"Juice B Crypts"

Ano: 2019
Selo: Warp
Gênero: Experimental, Math Rock, Art Rock
Para quem gosta de: Liars e Tune-Yards
Ouça: Ambulance e Fort Green Park
Nota: 7.7

Crítica | Battles: “Juice B Crypts”

Interessante pensar que mesmo desfalcado de dois de sus principais realizadores, o guitarrista Tyondai Braxton e o baixista Dave Konopka, o Battles segue como um dos projetos mais relevantes do experimentalismo nova-iorquino. Hoje aos comandos de Ian Williams (guitarra e sintetizadores) e John Stanier (bateria e percussão), a banda tem feito justamente desse reduzido número de instrumentistas a passagem para um novo universo conceitual. Canções marcadas pela inserção de temas eletrônicos, pequenos improvisos e diálogos com diferentes colaboradores, estímulo para o material entregue em Juice B Crypts (2019, Warp).

Obra de possibilidades, conceito reforçado desde o colaborativo Gloss Drop (2011), o trabalho que conta com produção assinada pelos próprios membros da banda parece jogar com os instantes. São músicas trabalhadas em uma estrutura crescente, como se cada fragmento culminasse em um fechamento grandioso, sempre catártico e experimental. Canções que pervertem a morosidade detalhada no antecessor La Di Da Di (2015), tornando a experiência do ouvinte atrativa até o último segundo do álbum.

Perfeita representação dessa estrutura ecoa com naturalidade logo nos primeiros minutos do disco, na introdutória Ambulance. São pouco mais de quatro minutos em que Williams e Stanier brincam com a inserção de melodias atmosféricas e ruídos controlados, como um preparativo para a sobreposição de guitarras e batidas cíclicas, naturalmente íntimas de tudo aquilo que o Battles tem produzido desde a estreia com Mirrored (2007). É como se a dupla jogasse com a expectativa do próprio ouvinte, preparando o terreno para o dedilhado frenético e explosão percussiva que toma conta do restante da faixa.

O mesmo direcionamento acaba se refletindo mais à frente, na delirante Fort Greene Park. Música mais extensa do disco, a canção utiliza da base torta de sintetizadores como um estímulo para a criativa inserção das guitarras. São pouco mais de cinco minutos em que Williams vai da psicodelia funkeada dos anos 1970 ao jazz em uma linguagem propositadamente instável. A própria faixa-título do disco, com seus ruídos robóticos e ambientações eletrônicas, cria pequenas brechas para a bateria de Stanier, sempre versátil, apontando a direção seguida até a composição de encerramento do disco.

Dentro desse espaço marcado pelas possibilidades, interessante perceber a forma como a dupla nova-iorquina utiliza do diálogo com diferentes artistas como um estímulo natural para a composição das faixas. É o caso de They Played It Twice, canção que utiliza da voz de Xenia Rubinos como um instrumento complementar, maior a cada nova audição. Em Titanium 2 Step, uma tentativa clara de replicar o dance-punk produzido no início dos anos 1980, de onde vem o convidado Sal Principato, do grupo Liquid Liquid. Surgem ainda nomes como Shabazz Palaces, em IZM, Jon Anderson e 落差草原 WWWW, na caótica Sugar Foot, e Tune-Yards, nas duas metades da derradeira Last Supper on Shasta.

O resultado desse intenso cruzamento de ideias está na entrega de um registro conceitualmente versátil, como uma tentativa clara da banda em se reinventar dentro de estúdio. São pouco mais de 40 minutos em que a dupla nova-iorquina não apenas preserva uma série de elementos originalmente testados nos primeiros álbuns de estúdio, como se permite provar de novas possibilidades e ritmos, indo do rock dos anos 1980 ao jazz e música eletrônica em uma linguagem deliciosamente irregular, prova de que mesmo com um número reduzido de integrantes, o Battles ainda tem muito o que apresentar ao público.



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