"Better Oblivion Community Center"

Ano: 2019
Selo: Dead Oceans
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Boygenius e Bright Eyes
Ouça: Didn't Know What I Was in For e My City
Nota: 8.0

Crítica | “Better Oblivion Community Center”, Conor Oberst & Phoebe Bridgers

Durante mais de duas décadas, Conor Oberst fez dos próprios sentimentos a base para uma das discografias mais tocantes da recente produção norte-americana. Basta voltar os ouvidos para obras como Letting Off the Happiness (1998) e I’m Wide Awake, It’s Morning (2005) para perceber a força dos versos e experiências particulares compartilhadas com ouvinte. Canções ancoradas em personagens, desilusões amorosas, medos e uma permanente sensação de descrença, estrutura que assume novo e delicado direcionamento no primeiro álbum de inéditas do artista como Better Oblivion Community Center.

Mais do que um novo registro autoral, o trabalho que conta com co-produção de Andy LeMaster (Azure Ray, R.E.M.) nasce de um período de forte colaboração entre o cantor e a musicista Phoebe Bridgers. Parceiros antes mesmo da breve interferência de Oberst no primeiro álbum da artista, Stranger in the Alps (2017), a dupla estabelece no presente registro uma criativa troca de influências e experiências pessoais, refinamento evidente durante toda a execução da obra.

De essência conceitual, Better Oblivion Community Center, como o próprio aponta, costura todas as canções como parte de um mesmo universo temático. Trata-se de um distópico centro de tratamento que busca solucionar desde conflitos políticos e sociais até problemas emocionais, ponto de partida para o rico catálogo de músicas ora sussurradas por Bridgers, ora derramadas por Oberst. Um propositado hermetismo estético, mas que em nenhum momento parece minimizar o alcance da obra, maior e mais complexa a cada nova audição.

Eles dizem que você tem que fingir / Pelo menos até você conseguir / Aquele fantasma é apenas uma criança em uma folha … Estou ficando ganancioso com esse inferno particular / Eu irei sozinho, mas isso também é bom“, cresce a melancólica letra de Dylan Thomas, terceira faixa do disco e uma delicada síntese do lirismo particular que rege o disco. São versos que discutem o peso da morte, o sentimento de abandono e o isolamento dos indivíduos de forma tocante, estrutura que em nenhum momento compromete a homenagem da dupla ao poeta que dá título à canção.

Em My City, sétima composição do disco, versos que passeiam em meio a paisagens descritivas da cidade de Los Angeles, porém, fazendo da rica base instrumental um elemento de forte conexão com o público. A própria faixa de abertura, Didn’t Know What I Was in For, mesmo mergulhada em conflitos específicos, como a Guerra na Síria, a todo momento estabelece pequenas pontes conceituais, melodias e versos que parecem arrastar o ouvinte cada vez mais para junto do núcleo da obra.

Para além de outros projetos assinados em parceria entre Oberst e demais representantes da cena alternativa, como o mediano Monsters of Folk, a obra compartilhada com Bridgers encanta pela quantidade de camadas e esmero na composição dos versos, direcionamento que força uma audição atenta por parte do ouvinte. Tamanha riqueza na construção dos detalhes, informações e sentimentos que se escondem ao fundo álbum fazem de Better Oblivion Community Center um trabalho que ganha novo significado a cada audição.