"Blood"

Ano: 2019
Selo: Columbia
Gênero: Soul, R&B, Alternativa
Para quem gosta de: Sudan Archives e Spellling
Ouça: Due West e Foreign Car
Nota: 7.5

Crítica | “Blood”, Kelsey Lu

Mesmo com a boa repercussão em terno do primeiro EP de inéditas da carreira, o atmosférico Church (2016), Kelsey Lu decidiu esperar para produzir o primeiro álbum de estúdio. Nesse intervalo, a cantora e compositora norte-americana não apenas presenteou o público com uma série de novas composições, caso da delicada Shades of Blue, como estreitou a relação com diferentes nomes da cena alternativa. São trabalhos como Freetown Sound (2016), de Blood Orange, A Seat at The Table (2016), de Solange, Take Me Apart (2017), da Kelela, ou mesmo o experimental Age Of (2018), de Oneohtrix Point Never.

Tamanha versatilidade e forte relação com artistas vindos de diferentes campos da música acaba se refletindo na forma como a artista organiza as canções do recém-lançado Blood (2019, Columbia). Produto das ideias e experiências acumuladas pela cantora e compositora ao longo dos anos, o registro de 13 faixas, duas delas interlúdios, sintetiza o evidente desejo de Lu em avançar criativamente. São variações instrumentais e poéticas que sutilmente ampliam tudo aquilo que a musicista havia experimentado durante o lançamento de Church.

Exemplo disso está na própria sequência de abertura do disco. Em um lento processo de transformação estética, a cantora vai do uso de temas orquestrais originalmente testados nos primeiros trabalhos de estúdio, vide a atmosfera doce de Rebel e a acústica Pushin Against the Wind, para um ambiente movido pelo uso de temas eletrônicos. Todo esse processo resulta na composição de Due West, música que preserva a essência dos antigos registros da cantora, porém, estreita a relação da artista com o uso de elementos do R&B em uma linguagem puramente comercial.

Em Foreign Car, sexta composição do disco, o mesmo cruzamento de ideias que passeia por diferentes conceitos musicais. Entre ambientações jazzísticas que lembram a boa fase do Portishead, Lu convida o ouvinte a se perder em um universo de formas delirantes e versos marcados pelo evidente desejo de dominação. Um permanente exercício de transformação estética, conceito reforçado na faixa seguinte do disco, Poor Fake, criação que colide elementos da música disco, synthpop e R&B sem necessariamente fazer disso o estímulo para um registro confuso.

Importante notar que mesmo entregue ao reinvento da própria obra, Lu em nenhum momento se distancia do material entregue durante o lançamento de Church. É o caso de Atlantic, um pop orquestral que faz lembrar o último álbum de Florence + The Machine, High as Hope (2018), trabalho que contou com a colaboração da musicista norte-americana. Em Why Knock for You, a mesma estrutura atmosférica, porém, embalada de forma experimental, torta. A própria faixa-título do disco parece flutuar em uma nuvem de melodias detalhistas, estrutura que naturalmente aponta para o trabalho de veteranas como Kate Bush.

Entre composições puramente experimentais, caso de Down2Ride, e uma delicada interpretação para o clássico I’m Not In Love, música originalmente lançada em 1975 pelo grupo de soft rock 10cc, Kelsey Lu entrega ao público um trabalho em que se permite provar de novas possibilidades e ritmos, ampliando tudo aquilo que havia testado durante o lançamento de Church. Trata-se de uma obra crua e naturalmente inexata, estrutura típica de uma artista iniciante, mas que a todo momento estabelece pequenas direções criativas.