"Mutable Set"

Ano: 2020
Selo: New Deal Records / Verve Records
Gênero: Rock, Folk, Indie
Para quem gosta de: Fiona Apple e Perfume Genius
Ouça: Vanishing Twin e Summer All Over
Nota: 8.6

Crítica | Blake Mills: “Mutable Set”

Blake Mills é um desses personagens invisíveis, porém, sempre presentes da indústria da música. Em mais de uma década de carreira, o multi-instrumentista norte-americano não apenas se relacionou criativamente com nomes como Fiona Apple, John Legend, Jesca Hoop e Sky Ferreira, como esteve diretamente envolvido na produção de algumas das obras mais sensíveis lançadas nos últimos anos, caso de No Shape (2017), de Perfume Genius, e Semper Femina (2017), um dos grandes registros de Laura Marling. Trabalhos sempre regidos pela interferência discreta do californiano, proposta que acaba se refletindo no quarto e mais recente álbum de estúdio do artista, o minimalista Mutable Set (2020, New Deal Records / Verve Records).

Marcado pela economia dos arranjos, o sucessor do também delicado Look EP (2018), entregue há dois anos, nasce como uma obra despida de possíveis excessos. É como se Blake transportasse para dentro de estúdio a mesma base esquelética que serve de sustentação aos trabalhos entregues por alguns de seus principais parceiros criativos. Canções pontuadas pelo reducionismo de pianos, batidas e guitarras, proposta que naturalmente preserva a identidade do músico californiano, porém, confessa de maneira sutil algumas de suas principais referências criativas.

Exemplo disso está no lirismo confessional de My Dear One, sétima faixa do disco. Marcada pela inserção de pequenos ruídos, o dedilhado acústico e pianos sempre complementares, a música composta em parceria com Cass McCombs, parceiro de longa data do artista, segue em um misto de canto e rima crua, proposta que tanto aponta para os momentos de maior entrega de Randy Newman como para o reducionismo melancólico de Elliott Smith. “Meu querido, abrigue meu coração / O céu ficou escuro“, desaba. É como se tudo fosse concebido em uma medida própria de tempo, cercando e confortando o ouvinte em um território intimista. Frações instrumentais e delírios poéticos que se revelam em pequenas doses, quase fisicamente, como se feito para serem acariciados pelo público.

É partindo desse mesmo direcionamento temático que Mills orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Off Grid. São versos curtos que se espalham em meio a delicadas paisagens instrumentais, estrutura que lembra as ambientações produzidas por Mark Hollis nos últimos trabalhos do Talk Talk, Spirit of Eden (1988) e Laughing Stock (1991). Canções que parecem flutuar em um espaço em branco, detalhando movimentos contidos e formas sempre abstratas, mágicas. Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade na serena Mirror Box, criação que vai do jazz ao cancioneiro norte-americano, como melodias e fórmulas pouco convencionais colidissem gentilmente.

Claro que esse direcionamento comedido não interfere na entrega de faixas acessíveis, conceito reforçado na dobradinha composta por Summer All Over e Vanishing Twin. São pouco mais de 11 minutos em que o músico californiano preserva o reducionismo presente no restante da obra, porém, entrega ao público uma seleção de versos que parecem pensados para emocionar o ouvinte. “Veja, não vai chover de novo / O inverno acabou / É verão em todo o mundo / Junho, a cor queimou / E agora, a velha melancolia mal a conhece“, canta. São momentos de doce celebração, como uma fuga do restante da obra, mas que acabam contribuindo para os instantes de maior melancolia, estrutura que tem sido explorada pelo artista desde o álbum anterior, Heigh Ho (2014).

Imenso, mesmo no recolhimento proposto pelo próprio realizador, Mutable Set é o típico caso de uma registro que exige uma audição atenta, tempo e considerável dedicação do ouvinte até se revelar por completo. São delicadas camadas instrumentais que mais parecem ocultar do que necessariamente apresentar respostas ao ouvinte. Entretanto, uma vez imerso nesse cenário de orquestrações cirúrgicas e versos quase inaudíveis, difícil não ser tragado pelas experiências sentimentais e sonoras sutilmente arquitetadas por Mills. Um lento desvendar de ideias que parte do surrealismo adotado pelo projeto gráfico de Emilio Villalba, responsável pelo encarte da obra, e segue em cada fragmento lírico ou melódico que serve de sustento ao disco.