"Two Hands"

Ano: 2019
Selo: 4AD
Gênero: Indie, Indie Rock, Folk Rock
Para quem gosta de: Angel Olsen e Sharon Van Etten
Ouça: Not, Soulders e Forgotten Eyes
Nota: 9.0

Crítica | Big Thief: “Two Hands”

Incansável, Adrianne Lenker parece fazer dos próprios conflitos, romances fracassados e experiências particulares a base para cada novo álbum de estúdio. Em um intervalo de poucos anos, a cantora e compositora norte-americana não apenas deu vida a uma sequência de obras importantes com o Big Thief, caso de Masterpiece (2016) e Capacity (2017), como fez do segundo trabalho em carreira solo, Abyskiss (2018), um delicado esboço para o material entregue no maduro U.F.O.F. (2019). Entretanto, o quem ninguém esperava era que poucos meses após o lançamento do elogiado registro, a guitarrista estadunidense e seus parceiros de banda, Buck Meek (guitarra, voz), Max Oleartchik (baixo) e James Krivchenia (bateria), estivessem de volta com um exercício criativo ainda maior.

Em Two Hands (2019, 4AD), quarto e mais recente álbum de estúdio do Big Thief, Lenker e seus parceiros de banda pervertem o minimalismo de U.F.O.F. em prol de uma obra parcialmente grandiosa, forte. Da construção dos arranjos, marcados pelo evidente peso das guitarras, à voz berrada da cantora, claramente consumida pela própria dor, tudo se revela como uma interpretação ruidosa do material entregue há poucos meses. Um turbilhão sentimental e poético que segue de maneira irregular até a faixa de encerramento do disco, Cut My Hair, canção que reflete a capacidade da artista em utilizar da própria melancolia como um componente de imediato diálogo com o ouvinte. “Você quer ficar sozinha / Use sua munição para esvaziar seu braço / Você me pede para deixar você, eu não vou / Não enquanto a faca está na sua garganta“, canta.

Parte dessa ruptura estética em relação ao trabalho entregue há poucos meses está na forma como Two Hands foi concebido pelo quarteto. Longe do ambiente bucólico de Woodinville, no interior do estado de Washington, onde o Big Thief gravou U.F.O.F. em um estúdio montado no celeiro de uma fazenda, a banda, em companhia do produtor Andrew Sarlo (Hand Habits, Empress Of), decidiu migrar para a fronteiriça região de Sonic Ranch, no Texas. Vem justamente dessa mudança de paisagem o estímulo para a produção de um material conceitualmente empoeirado, sujo, direcionamento que se reflete na parcial crueza de músicas como Shoulders e Replaced, composições que parecem apontar para o cancioneiro norte-americano, porém, preservando a essência artesanal dos antigos trabalhos de Lenker.

São guitarras carregadas de efeitos, ruídos ocasionais e a não polidez dos arranjos, estrutura que naturalmente que contribui para a produção de músicas como a intensa Not, uma das principais composições assinadas por Lenker. “Não é a energia que se recupera / Nem as linhas em seu rosto / Nem as nuvens no teto / Nem as nuvens no espaçoNem o sangue escorrendo que você deixa fluir“, canta em um doloroso exercício de negação e profunda entrega sentimental, direcionamento que se reflete na forma como o quarteto parece brincar com a experiência do ouvinte. Frações instrumentais sempre guiadas pela poesia intimista da cantora, conceito explícito logo nos primeiros minutos do trabalho, em The Toy. “Que sonho tolo e familiar / Acordo rindo e correndo / Do menino chorando e vindo / Porque o brinquedo na minha mão é real“, canta enquanto melodias sujas encolhem e crescem a todo instante, indicando a força do trabalho.

Claro que essa busca por um som conceitualmente denso não interfere na produção de faixas marcadas pela habitual leveza de Lenker. “A ferida não tem direção / Todo mundo precisa de uma casa e merece proteção“, canta em em Forgotten Eye, composição em que parece alternar entre a angústia e o acolhimento lírico, como um parcial regresso ao material entregue pela banda nos delicados Masterpiece e Capacity. Em Wolf, canção que rompe com a ambientação catártica de Not, melodias e vozes contidas, deliciosamente minimalistas, proposta que faz lembrar de Neil Young nos momentos de maior calmaria em obras como Harvest Moon (1992). Criações marcadas pelo precioso cruzamento de ideias, como um avanço claro em relação ao material entregue no disco anterior.

Encarado pela banda como o complemento “terreno” ao “celestial” U.F.O.F., Two Hands surpreende pela forma como o quarteto norte-americano parece capaz de se reinventar dentro de estúdio mesmo em um curto espaço de tempo. São camadas instrumentais e poéticas que se revelam ao público em pequenas doses, sem pressa, direcionamento que naturalmente faz do presente disco uma obra maior e mais completa a cada nova audição. Instantes em que Lenker vai da angústia à libertação pessoal de forma sempre sensível, pervertendo o delicado estudo de personagens e acontecimentos mundanos detalhados no disco anterior para investir na composição de uma obra tão particular quanto íntima de qualquer ouvinte.



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