"The Invisible Man"

Ano: 2020
Selo: Black Lot Music
Gênero: Música Ambiente, Experimental, Instrumental
Para quem gosta de: Trent Reznor, Atticus Ross e Bobby Krlic
Ouça: Attack e He's Behind You
Nota: 7.7

Crítica | Benjamin Wallfisch: “The Invisible Man”

Um dos principais problemas em grande parte das trilhas sonoras do cinema de horror não está na incapacidade do compositor em assustar o público, mas em antecipar a experiência da tela a partir do uso de acordes altos ou da orquestração crescente dos elementos. Satisfatório perceber em O Homem Invisível (2020), releitura do diretor Leigh Whannell para a obra de H. G. Wells, um trabalho que utiliza de forma minuciosa do material entregue pelo britânico Benjamin Wallfisch. Instantes de breve silenciamento que antecedem a explosão das formas instrumentais, estrutura que se completa pelo uso imprevisível das imagens e cenas sempre aterrorizantes.

Protagonizado por Elisabeth Moss (Mad Men, The Handmaid’s Tale), o filme mostra a história de Cecilia Kass, uma arquiteta vítima de relacionamento abusivo, que se vê descreditada pela família e amigos após os ataques e perseguições de seu ex-namorado, Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen), um especialista em camuflagem óptica que forjou sua própria morte. Partindo desse conceito do vilão invisível, porém, sempre presente, Whannell entrega ao público um trabalho que praticamente inutiliza da trilha sonora nos momentos que antecedem a tensão, mas que cresce nos instantes de maior angústia da obra, como um reforço à atuação dos atores.

Com base nessa estrutura, Wallfisch se concentra na entrega de um material que se divide em dois caminhos distintos. No primeiro, está o refinamento na composição de músicas ambientais, como um complemento ao medo e isolamento da protagonista vivida por Moss. São faixas como a introdutória Cobolto, a doce melancolia de He’s Gone e o evidente desesper que se apodera de Why Me, canção reforçada pelo uso de pianos atmosféricos e orquestrações densas, conceito anteriormente testado pelo artista em outros de seus trabalhos mais recentes, como Estrelas Além do Tempo (2016) e Blade Runner 2049 (2017).



Entretanto, é justamente nos momentos de maior força da película que o trabalho de Wallfisch ganha forma e cresce. Vem daí o segundo bloco de canções. São faixas como Escape, logo na abertura do disco, em que o produtor londrino utiliza de ruídos metálicos e ambientações carregadas de efeitos, como um ponto de equilíbrio entre as criações de Trent Reznor (Nine Inch Nails) com o experimentalismo de Bobby Krlic (The Haxan Cloak). Exemplo disso está na força avassaladora de Attack, canção que parece pensada para arremessar o ouvinte contra a parede, dialogando de maneira explícita com a violência das imagens apresentadas pelo diretor do filme.

De fato, não são poucos os momentos da obra em que Whannell utiliza do som produzido por Wallfisch como elemento de cena em O Homem Invisível. Perfeita representação desse resultado está em He’s Behind You, música que parte da imperfeição na roupa do vilão como estímulo para a inserção da trilha destacada. A própria aparição do personagem interpretado por Jackson-Cohen ao longo do filme depende da interferência do compositor britânico, como se som e imagem estivessem relacionados.

É justamente essa forte relação com as imagens que torna a trilha sonora de Wallfisch como dependente do trabalho de Whannell. Exemplo disso está na sequência de fechamento do disco, formada por It’s All a Lie, Surprise e Denoument. São composições essencialmente contidas, como uma reciclagem pouco inspiradas do restante da obra, mas que funcionam dentro do contexto do filme. Instantes de breve desequilíbrio quem impedem o produtor britânico de revelar uma obra capaz de sobreviver para além dos limites da tela, conceito bem-resolvido em outras obras recentes do gênero, como O Farol (2019), de Mark Korven, ou mesmo Midsommar (2019), de Bobby Krlic.