"Quarto Templo"

Ano: 2019
Selo: Quadrado Mágico
Gênero: Rock, Rock Psicodélico
Para quem gosta de: Boogarins e Catavento
Ouça: O Fogo Anda Comigo e Divinorum
Nota: 7.8

Crítica | Bike: “Quarto Templo”

A criativa colisão de ideias que toma forma logo nos primeiros minutos de Divinorum, faixa de abertura de Quarto Templo (2019, Quadrado Mágico), funciona como um indicativo claro do experimentalismo adotado para o quarto álbum de estúdio da banda paulista Bike. São guitarras carregadas de efeitos, ruídos e interferências eletrônicas que sutilmente afastam a banda formada por Julito Cavalcante (voz, guitarra e violões), Diego Xavier (voz, guitarra, baixo e violões) e Daniel Fumega (bateria) do ambiente etéreo detalhado no antecessor Their Shamanic Majesties’ Third Request (2018).

Parte dessa propositada mudança de direção vem da escolha do grupo em colaborar com os produtores Apollo 9 (Planet Hemp, Rita Lee) e Renato Cohen, ampliando os limites da obra dentro de estúdio. Exemplo disso está na derradeira Boca do Sol. São pouco mais de seis minutos em que o trio preserva a essência lisérgica do inaugural 1943 (2015), porém, se permite provar de novas possibilidades, mergulhando na mesma psicodelia urgente detalhada pelo Primal Scream em obras como Vanishing Point (1997) e XTRMNTR (2000).

São batidas secas, sempre precisas, como se prontas para as pistas, estrutura que se completa pela inserção do sintetizador atmosférico e vozes tratadas de forma cíclica, conceito que tem sido aprimorado pela banda desde o maduro Em Busca da Viagem Eterna (2017). “Eles ateiam fogo / Eles queimam os livros / Eles ateiam fogo / A verdade é escudo“, cresce a letra da canção, reforçando um lirismo político poucas vezes antes visto no trabalho da banda. Instantes de profunda entrega, esmero também evidente em O Fogo Anda Comigo, composição que parece maior e mais complexa a cada nova audição.

Claro que essa busca por novas possibilidades não interfere na produção de músicas ainda íntimas dos antigos trabalhos da banda. É o caso da delirante O Velho Caminho das Nuvens Brancas, terceira faixa do disco. Em um intervalo de mais de cinco minutos de duração, guitarras carregadas de efeitos e vozes tratadas como mantra se revelam ao público em pequenas doses, cercando e hipnotizando o ouvinte. Frações instrumentais e poéticas que não apenas preservam, como sutilmente ampliam tudo aquilo que o trio havia testado durante o lançamento de Their Shamanic Majesties’ Third Request.

Se por um lado esse resgate conceitual estabelece uma espécie de ponte para os antigos trabalhos do trio, por outro, fica evidente o desgaste criativo em determinadas faixas ao longo da obra. Perfeita representação desse resultado está em A Casa do Colapso Nascente, composição que parece deslocada do restante do álbum, como uma sobra do registro anterior. Mesmo a inserção de temas eletrônicos, como nos minutos finais de Vermelho Como Brasa, parece incapaz de disfarçar a forte repetição de ideias e guitarras quase caricatas que surgem no desenvolvimento da canção. É como se o grupo desse voltas em torno de um limitado universo temático.

Mesmo pontuado por instantes de breve desequilíbrio, Quarto Templo está longe de parecer um registro irregular dentro da discografia do Bike. Pelo contrário, bons momentos podem ser percebidos durante toda a execução do trabalho. Do bem sucedido diálogo com a música eletrônica, marca de músicas como Divinorum e Boca do Sol, ao completo refinamento na composição dos versos, tudo soa como uma tentativa clara da banda em se reinventar dentro de estúdio, conceito que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra.



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