"Hyperspace"

Ano: 2019
Selo: Capitol
Gênero: Pop, Rock, Synthpop
Para quem gosta de: Toro Y Moi e Weezer
Ouça: Saw Lightning e Die Waiting
Nota: 7.0

Crítica | Beck: “Hyperspace”

Seja de maneira direta, como na propositada releitura do clássico Sea Change (2002), em Morning Phase (2014), ou de forma involuntária, como em Colors (2017), trabalho que replica parte da musicalidade explícita em obras como Guero (2005) e The Information (2006), Beck Hansen passou grande parte da última década revisitando uma série de elementos que sintetizam a própria identidade criativa. Um permanente olhar para o passado, estrutura que se reflete com naturalidade em Hyperspace (2019, Capitol), 14º e mais recente álbum de estúdio do músico norte-americano.

Inspirado de maneira explícita pelo criativo cruzamento de ideias que marca os versáteis Mellow Gold (1994) e Odelay (1996), o registro que conta com produção assinada em parceria com nomes como Pharrell Williams, Cole M.G.N., Greg Kurstin e Paul Epworth vai do R&B à música country, do rap ao rock em uma criativa colisão de ideias. São retalhos instrumentais e poéticos que sintetizam a capacidade do músico californiano em se reinventar dentro de estúdio, como se cada composição que recheia o disco fosse montada a partir da colagem de diferentes elementos rítmicos.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade na colorida Saw Lightning. Uma das primeiras composições do disco a ser apresentada ao público, a faixa não apenas preserva a essência de criações icônicas como Devils Haircut e Loser, como se permite avançar criativamente, provando de novas possibilidades. Do tratamento instrumental da voz, ao uso calculado do violão, passando pela quentura das batidas, típicas de Williams, tudo soa como um resgate conceitual de diversos aspectos que fizeram do músico norte-americano um dos nomes mais importantes do gênero.

A principal diferença em relação ao presente álbum e toda a sequência de obras que ele referencia está no minimalismo adotado por Hansen. Exemplo disso ecoa com naturalidade logo nos primeiros minutos do disco, na atmosférica Uneventful Days. São camadas de sintetizadores e batidas eletrônicas que se revelam ao público em pequenas doses. A própria faixa-título do disco, uma colaboração com o rapper Terrell Hines, utiliza do mesmo direcionamento estético. Instantes em que Beck vai do pop empoeirado dos anos 1980 ao trap de forma particular.

É partindo justamente desse mesmo direcionamento estético que Hansen revela ao público algumas das principais faixas do disco. Canções como a nostálgica Die Waiting, bem sucedido encontro com a cantora e compositora Sky Ferreira, e Chemical, música que parece saída de um antigo seriado de TV. Composições marcadas pelo uso de sintetizadores enevoados, por vezes psicodélicos, proposta que naturalmente aponta para os primeiros discos de nomes como Toro Y Moi, Neon Indian e demais articuladores da famigerada chillwave.

Misto de passado e presente, Hyperspace peca pela parcial ausência de novidade, porém, encanta pela forma como Beck e Williams brincam com as melodias de forma sempre precisa, cercando o ouvinte. Do momento em que tem início, na sequência formada por Hyperlife e Uneventful Days, passando pela composição de faixas como Saw Lightning, Dark Places e Die Waiting, tudo parece pensado para confortar o público, como se o músico fizesse dessa previsibilidade um importante componente criativo para a fortalecimento da obra.



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