"Species"

Ano: 2020
Selo: 4AD
Gênero: Experimental, Música Ambiente, Drone
Para quem gosta de: William Basinski e Tim Hecker
Ouça: The Pressure of this Water e Badwater Psalm
Nota: 6.5

Crítica | Bing & Ruth: “Species”

Quando despertou o interesse do público e crítica, durante o lançamento de Tomorrow Was The Golden Age (2014), o grande diferencial na obra de David Moore se concentrava na capacidade do pianista norte-americano em condensar incontáveis camadas de pianos, ruídos e texturas atmosféricas dentro de cada composição. Mesmo durante a produção de No Home of the Mind (2017), trabalho em que se permitiu provar de novas possibilidades dentro de estúdio, foram os mesmos labirintos melódicos e ambientações detalhistas que deram novo significado aos inventos do artista que havia estreado anos antes, com City Lake (2010).

Interessante perceber nas canções de Species (2020, 4AD), quarto e mais recente álbum do pianista radicado em Nova Iorque, o princípio de um novo direcionamento estético. Utilizado de um órgão Farfisa, e acompanhado pelo clarinetista Jeremy Viner e o baixista Jeff Ratner, Moore revela ao público o trabalho que mais se distancia das antigas criações do Bing & Ruth. Longe do detalhismo explícito em Tomorrow Was The Golden Age, o pianista se concentra na formação de músicas densas e atmosféricas, fazendo de pequenas repetições a base para cada uma das sete faixas do álbum.

Não por acaso, I Had No Dream foi a primeira composição do disco a ser apresentada ao público. Trata-se de um claro ponto de transição entre o material entregue em No Home of the Mind e a estética incorporada em Species. Instantes em que Moore parte da utilização de pequenas camadas instrumentais para mergulhar em um som contínuo, claustrofóbico e ausente de formas variáveis, como uma parcial fuga dos antigos trabalhos. Mesmo Viner e Ratner surgem de forma discreta, como um complemento breve às ondulações contínuas que escapam do órgão manipulado pelo pianista.

Uma vez imerso nesse cenário, Moore divide o trabalho em duas porções bastante específicas. De um lado, faixas curtas que se projetam em uma estrutura atmosférica, como se fossem pensadas para confortar o ouvinte. É o caso da derradeira Nearer, música que se distancia dos pequenos excessos, ruídos e distorções do restante da obra em prol de um resultado econômico, porém, sempre sensível. A própria Blood Harmony, com pouco mais de dois minutos de duração, reflete o mesmo direcionamento criativo, servindo de respiro entre uma metade e outra do álbum.

Entretanto, é no segundo bloco de canções que Moore realmente deixa sua marca. São faixas deliciosamente extensas, como uma verdadeira jornada criativa, conceito anteriormente testado durante o lançamento de No Home of the Mind. Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade The Pressure Of This Water. Misto de sequência e fina desconstrução do material entregue no disco anterior, a canção, assim como I Had No Dream, parte de uma abertura detalhista para se perder em uma nuvem de sons atmosféricos, quase intransponíveis. São ruídos sequenciados que se espalham em um intervalo de mais de 10 minutos de duração, conceito reforçado na também extensa Live Forever.

O resultado dessa mudança de direção está na entrega de um trabalho que consegue capturar a atenção do ouvinte, convidado a mergulhar nesse novo território criativo incorporado por Moore, porém, pouco avança criativamente. Observado de maneira atenta, não há nada que Tim Hecker, William Basinski e outros nomes do gênero não tenham produzido de forma mais desafiadora nos últimos anos, vide obras como Love Streams (2016) e A Shadow in Time (2017). É como se tudo não passasse de uma simplificação do material entregue em No Home of the Mind, proposta que rege de maneira contida a experiência do público até a derradeira Nearer.