento do álbum. Entre versos confessionais e melodias acústicas, o músico britânico não apenas se entrega sentimentalmente, como estreita a relação com as criações melancólicas de Bon Iver e outros nomes recentes do gênero. Mesmo Flagey God, com suas batidas e arranjos soturnos, em nenhum momento deixa de dialogar com o ouvinte, efeito direto da poesia intimista que cobra toda a superfície de canção. “Eu me sinto como um fantasma agora, finalmente / Caminhar a noite toda em ruas sinuosas / Queria poder ir até lá agora, você poderia me ver“, canta.

Conceitualmente diverso, Live Forever utiliza de uma série de elementos testados por diferentes artistas, porém, partindo de uma abordagem íntima do compositor britânico. São memórias, influências destacadas e instantes de evidente reinterpretação em que Strange imprime a própria identidade artística. Parte desse resultado vem da forma como o músico utiliza de vivências reais, medos e conflitos particulares como um componente de fortalecimento para a obra, subvertendo qualquer traço de similaridade e o habitual comodismo da referência em favor de um trabalho que caminha com as próprias pernas.