"Gold Record"

Ano: 2020
Selo: Drag City
Gênero: Folk, Alt. Country, Rock
Para quem gosta de: Wilco e Bonnie 'Prince' Billy
Ouça: Pigeons, As I Wonder e Cowboy
Nota: 8.0

Crítica | Bill Callahan: “Gold Record”

Bill Callahan sempre foi um bom contador de histórias. São personagens quebrados, cenas do cotidiano e acontecimentos talvez desinteressantes, mas que acabam se transformando na voz semi-declamada e poesia atenta do músico norte-americano. “Eu viajo, canto, percebo quando as pessoas notam as coisas“, detalha em As I Wander, faixa de encerramento do sexto e mais recente álbum em carreira solo, Gold Record (2020, Drag City), e uma síntese clara de tudo aquilo que o artista de Silver Spring, Maryland, tem produzido desde o início dos anos 1990, quando fez da extinta Smog um dos projetos mais interessantes da cena alternativa dos Estados Unidos.

Sequência ao material entregue há poucos meses, durante o lançamento de Shepherd in a Sheepskin Vest (2019), Gold Record, assim como o registro que o antecede, é uma pequena coletânea de crônicas musicadas. São narrativas curtas, porém, sempre cuidadosas, conceito que se reflete tão logo o disco tem início, em Pigeons (“Depois que eu disse minha parte / Nós dirigimos em silêncio por um período / Como minhas palavras terminaram, bem, eu não poderia dizer“), e segue até a já citada faixa de encerramento (“E posso ter ficado vagando por muito tempo / Apaixonado por um amor errante“).

Eu tento fazer música sobre tudo que eu posso“, disse em entrevista à Apple Music. De fato, quanto mais avançamos pelas canções de Gold Record, mais essa afirmação se torna real. Exemplo disso acontece em The Mackenzies, quinta faixa do disco. Partindo de memórias acumuladas há mais de três décadas, Callahan transforma o problema mecânico de um carro no princípio para uma composição que discute relações familiares e acolhimento. “Brenda trouxe as bebidas em uma bandeja / E disse: “você deve ficar para o jantar” / Era uma sala tão confortável e aconchegante / E eu queria que Jack me chamasse de ‘filho’ novamente“, canta em meio a arranjos precisos.

São músicas que partem de experiências mundanas, mas acabam revelando um universo de pequenos detalhes, garantindo ao disco uma dimensão talvez maior que seus pouco mais de 40 minutos de duração parecem indicar. Composições como Breakfast, em que parte do cheiro de café da manhã para discutir a vida a dois, ou mesmo Protest Song, em que transforma pequenas experiências noturnas em uma ácida reflexão sobre o caráter políticos dos indivíduos. Fragmentos poéticos construídos pelo cantor ao longo dos anos, como um acumulo das histórias e experiências vividas desde o início da vida adulta até o presente momento.

Não por acaso, Callahan restringiu ao máximo o uso dos instrumentos, valorizando cada verso apresentado ao longo do registro. São arranjos econômicos, sintetizadores tratados de forma atmosférica e ruídos ocasionais, como pinceladas minuciosas em uma tela em branco. Mesmo músicas já conhecidas, como Let’s Move To The Country, originalmente lançada como parte do cultuado Knock Knock (1999), grande obra do Smog, assume novo enquadramento dentro do disco. É como se tudo fosse pensado para valorizar as vozes e sentimentos compartilhados pelo artista, proposta que se reflete mesmo nos momentos de maior grandeza do trabalho.

Dessa forma, Callahan garante ao público uma obra que mesmo contida, revela diferentes personagens, histórias e passagens que parecem ainda mais interessantes e complexos ao serem revisitados. São versos sempre cirúrgicos e inserções melódicas que surgem em momentos estratégicos do disco, capturando a atenção do ouvinte. Surpreende pensar que tamanho esmero no processo de composição do álbum venha justamente de um registro concebido em um curtíssimo espaço de tempo, como uma extensão madura e ainda mais sensível do repertório apresentado em Shepherd in a Sheepskin Vest.