"Bird Songs Of A Killjoy"

Ano: 2019
Selo: Spacebomb Records
Gênero: Folk, Pop de Câmara
Para quem gosta de: Julie Byrne, Aldous Harding e Faye Webster
Ouça: One More Time e When You're Gone
Nota: 8.0

Crítica | “Bird Songs Of A Killjoy”, Bedouine

Seja pela escolha dos temas, delicado uso da voz ou evidente minúcia na composição dos arranjos, sobrevive na obra de Azniv Korkejian um precioso exercício criativo que não apenas dialoga, como parece resgatado da produção musical dos anos 1970. Composições banhadas em melodias acústicas, como se a cantora de origem síria fosse capaz de replicar uma série de conceitos originalmente testados por veteranos do cancioneiro norte-americano e britânico, vide a forte similaridade com a obra de Nick Drake, Vashti Bunyan e, principalmente, Joni Mitchell, artista que ecoa em cada fragmento do melancólico Bird Songs of a Killjoy (2019, Sparcebomb Records).

Segundo e mais recente álbum de Korkejian, o trabalho que conta com produção assinada por Gus Seyffert (HAIM, Adele) segue exatamente de onde a cantora e compositora parou há dois anos, durante o lançamento do homônimo registro de estreia como Bedouine. A principal diferença em relação ao material entregue no bem-sucedido debute está na forma como a artista amplia a forte carga emocional presente na composição dos versos.

Não é uma vergonha? / Sempre o mesmo jogo antigo que jogamos / Eu te amo / E eu amo o quanto eu te amo / Vivendo como uma tola apaixonada / Quanto mais eu faço, menos ele faz“, reflete na agridoce When You’re Gone, música que parecer resgatar a mesma atmosfera de clássicos como Blue (1971) e Court And Spark (1974), duas das obras mais sensíveis de Mitchell. Instantes de doce melancolia, estrutura que se reflete mesmo na poesia metafórica de faixas como a delicada Bird – “E pássaro, se suas asas foram cortadas / Enquanto me pressionava contra seus lábios / Eu vou te libertar / Com o que sobrou das suas asas / Vou deixar você cantar“.

De fato, é justamente quando se entrega à força dos próprios sentimentos, em sua forma mais pura, que Korkejian revela os momentos de maior comoção do álbum. “Eu vou para a cama quase todas as noites sozinha / E com a luz, ainda não há ninguém / Eu estou em uma ilha sem ninguém por perto“, desaba emocionalmente em One More Time, faixa em que discute o isolamento dos indivíduos, sempre a espera de um novo amor. O mesmo conceito acaba se refletindo em Echo Park, canção de essência descritiva que passeia em meio a paisagens urbanas, reforçando a sensação de abandono do eu lírico.

Parte dessa melancolia explícita na construção dos versos utiliza do minimalismo que embala os arranjos como um evidente elemento de suporte. Como indicado logo nos primeiros minutos do disco, na solitária Under The Night, Korkejian parte sempre de uma base acústica, conduzida por ela mesma, para mergulhar em camadas de fina instrumentação. São paisagens atmosféricas que se completa pela inserção de arranjos de cordas, batidas e vozes duplicadas, cuidado evidente durante toda a execução da obra.

Utilizando dessa estrutura econômica, Korkejian revela ao público um registro tão acolhedor, como doloroso e sufocante, capaz de machucar o ouvinte. São melodias e vozes que se revelam ao público em pequenas doses, como porções da alma e experiências que bagunçaram a vida da cantora nos últimos meses. Um olhar curioso para tudo aquilo que a artista havia testado em Dusty Eyes, Solitary Daughter e algumas das principais músicas apresentadas no primeiro álbum de estúdio como Bedouine, porém, partindo de um novo e ainda mais sensível direcionamento conceitual.



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