"Sleep on the Wing"

Ano: 2020
Selo: Warp
Gênero: Folk, Folktronica, Indie Folk
Para quem gosta de: Boards of Canada e Four Tet
Ouça: Sleep On The Wing e Lightspout Hollow
Nota: 7.8

Crítica | Bibio: “Sleep On The Wing”

O grande diferencial de Stephen Wilkinson, o Bibio, em relação a outros nomes da produção inglesa, sempre foi a capacidade do artista em alcançar um ponto de equilíbrio entre o experimentalismo eletrônico e o uso de ambientações acústicas. Exemplo disso está em algumas das principais obras do cantor, compositor e produtor britânico, como a cultuada dobradinha composta por Ambivalence Avenue (2009) e Vignetting The Compost (2009), ou mesmo trabalhos ainda recentes, caso de A Mineral Love (2016) e o mais acessível deles, Ribbons (2019), registro que apresentou preciosidades como Curls, Old Grafitti e Pretty Ribbons and Lovely Flowers.

Interessante perceber nas canções de Sleep on the Wing (2020, Warp Records), mais recente álbum do artista britânico, a entrega de uma obra que rompe com essa formatação equilibrada. Inspirado pela vida no campo e as andanças de Wilkinson pelo interior da Inglaterra, o registro marcado pelo uso de ambientações acústicas deixa de lado os temas eletrônicos do passado para revelar um trabalho de essência orgânica. São captações de campo e gravações caseiras que se espalham em meio a orquestrações medievalescas, indicativo de uma nova fase na carreira do produtor.

O mais impressionante talvez seja perceber a forma como Wilkinson parece transportar o ouvinte para dentro do disco logo nos primeiros instantes da obra, na faixa-título do trabalho. São pouco mais de três minutos em que a voz acolhedora do artista se revela ao público em uma medida própria de tempo, sem pressa, detalhando incontáveis camadas instrumentais, arranjos de cordas, sopros e o dedilhado sempre minucioso, como se saído de algum clássico da década de 1960. Frações instrumentais que vão da psicodelia campesina ao parcial recolhimento dos arranjos, como se o músico soubesse exatamente que direção seguir dentro de estúdio.

Dentro desse território conceitualmente delimitado por Bibio, cada composição do disco merece ser observada isoladamente. São faixas como Lightspout Hollow, canção que parte do som de pássaros junto à uma corredeira, cresce em meio a camadas de guitarras e pianolas, convidando o ouvinte a se perder em um labirinto sonoro. O mesmo refinamento estético e doce toque de nostalgia acaba se refletindo na já conhecida Oakmoss, composição que evoca a obra de Cat Stevens, porém, preservando a atmosfera caseira que orienta a experiência do público até a derradeira Watching Thus, The Heron Is All Pool.

Mesmo quando perverte parte dessa estrutura, Wilkinson em nenhum momento se distancia do aspecto acolhedor que serve de sustento ao disco. Exemplo disso está na soturna Crocus, composição que ganha forma em meio a sintetizadores sobrepostos, arranjos de cordas e captações de campo, como uma interpretação soturna da identidade ensolarada que caracteriza grande parte da obra. A própria A Couple Swim, logo na abertura do disco, preserva parte dessa essência bucólica, porém, estabelece no uso de pequenas repetições e efeitos um importante elemento de transformação.

Feito para ser desvendado aos poucos, como tudo aquilo que Wilkinson tem produzido nos últimos anos, Sleep on the Wing nasce como uma experiência mágica. São camadas instrumentais, ruídos e ambientações acústicas que sutilmente convidam o ouvinte a se perder em um território esverdeado. “A música tem o poder de inspirar sonhos e alimentar a imaginação, e é isso que eu sempre achei tão viciante na arte“, escreveu no texto de apresentação do trabalho, indicando parte das experiências que servem de sustento ao disco. Canções que atravessam o pop bucólico dos anos 1960, fazem lembrar de nomes como Nick Drake e Vashti Bunyan, porém, a todo momento regressam ao ambiente particular de Bibio.